
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Em outubro de 2025, a Anvisa aprovou uma nova indicação para a tirzepatida (Mounjaro): o tratamento da síndrome da apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade.
É uma mudança relevante porque, pela primeira vez, um medicamento foi aprovado no Brasil especificamente para tratar essa condição, que afeta cerca de 30% dos adultos no país e permanece largamente subdiagnosticada.
A relação entre obesidade e apneia do sono
A apneia obstrutiva do sono acontece quando as vias aéreas colapsam repetidamente durante o sono, interrompendo a respiração por segundos ou minutos.
A cada episódio, o cérebro acorda brevemente o corpo para retomar a respiração, num processo que pode se repetir dezenas de vezes por hora sem que a pessoa perceba.
A obesidade é um dos principais fatores de risco para essa condição. O acúmulo de gordura na região do pescoço e da faringe estreita as vias aéreas, especialmente na posição deitada.
Mas a relação não é só de causa: a privação de sono causada pela apneia altera hormônios ligados ao apetite, aumenta o cortisol e dificulta a perda de peso. É um ciclo que se sustenta sozinho.
Problema antigo, solução nova
Perda de peso é recomendação padrão para apneia obstrutiva em pessoas com obesidade há décadas. O que não existia era um medicamento aprovado para essa finalidade específica.
O CPAP (aparelho de pressão positiva contínua nas vias aéreas) permaneceu por anos como única opção terapêutica amplamente disponível, mas a adesão de longo prazo é um desafio real para muitos pacientes.
O que a Anvisa aprovou e por quê
A decisão regulatória de 18 de outubro de 2025 estende a indicação do Mounjaro para apneia obstrutiva moderada a grave em adultos com obesidade.
A base científica é o estudo SURMOUNT-OSA, publicado no New England Journal of Medicine em junho de 2024 e considerado um marco no campo.
Uma observação importante: a aprovação é da tirzepatida, não da classe toda. A semaglutida (Wegovy e Ozempic) não foi avaliada em estudos de fase 3 para apneia do sono e não tem essa indicação em bula no Brasil nem nos EUA. As duas pertencem à classe dos agonistas de GLP-1, mas são moléculas diferentes com aprovações diferentes.
O que o estudo mostrou
O SURMOUNT-OSA foi um ensaio clínico de fase 3, randomizado, duplo-cego e controlado por placebo, conduzido com 469 adultos com obesidade e apneia moderada a grave ao longo de 52 semanas.
O estudo foi dividido em dois grupos. O primeiro incluiu pessoas que não usavam CPAP (o aparelho que ajuda a respirar durante o sono). O segundo incluiu pessoas que já usavam o CPAP e continuariam com ele.
O principal resultado analisado foi o índice de apneia-hipopneia (IAH), que conta quantas vezes por hora a pessoa tem pausas ou reduções na respiração durante o sono. Em pessoas saudáveis, esse número é menor que 5. Entre 5 e 14 indica apneia leve, de 15 a 30 moderada e acima de 30, grave.
- No grupo que não usava CPAP, a tirzepatida reduziu em média 25,3 episódios por hora, enquanto o placebo reduziu 5,3.
- No grupo que já usava CPAP, a redução foi de 29,3 com tirzepatida contra 5,5 com placebo.
Em outras palavras, a melhora foi muito maior com a medicação.
Em termos percentuais, isso significa uma redução de até 62,8% no índice de apneia com tirzepatida, contra 6,4% no grupo placebo.
Outros resultados importantes
Cerca de 43% das pessoas do primeiro grupo e 51,5% do segundo praticamente deixaram de ter a doença, segundo os critérios dos pesquisadores, que combinaram o índice de apneia com a sonolência durante o dia.
Além disso, a tirzepatida também melhorou outros aspectos da saúde, como a quantidade de tempo com baixa oxigenação durante o sono, a pressão arterial, marcadores de inflamação no sangue e sintomas percebidos pelos pacientes, como menos sono durante o dia, melhor qualidade do sono e mais qualidade de vida.
O que a tirzepatida não faz
Com resultados dessa magnitude, é natural que pacientes queiram saber se podem abandonar o CPAP. A resposta é: não sem avaliação médica.
A retirada do aparelho depende de nova polissonografia e critérios clínicos objetivos, porque a resolução ocorreu em cerca de metade dos participantes dos estudos, não em todos. Para a outra metade, a apneia melhorou, mas persistiu.
A indicação também é específica: apneia moderada a grave com obesidade (IMC igual ou acima de 30 kg/m²). Pacientes com apneia leve ou sem obesidade não estão incluídos na aprovação. E o medicamento não elimina a necessidade de acompanhamento médico contínuo, monitoramento da doença e, em muitos casos, uso concomitante do CPAP.
O que lembrar
- A Anvisa aprovou em outubro de 2025 a tirzepatida (Mounjaro) como primeiro medicamento indicado para o tratamento da apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade no Brasil.
- A base são os dois estudos SURMOUNT-OSA, publicados no New England Journal of Medicine, que mostraram reduções de 25 a 29 eventos por hora no IAH e resolução da doença em 43 a 51% dos participantes.
- A semaglutida não tem essa indicação.
- O medicamento complementa, mas não substitui, o CPAP sem avaliação médica.




