Jastreboff AM, Aronne LJ, Ahmad NN, et al. Tirzepatida uma vez por semana para o tratamento da obesidade (SURMOUNT-1). New England Journal of Medicine, 2022;387(3):205-216. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2206038
Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde. Por que a alimentação muda com o Mounjaro?
O Mounjaro tem como princípio ativo a tirzepatida, que imita dois hormônios liberados pelo intestino depois das refeições, o GLP-1 e o GIP. Eles avisam ao cérebro que a fome pode diminuir e deixam o estômago esvaziar mais devagar.
O resultado aparece no dia a dia. A sensação de saciedade chega antes, a vontade de comer entre as refeições diminui e a comida perde parte do espaço que ocupava na cabeça.
Com porções menores, cada refeição precisa render mais em nutrientes. Não é o caso de cortar grupos de alimentos, e sim de montar pratos mais completos dentro de um volume menor.
O que priorizar no prato?
A proteína ganha destaque, porque a perda de peso rápida vem acompanhada de perda de massa muscular, e manter o músculo protege a força, o metabolismo e a autonomia no longo prazo. Boas fontes são ovos, frango, peixe, carne magra, iogurte, queijos brancos, feijão, lentilha, grão de bico e tofu.
As fibras vêm logo em seguida, porque ajudam com a prisão de ventre e com a diarreia, dois efeitos comuns do tratamento. Elas estão nos feijões, nas frutas com casca, nos legumes, na aveia e nos grãos integrais.
Carboidratos continuam bem-vindos, de preferência os que demoram mais para digerir, como arroz integral, batata-doce, mandioca, aveia e leguminosas. Não existe recomendação de dieta low carb ou cetogênica para quem usa Mounjaro.
As gorduras entram em menor quantidade e com preferência para as insaturadas, como azeite, abacate, castanhas e peixes como sardinha. Refeições muito gordurosas costumam piorar o enjoo, principalmente nas primeiras semanas.
Para o desenho geral das refeições, o raciocínio é o mesmo que já detalhamos no post sobre o que comer usando canetas emagrecedoras.
Como montar uma refeição quando o apetite está baixo
Uma referência simples é dividir o prato. Metade fica com legumes e verduras, um quarto com a fonte de proteína e um quarto com o carboidrato, com um fio de azeite. Em porções pequenas, vale começar pela proteína, que é o item mais difícil de repor depois.
Exemplos brasileiros cabem bem nesse desenho. Arroz com feijão, um ovo e salada. Escondidinho de mandioca com carne moída magra e couve. Tapioca com queijo branco e mamão. Omelete com tomate e uma fruta. Peixe assado com purê de abóbora e brócolis.
Se a refeição inteira não desce, dividir em duas partes, com um intervalo de uma ou duas horas, costuma funcionar melhor do que pular a refeição.
Hidratação também merece atenção, porque enjoo, vômito e diarreia aumentam a perda de líquidos. Manter uma garrafa por perto e beber ao longo do dia ajuda, e bebidas com gás podem piorar o inchaço.
Quer perder peso com acompanhamento certo?
Preciso contar calorias?
Na maior parte dos casos, não. A redução do apetite costuma diminuir naturalmente o que se come, e a conta de calorias pode virar mais uma fonte de ansiedade.
Quando existe uma meta, ela é definida por médico ou nutricionista, considerando peso, altura, rotina, exames e a dose em uso. Cardápios fechados encontrados na internet não levam nada disso em conta.
Vale ficar atento ao extremo oposto, que é comer muito pouco. Comer abaixo do necessário por semanas aumenta o cansaço, a queda de cabelo e a perda de músculo, e pode alimentar o ciclo de restrição e compulsão.
O que evitar ou reduzir
Nenhum alimento está proibido, mas alguns costumam atrapalhar mais durante o tratamento. Frituras e pratos muito gordurosos pesam no estômago que já esvazia devagar, e ultraprocessados entregam pouca proteína e pouca fibra em muitas calorias.
O álcool merece cuidado especial. Ele irrita o estômago, atrapalha o sono e, em quem usa insulina ou sulfonilureia junto com a tirzepatida, aumenta o risco de queda de glicose.
Comidas muito condimentadas e refrigerantes costumam incomodar mais nas primeiras semanas e depois de cada aumento de dose, que é quando os efeitos digestivos ficam mais fortes.
E quando os efeitos digestivos aparecem?
Enjoo, prisão de ventre, diarreia e refluxo são os efeitos mais comuns da tirzepatida, e costumam ser mais intensos no início e depois de cada aumento de dose. A alimentação não resolve tudo, mas alivia boa parte do desconforto.
A tabela abaixo reúne o que costuma ajudar em cada situação. Se os sintomas persistirem, piorarem ou vierem com dor abdominal forte, a avaliação médica é necessária, pela possibilidade de pancreatite.
Alimentos anti-inflamatórios também podem entrar nessa rotina e ajudar muito no tratamento.
O que comer em cada efeito colateral
Exercício e massa muscular
A alimentação sozinha não segura o músculo. Treino de força duas vezes por semana, somado a pelo menos 150 minutos de atividade moderada, é a combinação recomendada para adultos e ajuda a preservar massa magra durante a perda de peso.
Esse cuidado também pesa no resultado de longo prazo. No SURMOUNT-1, publicado em 2022 no New England Journal of Medicine, a tirzepatida 15 mg levou a perda média de 22,5% do peso em 72 semanas, sempre associada a orientação de alimentação e atividade física.
Com o tempo, a perda desacelera, o que é esperado e tem explicação fisiológica, tema do post sobre o platô no tratamento. As informações clínicas deste artigo passaram pela revisão médica do Dr. Earim Chaudry.
O que lembrar:
- Não existe dieta única para o Mounjaro, e o foco é a qualidade das refeições, que ficam menores.
- Proteína em todas as refeições ajuda a preservar a massa muscular durante a perda de peso.
- Fibras e líquidos ajudam com prisão de ventre e diarreia, dois efeitos comuns.
- Frituras, ultraprocessados, álcool e bebidas com gás costumam piorar os sintomas digestivos.
- Metas de calorias e de proteína são definidas com médico ou nutricionista, e não por cardápios prontos.


