
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Fazer musculação durante o tratamento com caneta emagrecedora é recomendado, e a razão é concreta: cerca de um quarto do peso perdido com esses medicamentos corresponde a massa magra, e o treino de força é a principal ferramenta para mudar essa proporção a favor da gordura.
Mas atenção: existe muita informação alarmista sobre o assunto que precisa de esclarescimento. Essa proporção não é uma peculiaridade do medicamento. Em qualquer processo de emagrecimento, seja por dieta, cirurgia ou remédio, parte do que se perde é massa magra, e os números com GLP-1 são semelhantes aos de uma restrição calórica equivalente.
O que muda com as canetas é a velocidade e a magnitude da perda, o que torna as estratégias de preservação mais relevantes. Este texto reúne o que os estudos mostram sobre os medicamentos GLP-1 e o treino de força, e como adaptar a rotina aos efeitos do tratamento.
O que acontece com a massa magra durante o tratamento
Uma meta-análise de rede publicada na Metabolism, reunindo 22 ensaios clínicos randomizados e 2.258 participantes, quantificou o fenômeno: a perda de massa magra correspondeu a aproximadamente 25% da perda total de peso com agonistas de GLP-1.
Para efeito de comparação, essa é praticamente a mesma proporção observada em déficit calórico sem medicamento, o que sustenta a leitura de que os GLP-1 não são especificamente catabólicos para o músculo. Eles são eficazes na perda de peso, e perda de peso envolve alguma perda de massa magra por definição.
Há um dado que costuma passar despercebido e que muda a interpretação: o percentual de massa magra em relação ao peso total não piora durante o tratamento. Como a perda de gordura é proporcionalmente maior, a composição corporal relativa tende a melhorar.
A mesma meta-análise observou que os medicamentos mais potentes, tirzepatida 15 mg e semaglutida 2,4 mg, foram os mais eficazes na redução de peso e gordura, e também os menos eficientes na preservação de massa magra em termos absolutos. Faz sentido: perde-se mais de tudo.
Quem tem mais motivo para atenção
O impacto funcional da perda de massa magra não é igual para todo mundo. Alguns grupos partem de uma reserva menor e por isso merecem monitoramento mais próximo da composição corporal:
- Pessoas acima de 65 anos, em quem o risco de sarcopenia já é elevado;
- Mulheres na pós-menopausa e homens com queda de testosterona relacionada à idade;
- Pessoas sedentárias, sem histórico de treino de força;
- Quem tem ingestão proteica cronicamente baixa;
- Portadores de condições como doença renal crônica ou doença inflamatória intestinal.
Para essas pessoas, preservar músculo não é questão estética nem metabólica apenas. Tem impacto direto em mobilidade, densidade óssea e independência a longo prazo.
O que os estudos mostram sobre treino e GLP-1
O ensaio mais citado nessa discussão foi publicado no New England Journal of Medicine em 2021.
Depois de uma dieta de baixa caloria, 195 adultos com obesidade foram distribuídos em quatro grupos por um ano: exercício com placebo, liraglutida com atividade habitual, exercício combinado com liraglutida, e placebo com atividade habitual.
Comparados ao placebo, todos os grupos ativos mantiveram mais perda de peso: 4,1 kg no grupo de exercício, 6,8 kg no de liraglutida e 9,5 kg no grupo combinado.
Mas o resultado mais revelador não está no peso. O grupo combinado reduziu o percentual de gordura corporal em 3,9 pontos percentuais, cerca do dobro do que exercício ou medicamento isolados alcançaram. E apenas o grupo combinado apresentou melhora em hemoglobina glicada, sensibilidade à insulina e condicionamento cardiorrespiratório.
No campo da tirzepatida, o subestudo de imagem do SURPASS-3, publicado no Lancet Diabetes and Endocrinology, avaliou composição corporal por ressonância magnética ao longo de 52 semanas e encontrou redução da gordura infiltrada no músculo, com preservação do volume muscular magro.
Por que isso importa depois do tratamento
Existe uma consequência de longo prazo que raramente aparece nas conversas sobre emagrecimento. O músculo é metabolicamente ativo, e menos músculo significa gasto energético de repouso menor, o que dificulta a manutenção do peso.
Quem emagrece preservando massa magra chega ao fim do tratamento em melhores condições de sustentar o resultado, o que é especialmente relevante diante do que os estudos mostram sobre reganho após a interrupção.
Como adaptar o treino ao tratamento
Não existe rotina universal, e a montagem do treino é trabalho de um educador físico, idealmente alinhado com o médico que acompanha o caso. Mas alguns princípios já estão razoavelmente consolidados e servem de ponto de partida para a conversa com esses profissionais.
A referência mais citada para quem está em tratamento com GLP-1 é de duas a três sessões semanais de treino resistido, com carga progressiva conforme a adaptação. Combinar isso com atividade aeróbica é o cenário ideal, mas quando o tempo é curto, o treino de força tem prioridade nesse contexto específico, porque é ele que sinaliza ao corpo a necessidade de manter o músculo. Sobre o papel do exercício no tratamento como um todo, veja emagrecer sem exercício: é possível?.
Lidando com náusea e fadiga nos dias de treino
Sintomas gastrointestinais são frequentes no início do tratamento e nas mudanças de dose, e ignorá-los costuma comprometer tanto a adesão ao treino quanto a recuperação. O manejo dos efeitos colaterais tem estratégias gerais, e algumas se aplicam especificamente ao contexto do exercício:
- Treinar nos dias mais distantes da aplicação semanal, já que a concentração do medicamento no sangue atinge o pico alguns dias após a injeção e os sintomas tendem a acompanhar esse pico.
- Evitar treinar logo após as refeições, porque o esvaziamento gástrico retardado mantém o estômago cheio por mais tempo e movimentos bruscos agravam o desconforto.
- Nas semanas de ajuste de dose, reduzir o volume do treino em vez da intensidade. Manter a carga relativa é o que preserva o estímulo de manutenção muscular; o que pode diminuir é o número de séries.
- Priorizar exercícios que recrutam vários grupos musculares ao mesmo tempo quando a energia estiver baixa, porque eles entregam mais estímulo por série realizada.
Qualquer sintoma que persista ou piore com o exercício deve ser comunicado ao médico responsável pelo tratamento.
Proteína: o outro lado da equação
Treino sem proteína suficiente preserva pouco. E durante o tratamento a ingestão proteica costuma cair sem que a pessoa perceba, justamente porque o apetite diminui: come-se menos no geral, e a proteína cai junto.
Um consenso internacional publicado em 2025 recomenda ingestão acima de 1,2 g de proteína por quilo de peso corporal por dia para quem está em tratamento com GLP-1, distribuída ao longo das refeições. Para pessoas com maior risco de sarcopenia, os valores podem ser mais altos, e o cálculo é individual, feito por nutricionista ou médico.
Como o volume de comida diminui e alimentos proteicos costumam ser volumosos, suplementos podem ajudar a atingir a meta sem sobrecarregar o estômago. A avaliação de quando e como usá-los cabe ao nutricionista.
A creatina também tem evidência consistente, mas com uma condição que precisa ser dita: os benefícios sobre força e massa magra aparecem quando ela é combinada com treino resistido, não isoladamente.
Quando procurar orientação profissional
Antes de começar qualquer rotina de treino durante o tratamento, e com regularidade ao longo dele.
Cada profissional cobre um ângulo que os outros não alcançam: o médico ajusta a dose e monitora os efeitos do tratamento, o nutricionista garante que a proteína chegue mesmo com o apetite reduzido, e o educador físico estrutura um treino compatível com o momento do tratamento e o condicionamento atual.
Para os grupos de maior vulnerabilidade, o monitoramento da composição corporal ao longo do tratamento, e não apenas do peso na balança, é o que permite ajustar a estratégia antes que a perda de massa magra se torne um problema funcional.
O que lembrar
- Cerca de 25% do peso perdido com GLP-1 corresponde a massa magra, proporção semelhante à observada em déficit calórico sem medicamento.
- O percentual de massa magra em relação ao peso total não piora durante o tratamento, porque a perda de gordura é proporcionalmente maior.
- O treino de força é a principal ferramenta para deslocar essa proporção a favor da perda de gordura.
- No ensaio do NEJM, a combinação de exercício e medicamento reduziu o percentual de gordura corporal cerca de duas vezes mais do que cada estratégia isolada.
- A referência é de duas a três sessões semanais de treino resistido, com progressão definida por um educador físico.
- A ingestão proteica recomendada durante o tratamento é acima de 1,2 g por quilo de peso por dia, calculada individualmente.





