
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Elas aparecem em anúncios chamativos, prometem resultados rápidos e custam uma fração do preço dos medicamentos vendidos em farmácias.
As chamadas “canetas do Paraguai” se espalharam pelo Brasil justamente explorando uma combinação perigosa: alta demanda por tratamentos para obesidade e pouca informação sobre riscos sanitários reais.
Enquanto medicamentos como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saxenda passam por um longo processo de avaliação antes de chegar ao paciente, essas versões entram no país sem qualquer controle oficial. É por isso que, a partir de 2025 e com ainda mais força em 2026, a Anvisa intensificou a fiscalização e proibiu expressamente esses produtos. Não se trata de burocracia excessiva, mas de proteção à saúde pública.
O que são as canetas proibidas pela Anvisa
Antes de tudo, é importante separar as coisas. Nem todo medicamento injetável para emagrecimento é ilegal no Brasil, e essa confusão é comum.
Medicamentos aprovados continuam liberados
Canetas como Ozempic, Wegovy, Mounjaro e Saxenda têm registro na Anvisa, indicação aprovada e só podem ser usadas com prescrição médica. Elas passaram por estudos clínicos, avaliações de segurança, eficácia e controle de qualidade.
Onde está o problema
O foco da proibição são as versões contrabandeadas, geralmente associadas ao Paraguai, que alegam conter substâncias como semaglutida, tirzepatida ou retatrutida.
Essas canetas são divulgadas principalmente nas redes sociais, com promessas de emagrecimento rápido, ausência de efeitos colaterais e preços até dez vezes menores do que os praticados no mercado regular.
Marcas como Lipoless, TG, Synedica, Tirzazep e similares não possuem registro na Anvisa. Isso significa que nunca passaram por qualquer avaliação oficial no Brasil.
Por que a Anvisa intensificou a fiscalização em 2026
O endurecimento das regras não aconteceu por acaso. Ele foi uma resposta direta ao crescimento acelerado do comércio ilegal e aos riscos cada vez mais evidentes para a população.
Resoluções e proibições específicas
Desde setembro de 2025, a Anvisa publicou ao menos cinco resoluções proibindo marcas e substâncias específicas. Em janeiro de 2026, a Resolução RE nº 192 consolidou a proibição da tirzepatida associada às marcas Synedica e TG, além de vetar todas as versões de retatrutida, independentemente do fabricante ou lote.
O que motivou a decisão
Três fatores principais explicam o aumento da fiscalização.
O primeiro foi a explosão da venda ilegal, especialmente no Instagram. Perfis anunciam as canetas de forma aberta, sem exigir receita, oferecendo entrega rápida e pagamento facilitado.
O segundo foram as apreensões. Em maio de 2025, a Receita Federal apreendeu 126 canetas em Foz do Iguaçu. O responsável confessou que comprou os produtos na Europa, passou pelo Paraguai e pretendia revendê-los no Brasil por cerca de R$ 3.000 cada. Outras operações da Polícia Militar e da Vigilância Sanitária também resultaram na apreensão de centenas de unidades.
O terceiro fator, e o mais grave, foram os casos de internação associados ao uso dessas canetas.
Casos reais que acenderam o alerta
Os riscos deixaram de ser apenas teóricos quando começaram a aparecer nos hospitais.
Em dezembro de 2025, uma mulher de 42 anos foi internada em Belo Horizonte após usar uma caneta comprada no Paraguai. O diagnóstico foi pancreatite associada à intoxicação medicamentosa, com necessidade de cuidados intensivos.
As investigações médicas levantaram ainda a possibilidade de relação com a Síndrome de Guillain-Barré, uma condição neurológica rara e potencialmente grave.
Esse não foi um caso isolado, e ajudou a reforçar a urgência das medidas adotadas pela Anvisa.
O que realmente existe dentro dessas canetas
Essa é a pergunta central e, ao mesmo tempo, a mais preocupante. Em muitos casos, simplesmente não há como saber.
Resultados de análises e apreensões
Análises feitas em amostras apreendidas mostraram problemas que vão muito além da ausência de registro. Algumas canetas apresentavam coloração alterada, presença de impurezas e falhas graves de qualidade. Em situações extremas, não havia sequer o princípio ativo declarado. Algumas continham apenas álcool.
Riscos imprevisíveis
Segundo a endocrinologista Claudia Schimidt, do Hospital Albert Einstein, em entrevista à Veja Saúde, os riscos são potencialmente sérios e imprevisíveis. Não existe forma de prever quem terá apenas efeitos leves e quem pode evoluir para complicações graves.
Um caso emblemático ocorreu no Rio de Janeiro, em 2024. Uma pessoa aplicou o que acreditava ser Ozempic, mas a caneta continha insulina. O resultado foi uma hipoglicemia grave, com internação em UTI.
Além disso, o Paraguai não possui uma agência sanitária com o mesmo rigor da Anvisa. Isso significa ausência de fiscalização adequada sobre fabricação, armazenamento e transporte. A cadeia de frio, essencial para medicamentos biológicos, frequentemente não é respeitada no contrabando.
O argumento do preço realmente se sustenta?
É inegável que o preço chama atenção. Uma caneta de Mounjaro 2,5 mg custa em torno de R$ 1.400 nas farmácias brasileiras. As versões paraguaias aparecem anunciadas por valores muito menores. Mas economia não é sinônimo de segurança.
A Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, declarou oficialmente que produtos como Lipoless, TG e Tirzec não são equivalentes ao medicamento original e não foram aprovados pela Anvisa como genéricos ou qualquer outra categoria. A empresa classifica essas versões como falsificações.
Como a tirzepatida é protegida por patente e não é comercializada fora das canetas aprovadas, qualquer produto que alegue conter essa substância fora desse contexto levanta sérias dúvidas sobre origem e composição.
Importação para uso pessoal é permitida?
Não. Nem mesmo com receita médica. Embora exista uma via legal para importação excepcional de medicamentos sem registro, mediante autorização prévia da Anvisa, essa possibilidade não se aplica às canetas proibidas.
A Resolução RE nº 192/2026 é clara ao afirmar que esses produtos não podem ser importados em nenhuma hipótese, inclusive para uso pessoal. Trazer canetas do Paraguai, mesmo com prescrição, configura crime contra a saúde pública.
Consequências legais para quem compra ou vende
Os riscos não são apenas à saúde. As consequências legais também são relevantes.
Quem é flagrado transportando essas canetas pode ter o produto apreendido, receber multas e responder criminalmente. Em situações que indicam comercialização, como grandes quantidades ou mensagens de venda, as penalidades são ainda mais severas.
Clínicas, consultórios ou estabelecimentos que armazenam ou aplicam essas canetas também podem ser punidos. Em janeiro de 2026, a Vigilância Sanitária de João Pessoa autuou responsáveis por aplicar canetas paraguaias, com penalidades que incluíram apreensão de produtos, multas e possibilidade de interdição.
A Receita Federal reforça que a entrada de mercadorias estrangeiras sem regularização fiscal é crime e pode ser denunciada de forma anônima.
Como identificar canetas emagrecedoras irregulares
Alguns sinais ajudam a reconhecer produtos sem registro:
- Rótulos apenas em língua estrangeira, sem versão oficial em português
- Venda sem exigência de receita médica
- Anúncios em redes sociais prometendo entrega rápida ou ausência de burocracia
- Preços muito abaixo do mercado regular
- Marcas que não aparecem no site da Anvisa
Desde junho de 2025, todos os medicamentos agonistas de GLP-1 no Brasil exigem prescrição médica em duas vias, com retenção da receita na farmácia. Se alguém ignora essa regra, o alerta deve acender.
Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.




