Mendes FF, Carvalho LIM, Lopes MB. Agonistas do GLP-1 na medicina perioperatória: suspender ou não suspender. Brazilian Journal of Anesthesiology, 2024. https://doi.org/10.1016/j.bjane.2024.844538

Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Por que a caneta preocupa em uma anestesia?
Semaglutida e tirzepatida agem no sistema do GLP-1, que sinaliza saciedade ao cérebro e faz o estômago esvaziar mais devagar. Esse efeito ajuda no tratamento, mas cria um problema quando é preciso dormir para um procedimento.
Durante a anestesia geral ou a sedação profunda, os reflexos que protegem a via aérea ficam reduzidos. Se ainda houver conteúdo no estômago, ele pode voltar e chegar aos pulmões, o que se chama broncoaspiração e pode causar pneumonia grave.
As bulas das canetas já trazem esse alerta. Elas registram casos de aspiração pulmonar em pessoas que usavam agonistas de GLP-1 durante anestesia geral ou sedação profunda, e orientam a equipe a considerar o risco de conteúdo gástrico residual antes do procedimento.
O que dizem as sociedades médicas?
Em 2023, a Sociedade Americana de Anestesiologistas recomendou suspender as canetas antes de qualquer procedimento com anestesia, por uma semana nas versões semanais e por um dia nas diárias. A regra era simples, mas deixava muita gente sem tratamento por tempo indefinido.
Em 2024, cinco entidades americanas, entre elas as de anestesiologia, gastroenterologia e cirurgia bariátrica, publicaram uma orientação conjunta com outra abordagem.
Em vez de suspender todo mundo, passaram a defender a avaliação de risco individual, considerando dose, fase do tratamento e sintomas digestivos.
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia atualizou sua nota em maio de 2026 na mesma direção, com conduta individualizada, jejum definido pelo anestesista e uso do ultrassom gástrico à beira do leito para avaliar o que restou no estômago.
A divergência continua, e uma carta publicada em 2025 no Brazilian Journal of Anesthesiology resume o quadro. A Sociedade Brasileira de Diabetes orienta suspender a semaglutida por 21 dias e a tirzepatida por 15 dias antes de procedimentos com anestesia, enquanto sociedades britânicas recomendam manter o tratamento, com decisão compartilhada sobre o risco.
Essa diferença tem explicação. Como aponta um editorial do mesmo periódico, ainda faltam estudos que sustentem uma conduta única, e cada sociedade pesa de forma diferente o risco de aspiração e o prejuízo de interromper o tratamento.
Quer perder peso com acompanhamento certo?
Vale lembrar que o risco existe, mas não é frequente. O que as sociedades discutem é como reduzir ainda mais a chance de um evento raro e grave, sem tirar de milhares de pessoas um tratamento que está funcionando.
Quem tem mais risco de complicação?
Os fatores que mais pesam são o momento do tratamento e os sintomas. Quem está subindo a dose tem mais chance de ter o estômago lento do que quem já está em dose estável há meses, e doses maiores aumentam os efeitos digestivos.
Também entram na conta enjoo, vômito, sensação de estufamento e refluxo nos dias que antecedem o procedimento, além de diabetes de longa data, gastroparesia e uso de remédios que também retardam a digestão, como alguns analgésicos opioides.
Do outro lado, procedimentos de emergência, cirurgias longas e anestesia geral com via aérea desprotegida elevam o risco em comparação com sedações leves.
O que fazer antes do procedimento
A conduta prática começa semanas antes, quando a cirurgia é marcada. Se você já sabe a data, leve o assunto para a consulta com quem prescreve a caneta, porque um ajuste combinado com antecedência evita decisões apressadas na véspera.
O primeiro passo é avisar. Na consulta pré-anestésica, informe o nome da caneta, a dose atual, há quanto tempo está nessa dose e a data da última aplicação. Esse conjunto de informações muda a conduta.
A partir daí, a equipe decide. Pode manter a caneta, pedir que você pule uma aplicação, orientar dieta líquida no dia anterior, ajustar o tempo de jejum ou pedir o ultrassom gástrico na hora.
Se a orientação for suspender, ela precisa vir com um plano de retomada, respeitando a lógica do escalonamento das doses. Principalmente para quem tem diabetes, porque a pausa pode desorganizar o controle da glicemia.
Uma coisa que não se faz é decidir sozinho. Suspender por conta própria pode trazer de volta a fome intensa e piorar o controle da glicemia, e manter sem avisar tira da equipe a chance de se preparar.
Se o procedimento for de urgência, não há tempo para planejamento, e por isso avisar a equipe no momento do atendimento faz ainda mais diferença. Nesses casos, o anestesista costuma tratar o estômago como cheio e adaptar a técnica.
Vale para endoscopia e colonoscopia?
Vale, porque esses exames costumam ser feitos com sedação, e o estômago cheio atrapalha tanto a segurança quanto a qualidade do exame. A orientação sobre a caneta deve ser combinada com a equipe que faz o procedimento.
O mesmo raciocínio se aplica a procedimentos odontológicos com sedação, cirurgias plásticas e cesarianas com anestesia geral.
Para quem avalia cirurgia bariátrica, a conversa é mais ampla e aparece no post sobre GLP-1 ou cirurgia bariátrica.
Vale ainda conferir se a caneta que você usa aparece pelo nome comercial ou pelo princípio ativo no encaminhamento. Com tantas marcas de semaglutida no mercado, escrever o nome do produto e a substância evita confusão na triagem do hospital.
Como fica a alimentação nos dias anteriores?
Quando a equipe orienta dieta líquida nas 24 horas antes, a ideia é reduzir o que fica no estômago. Isso costuma incluir caldos coados, sucos sem polpa, água de coco, gelatina e bebidas sem gás, sempre conforme a orientação recebida.
Prolongar o jejum por conta própria não ajuda. O jejum muito longo não acelera o esvaziamento do estômago e ainda traz desidratação e mal-estar.
As orientações gerais de alimentação durante o tratamento estão no post sobre o que comer usando canetas emagrecedoras.
Bebidas alcoólicas e refeições gordurosas nos dias anteriores também atrapalham, porque deixam a digestão ainda mais lenta e aumentam o desconforto no pós-operatório.
Depois do procedimento, a volta à alimentação normal segue o que a equipe indicar, e a retomada da caneta entra nessa mesma conversa. As informações clínicas deste artigo passaram pela revisão médica do Dr. Earim Chaudry.
O que cada orientação recomenda
O que lembrar
- As canetas retardam o esvaziamento do estômago, o que aumenta o risco de aspiração durante anestesia geral ou sedação profunda.
- A orientação de suspender todo mundo, de 2023, deu lugar a uma decisão individual, mas as sociedades ainda divergem.
- No Brasil, a Sociedade Brasileira de Anestesiologia adotou em 2026 a conduta individualizada, com ultrassom gástrico quando necessário.
- Estar em aumento de dose, usar doses altas ou ter enjoo e refluxo recentes aumenta o risco.
- Avisar a equipe sobre a caneta, a dose e a data da última aplicação é o passo que não pode faltar.
- Suspender por conta própria não é seguro, e a retomada precisa de plano, sobretudo em quem tem diabetes.

