Malhotra A, Grunstein RR, Fietze I, et al. Tirzepatida para o tratamento da apneia obstrutiva do sono e obesidade (SURMOUNT-OSA). New England Journal of Medicine, 2024;391(13):1193-1205. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2404881
Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde. O Mounjaro pode atrapalhar o sono?
O Mounjaro tem como princípio ativo a tirzepatida, que imita dois hormônios produzidos pelo intestino depois das refeições, o GLP-1 e o GIP. Eles avisam ao cérebro que a fome pode diminuir e deixam a digestão mais lenta, e é por isso que os efeitos colaterais mais comuns aparecem no aparelho digestivo.
A insônia não está entre os efeitos descritos na bula nem entre os relatados nos estudos clínicos da tirzepatida. O que aparece na bula é o cansaço, sensação diferente da dificuldade para dormir.
Mesmo assim, relatos de noites ruins existem. Um estudo que analisou publicações de usuários em redes sociais encontrou menções a insônia entre os efeitos citados por quem usa medicamentos da classe, ao lado de ansiedade e fadiga.
Mas importante: estamos falando de relatos espontâneos, sem o controle de um estudo clínico, então servem para levantar hipóteses, e não para estabelecer causa.
Por que algumas pessoas dormem pior no início do tratamento?
A explicação mais provável não está no sono em si, mas no desconforto que atrapalha a noite. Enjoo, vômito, diarreia, prisão de ventre e dor abdominal são os efeitos mais comuns da tirzepatida, e todos podem interromper o sono.
O esvaziamento mais lento do estômago também favorece azia e refluxo, principalmente quando a pessoa janta tarde, come demais ou se deita logo depois da refeição. Comer mais cedo e mais leve costuma ajudar.
Se quiser saber mais, leia nosso post sobre o que comer durante o tratamento.
Há ainda situações específicas. Quem usa tirzepatida junto com insulina ou com remédios que estimulam a secreção de insulina pode ter queda de glicose durante a noite, com sudorese e despertares, e essa combinação precisa de ajuste médico.
Por fim, o próprio processo de emagrecer muda a rotina. Comer bem menos à noite, mudar horários de refeição e iniciar exercícios perto da hora de dormir são fatores que influenciam o sono sem ter relação direta com o medicamento.
O Mounjaro afeta a saúde mental?
Essa dúvida ganhou força em 2023, quando surgiram relatos internacionais de alterações de humor e pensamentos de autolesão em pessoas que usavam medicamentos da classe. Ansiedade e depressão podem prejudicar o sono, então a pergunta faz sentido.
As agências reguladoras investigaram o tema. Em abril de 2024, o comitê de farmacovigilância da Agência Europeia de Medicamentos concluiu que as evidências disponíveis não sustentam uma associação causal entre os agonistas de GLP-1 e pensamentos ou atos suicidas e de autolesão, e a agência norte-americana chegou a conclusão semelhante.
Isso não significa ignorar o que a pessoa sente. Mudanças de humor, ansiedade ou tristeza persistente durante o tratamento devem ser levadas ao médico, que avalia o quadro como um todo, inclusive o sono e o histórico de saúde mental.
O Mounjaro dá sono ou cansaço?
O cansaço é um efeito colateral conhecido da tirzepatida e costuma aparecer no início do tratamento ou quando a dose aumenta. Ele tende a diminuir com o tempo.
Parte desse cansaço vem da redução importante do que se come. Comer muito menos significa menos energia disponível, e a hidratação insuficiente, comum quando a sede também diminui, piora a sensação.
Dormir mal por outros motivos fecha o ciclo, porque a noite ruim aumenta o cansaço do dia seguinte e a dificuldade de manter a rotina de alimentação e exercício.
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Quanto tempo dura a dificuldade para dormir?
Como os efeitos digestivos são mais intensos nas primeiras semanas e logo após cada aumento de dose, o sono costuma melhorar junto com eles, em questão de dias ou poucas semanas.
Se as noites ruins continuam depois desse período, ou se pioram, vale registrar o que acontece, como o horário em que a pessoa acorda e os sintomas associados, e levar essas informações à consulta. Esse registro ajuda o médico a separar um efeito passageiro de um problema de sono que precisa ser tratado.
O Mounjaro trata apneia do sono?
Sim, para um grupo específico. Em outubro de 2025, a Anvisa aprovou o Mounjaro para o tratamento da apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade, a primeira opção em medicamento aprovada no país para essa finalidade.
A aprovação se apoia no SURMOUNT-OSA, publicado em 2024 no New England Journal of Medicine, que acompanhou 469 adultos com obesidade e apneia moderada a grave por 52 semanas.
Entre quem não usava CPAP, a tirzepatida reduziu em média 25,3 episódios de apneia e hipopneia por hora de sono, contra 5,3 no grupo placebo, e entre quem usava o aparelho a redução foi de 29,3 contra 5,5.
O benefício vem sobretudo da perda de peso. No SURMOUNT-1, a tirzepatida 15 mg levou a uma perda média de 22,5% do peso em 72 semanas, e no SURMOUNT-OSA a melhora da apneia acompanhou a redução do peso corporal.
A gordura acumulada na região do pescoço e do abdome contribui para o fechamento das vias aéreas durante o sono, e emagrecer reduz esse efeito, A gordura acumulada na região do pescoço e do abdome contribui para o fechamento das vias aéreas durante o sono, e emagrecer reduz esse efeito, como explicamos no post sobre apneia do sono e obesidade.
Vale lembrar que roncar alto, acordar engasgado ou sentir sono excessivo durante o dia são sinais de apneia que pedem investigação, e o diagnóstico depende de exame do sono.
Dormir mal atrapalha o emagrecimento?
A relação funciona nos dois sentidos, e por isso o sono merece atenção durante o tratamento. Noites curtas alteram os hormônios que regulam o apetite.
Em um estudo publicado em 2004 na PLoS Medicine, pessoas que dormiam pouco tinham níveis mais baixos de leptina, ligada à saciedade, e mais altos de grelina, que estimula a fome, com maior índice de massa corporal.
Na prática, dormir mal tende a aumentar a vontade de comer, principalmente alimentos calóricos, e a reduzir a disposição para se exercitar. Cuidar do sono, portanto, é parte do tratamento, e não um detalhe à parte.
Como melhorar o sono durante o tratamento?
Os cuidados são os mesmos que valem para qualquer pessoa, com atenção extra ao desconforto digestivo. Manter horários regulares para dormir e acordar, reservar um tempo de desaceleração antes de deitar e evitar telas na última hora ajudam o corpo a reconhecer a hora do sono.
Jantar mais cedo, em porções menores, e esperar cerca de duas horas antes de se deitar reduz a chance de refluxo. Café, energéticos e álcool perto da noite atrapalham, e o álcool ainda piora os episódios de apneia.
A atividade física regular melhora a qualidade do sono, e a recomendação geral é de pelo menos 150 minutos de atividade moderada por semana, somados a dois dias de fortalecimento muscular. Exercícios intensos muito perto da hora de dormir, porém, podem dificultar o início do sono.
Quando procurar o médico?
Se a dificuldade para dormir acontece três ou mais noites por semana e se mantém por mais de três meses, o quadro já é considerado insônia crônica e merece avaliação específica.
Também é hora de procurar ajuda quando o sono ruim atrapalha o dia a dia, quando há ronco alto e pausas na respiração, ou quando aparecem sintomas de ansiedade e depressão. E, independentemente do sono, dor abdominal forte e persistente precisa de avaliação imediata, pela possibilidade de pancreatite
O que lembrar:
- A insônia não está na bula do Mounjaro nem foi registrada nos estudos clínicos da tirzepatida.
- Quando o sono piora, a causa costuma ser indireta, com enjoo, refluxo, diarreia ou dor abdominal atrapalhando a noite.
- O cansaço, esse sim, é um efeito conhecido, mais comum no início e após aumentos de dose.
- As agências europeia e norte-americana concluíram, em 2024, que não há associação causal entre GLP-1 e pensamentos suicidas ou de autolesão.
- Desde outubro de 2025, o Mounjaro é aprovado pela Anvisa para apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade.
- Dificuldade para dormir por mais de três meses, três ou mais noites por semana, pede avaliação médica.


