Marso SP, Bain SC, Consoli A, et al. Semaglutida e desfechos cardiovasculares em pacientes com diabetes tipo 2 (SUSTAIN 6). New England Journal of Medicine, 2016;375(19):1834-1844. https://doi.org/10.1056/NEJMoa1607141

Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Por que a caneta quase não causa hipoglicemia sozinha
A semaglutida e a tirzepatida agem sobre o sistema das incretinas, hormônios liberados pelo intestino depois das refeições. Elas estimulam o pâncreas a liberar insulina de forma dependente da glicose, ou seja, quando o açúcar no sangue está alto.
Quando a glicose cai, esse estímulo diminui. As bulas descrevem que, durante a hipoglicemia, a semaglutida reduz a secreção de insulina e não prejudica a liberação de glucagon, hormônio que faz o fígado devolver açúcar para o sangue.
É por isso que, nos estudos, não houve episódios de hipoglicemia grave em quem usou a caneta sozinha. Esse é um ponto que diferencia a classe de tratamentos mais antigos para diabetes.
Quando o risco aumenta
A combinação com outros medicamentos muda o cenário. Nos estudos de fase 3 que embasam as bulas de semaglutida, a hipoglicemia grave apareceu principalmente em quem também usava sulfonilureia, em 1,2% dos pacientes, ou insulina, em 1,5%.
Com outros antidiabéticos orais, fora as sulfonilureias, os episódios foram raros, em 0,1% dos pacientes. Entre as sulfonilureias mais usadas no Brasil estão glibenclamida, gliclazida e glimepirida, nomes que vale conferir na sua receita.
Por isso, as bulas orientam que a dose de insulina ou de sulfonilureia seja reduzida ao iniciar a caneta, com abordagem gradual no caso da insulina. Essa é uma decisão médica, feita junto com o ajuste do acompanhamento da glicemia.
Outros fatores contribuem, como pular refeições, beber álcool, aumentar muito a atividade física sem ajustar a alimentação e a própria perda de peso, que ao longo do tratamento reduz a necessidade de insulina.
Perca peso com acompanhamento
Quem usa a caneta só para emagrecer corre esse risco?
O risco é baixo. Sem diabetes e sem medicamentos que forçam a liberação de insulina, a chance de hipoglicemia verdadeira é pequena, e as bulas não trazem hipoglicemia como efeito comum nesse cenário.
O que acontece com frequência é outra coisa. Comer muito pouco por causa da queda do apetite provoca fraqueza, tontura, tremor e irritabilidade, sintomas parecidos com os de uma queda de glicose, mas que vêm da alimentação insuficiente e da desidratação.
A saída, nesse caso, não é açúcar, e sim reorganizar as refeições, garantindo proteína e líquidos ao longo do dia, assunto que detalhamos em o que comer usando canetas emagrecedoras.
Se os sintomas forem frequentes ou intensos, vale medir a glicose no momento do mal-estar e levar o resultado à consulta, porque só a medição separa uma coisa da outra.
Hipoglicemia e perda de peso ao longo do tratamento
Existe um efeito que aparece meses depois do início e costuma pegar as pessoas de surpresa. À medida que o peso cai e a sensibilidade à insulina melhora, a dose de insulina ou de sulfonilureia que antes estava adequada pode passar a ser excessiva.
Quando isso acontece, episódios de queda de glicose começam a surgir sem mudança aparente na rotina. É um sinal de que o tratamento está funcionando e precisa de reajuste, e não de que a caneta parou de ser segura.
Por isso, quem usa esses medicamentos costuma manter um controle mais frequente da glicemia durante a fase de emagrecimento, com consultas mais próximas. A relação entre peso, glicose e resposta do corpo aparece com mais detalhe em resistência à insulina.
Como reconhecer uma hipoglicemia
Os primeiros sinais vêm da reação do corpo à queda do açúcar, com tremor, suor frio, palidez, coração acelerado, fome súbita e ansiedade. Eles funcionam como um alarme.
Se a glicose continua caindo, o cérebro sente a falta de combustível, e aparecem confusão mental, fala arrastada, visão turva, sonolência e dificuldade de raciocínio. Nos casos graves, pode haver convulsão ou perda de consciência, situação de emergência.
Nas bulas, a hipoglicemia grave é definida como aquela que exige ajuda de outra pessoa ou que vem com sintomas e glicemia abaixo de 55,8 mg/dL. Quem usa insulina ou sulfonilureia deve ter um medidor de glicose à mão.
O que fazer na hora
Diante dos primeiros sintomas, a orientação da Sociedade Brasileira de Diabetes é consumir 15 gramas de carboidrato simples.
Isso equivale a uma colher de sopa de açúcar, que pode ser diluída em água, uma colher de sopa de mel, 150 ml de refrigerante comum ou de suco de laranja integral, ou de três a quatro balas mastigáveis.
Vale manter sempre à mão o que usar na correção, como sachê de açúcar, mel ou balas, sobretudo fora de casa.
Depois de 15 minutos, mede-se a glicose de novo. Se continuar baixa, repete-se a dose de carboidrato. Quando a glicemia normaliza e a próxima refeição está a mais de uma hora, a orientação é fazer um lanche com fibras, proteína e gordura, para evitar nova queda.
Na hora da correção, porém, o carboidrato simples deve vir sozinho. Chocolate, leite e biscoitos recheados não servem, porque gordura, fibra e proteína retardam o esvaziamento gástrico e atrasam a subida da glicose, efeito que a caneta já acentua.
Se a pessoa estiver desacordada ou com convulsão, nada deve ser oferecido pela boca, e o caminho é acionar o serviço de emergência. Existe ainda o glucagon injetável, que pode ser aplicado por um acompanhante treinado, mas a decisão de prescrevê-lo é individual e cabe ao médico, conforme o risco de cada pessoa.
Vale também avisar as pessoas próximas. Quem convive com você precisa saber que a queda de glicose pode acontecer, o que fazer nos primeiros sinais e quando chamar ajuda, porque nos casos mais graves a própria pessoa não consegue agir.
Como reduzir o risco no dia a dia
O primeiro passo é revisar a receita inteira com o médico ao começar a caneta, para ajustar insulina e sulfonilureia. Suspender ou mudar dose por conta própria é o que mais causa problema, nos dois sentidos.
Anotar os episódios ajuda mais do que parece. Registrar horário, o que foi comido antes, a glicemia medida e o que resolveu dá ao médico o material para ajustar doses com precisão.
Manter refeições regulares, evitar álcool em jejum e ajustar a alimentação quando a atividade física aumenta também ajudam. Exames como a hemoglobina glicada mostram a média da glicose e orientam esses ajustes.
Vale lembrar que o benefício do tratamento continua grande. No SUSTAIN-6, com 3.297 pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, a semaglutida reduziu em 26% os eventos cardiovasculares maiores, e a hipoglicemia é um risco manejável com acompanhamento.
Quem usa insulina, sulfonilureia ou teve episódios recentes deve contar isso em toda consulta, inclusive antes de mudanças de dose da caneta.
O que lembrar:
- As canetas de GLP-1 raramente causam hipoglicemia quando usadas sozinhas, porque agem de forma dependente da glicose.
- O risco aumenta na associação com insulina ou sulfonilureia, situação em que a dose desses medicamentos costuma ser reduzida.
- Nos estudos, hipoglicemia grave ocorreu em 1,2% de quem usava sulfonilureia e em 1,5% de quem usava insulina.
- Tremor, suor frio, fome súbita e confusão mental são sinais de alerta, e a hipoglicemia grave exige ajuda de outra pessoa.
- A conduta imediata é consumir cerca de 15 g de carboidrato rápido e medir a glicose 15 minutos depois.
- Fraqueza e tontura em quem não tem diabetes costumam vir de comer pouco, e não de hipoglicemia.


