Aronne LJ e colaboradores. Tirzepatida versus semaglutida no tratamento da obesidade (SURMOUNT-5). New England Journal of Medicine, 2025. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2416394

Aviso importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
O peso corporal é regulado por sinais hormonais que o intestino envia ao cérebro a cada refeição, e o corpo trabalha ativamente para defender o peso que já teve.
Quando alguém emagrece, a fome aumenta e o gasto de energia diminui, o que explica por que tanta gente perde peso com dieta e recupera depois. Os medicamentos para obesidade agem justamente sobre esses sinais, e é por isso que conviver com obesidade tem pouco a ver com força de vontade.
Entre os principais medicamentos aprovados pela Anvisa para esse fim estão o Mounjaro, a tirzepatida, o Wegovy, a semaglutida, e o Saxenda, a liraglutida. Lembrando que todos precisam de receita médica.
Nos estudos clínicos, eles levaram a perdas médias de 8% a 22,5% do peso corporal, dependendo do medicamento e da dose, e a diferença entre eles, somada ao que acontece no dia a dia do tratamento, é o que ajuda a entender qual caminho faz sentido para cada pessoa.
Como os medicamentos funcionam
Os agonistas de GLP-1, conhecidos como canetas emagrecedoras, imitam a ação de hormônios que o intestino libera depois das refeições, os mesmos que avisam o cérebro que é hora de parar de comer.
O resultado é saciedade mais duradoura, menos vontade de comer entre as refeições e melhor controle da glicose no sangue, mudanças que tornam o processo mais sustentável do que a restrição apoiada só em força de vontade.
Os medicamentos disponíveis e o que cada um faz
Três medicamentos concentram a maior parte das prescrições médica para obesidade no Brasil, e a diferença de eficácia entre eles é relevante.
Mounjaro (tirzepatida)
A tirzepatida é a única molécula aprovada que age ao mesmo tempo nos receptores de GLP-1 e de GIP, dois hormônios intestinais. No estudo SURMOUNT-1, a dose de 15 mg levou a perda média de 22,5% do peso corporal em 72 semanas, e o ritmo esperado mês a mês está detalhado no conteúdo sobre quantos quilos o Mounjaro faz perder por semana.
Wegovy (semaglutida)
A semaglutida age no receptor de GLP-1 e é uma das moléculas mais estudadas da classe. No estudo STEP 1, a dose de manutenção de 2,4 mg levou a perda média de 14,9% em 68 semanas. Desde maio de 2026, o Wegovy tem também uma dose de manutenção de 7,2 mg, reservada a casos específicos definidos pelo médico.
Saxenda (liraglutida)
A liraglutida também age no receptor de GLP-1, com aplicação diária em vez de semanal. No programa SCALE, a dose de 3,0 mg levou a perda média de cerca de 8% do peso corporal em 56 semanas.
E as versões em comprimido?
Duas opções orais para obesidade estão no radar, e nenhuma tem registro no Brasil até o momento.
A Novo Nordisk pediu à Anvisa em janeiro de 2026 a aprovação do Wegovy em comprimido, com semaglutida oral de 25 mg, e o pedido segue em análise. Já o Foundayo, com orforglipron, foi aprovado nos Estados Unidos em abril de 2026 e não tem registro na Anvisa.
Por isso, qualquer site que anuncie a venda desses comprimidos no país oferece um produto sem garantia de origem, armazenamento ou composição.
Versões nacionais da semaglutida
Desde 2026 existem versões nacionais de semaglutida no Brasil. O Ozivy, da EMS, foi o primeiro, registrado em maio, e desde então a Anvisa aprovou outras versões em julho e, em agosto, os primeiros genéricos e os similares Semaclique e Yluméc, que têm o Ozivy como referência.
Todas têm registro para diabetes tipo 2. Por terem o mesmo princípio ativo do Wegovy, a semaglutida, o médico pode avaliar a prescrição para o tratamento da obesidade fora da indicação de bula, o chamado uso off label, decisão que depende da avaliação individual.
A lista completa, com preço e disponibilidade, está no conteúdo sobre o genérico do Ozempic.
E na comparação direta?
Os números acima vêm de estudos separados, com populações diferentes.
Em 2025, o estudo SURMOUNT-5 comparou tirzepatida e semaglutida frente a frente em adultos com obesidade e sem diabetes, e após 72 semanas a perda média foi de 20,2% com tirzepatida contra 13,7% com semaglutida.
A diferença é real, mas não torna nenhum dos dois uma escolha automática, porque tolerância, histórico e custo pesam na decisão, que é médica.
Fora da classe das canetas existem ainda o orlistate, que reduz a absorção de gordura no intestino, e a sibutramina, que age no sistema nervoso central e tem contraindicações importantes para quem tem risco cardiovascular. São opções mais antigas, com perfis de eficácia e segurança diferentes dos agonistas de GLP-1.
Quanto peso posso perder e em quanto tempo?
O emagrecimento acontece de forma progressiva, acompanhando a adaptação do organismo e o aumento gradual das doses.
No início é comum notar redução do apetite com perda de peso ainda discreta, e os resultados mais expressivos aparecem ao longo de meses, conforme as doses sobem e os efeitos se consolidam.
Em algum momento a balança costuma estabilizar por um período, o chamado platô. Por mais que assuste, ele é esperado, faz parte da adaptação do corpo e não indica que o tratamento parou de funcionar.
Vale lembrar também que os percentuais dos estudos são médias, e na prática a resposta varia bastante conforme rotina, alimentação e adesão.
Isso pesa especialmente para quem tem uma data marcada, como um casamento ou uma viagem. Nos estudos, a perda de cerca de 15% do peso levou mais de um ano, e tentar acelerar esse ritmo com dose por conta própria ou dieta extrema aumenta os efeitos colaterais e a chance de recuperar o peso depois.
Dá para emagrecer sem exercício?
Dá, e para quem tem uma lesão, uma condição crônica ou uma rotina que não comporta treino, os medicamentos são um aliado importante. O que muda sem exercício é a qualidade do que se perde. Uma revisão publicada na Revista Brasileira de Medicina do Esporte mostrou que, em restrição calórica sem atividade física, cerca de 32% da perda total corresponde a massa magra e água, e menos músculo significa metabolismo mais lento e mais risco de reganho.
Quem não pode treinar compensa em duas frentes: proteína adequada na alimentação, para proteger a musculatura, e acompanhamento profissional mais próximo.
Quando o treino de força é possível, mesmo em volume modesto, ele é o sinal mais direto para o corpo preservar músculo, e as recomendações para quem treina estão no conteúdo sobre musculação durante o uso de caneta emagrecedora.
Como o tratamento evolui na prática
Cada pessoa tem seu ritmo, mas o tratamento costuma seguir um percurso previsível. Ele começa pela avaliação inicial, em que o médico analisa histórico de saúde, tentativas anteriores de emagrecimento, outros medicamentos em uso e expectativas, e define se há indicação, qual medicamento é mais adequado e como será o acompanhamento.
As primeiras semanas são de adaptação, e o foco ainda não é a perda de peso, e sim a tolerância. As doses iniciais são mais baixas justamente para reduzir náusea e desconforto gastrointestinal, e muita gente já percebe menos apetite e mais controle sobre a alimentação nesse período.
Nos primeiros meses, com o aumento gradual das doses, os efeitos sobre o peso ficam mais evidentes. É o momento de estruturar hábitos sustentáveis, como alimentação equilibrada e atividade física, em geral com apoio nutricional. Ao longo do tratamento, a perda se torna mais consistente, e o objetivo passa a ser sustentar o resultado e reduzir o risco de reganho.
Efeitos colaterais mais comuns
Efeitos leves a moderados são frequentes, sobretudo no início e depois de cada aumento de dose.
Os mais relatados são náusea, constipação, diarreia, gases, cansaço, dor de cabeça e reações no local da aplicação, como vermelhidão leve ou coceira, e a maioria melhora com a adaptação.
O detalhamento de cada sintoma e do que ajuda a aliviá-lo está reunido nos efeitos colaterais do Mounjaro.
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Anticoncepcional oral: uma interação que exige atenção
A tirzepatida pode reduzir a eficácia de anticoncepcionais orais, informação com consequência prática direta. O mecanismo é o retardo do esvaziamento do estômago, que diminui e atrasa a absorção de remédios tomados por via oral.
Como não há interferência no metabolismo hormonal, o risco é temporário e se concentra nas primeiras quatro semanas de tratamento e nas quatro semanas seguintes a cada aumento de dose.
Nesses períodos, a orientação é não depender só da pílula. As alternativas são um método que não dependa da absorção intestinal, como DIU, implante, injeção, anel vaginal ou adesivo, ou o uso de preservativo durante as janelas de risco, decisão que vale conversar com o médico antes de começar.
Emagrecer na menopausa: o que muda
Para mulheres na menopausa, o tratamento parte de um contexto metabólico diferente. O ganho de peso nessa fase vem em grande parte do envelhecimento, que desacelera o metabolismo e reduz a massa muscular, e a queda do estrogênio redistribui a gordura para o abdômen, a gordura visceral, associada a maior risco cardiovascular e resistência à insulina.
O problema é comum, e estudos com mulheres brasileiras na pós-menopausa mostram prevalência de sobrepeso e obesidade acima de 70%.
A estratégia que funcionava aos 35 anos costuma falhar aos 50, porque a resistência à insulina e a perda muscular mudam a resposta do corpo à mesma dieta.
Os medicamentos seguem os mesmos critérios de indicação, com dois ajustes de estratégia para essa fase: prioridade a proteína e treino de força, para conter a perda muscular, e atenção a sono e estresse, porque ondas de calor e insônia sabotam o esforço alimentar.
A terapia hormonal, quando indicada pelo ginecologista, não trata a obesidade, mas também não causa o ganho de peso que o mito sugere.
Quem pode usar
O tratamento medicamentoso da obesidade é indicado para adultos com índice de massa corporal igual ou maior que 30. No sobrepeso, a indicação começa em IMC de 27, desde que associado a comorbidade como hipertensão, diabetes tipo 2, apneia do sono ou colesterol alto.
Contraindicações
As contraindicações de bula comuns aos medicamentos da classe são:
- O histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, a síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 e a alergia à substância ou a componentes da fórmula.
- O uso também não é recomendado durante a gestação e a amamentação, e quem pretende engravidar precisa planejar a suspensão com o médico. A bula do Wegovy, por exemplo, orienta interromper o medicamento pelo menos dois meses antes de tentar engravidar.
A idade mínima varia conforme o medicamento. O Mounjaro é indicado apenas para adultos. O Saxenda tem indicação para adolescentes a partir de 12 anos com obesidade e peso acima de 60 kg, aprovada pela Anvisa em 2020, e o Wegovy, para adolescentes a partir de 12 anos, em ampliação de uso aprovada em 2023. Nos dois casos, o uso depende de avaliação e acompanhamento especializados.
Situações que pedem avaliação mais cuidadosa
Algumas condições não impedem o tratamento, mas exigem avaliação individual.
Estão entre elas o histórico de pancreatite, a doença ativa da vesícula biliar, as doenças gastrointestinais graves, a insuficiência renal avançada e os transtornos alimentares em atividade, em que o controle do apetite pelo medicamento pode interferir no tratamento do transtorno.
Por que a dose é decisão médica
A dose prescrita não é um número arbitrário. Ela vem de ensaios clínicos que testaram até onde os benefícios superam os riscos, e o escalonamento gradual existe para que o corpo se adapte aos efeitos gastrointestinais.
No caso da semaglutida, a dose de 7,2 mg aprovada em 2026 é reservada a casos específicos, justamente porque o ganho adicional precisa ser pesado contra mais efeitos adversos.
Ajustar a dose por conta própria, ou usar a caneta de outra pessoa, remove a camada de segurança do acompanhamento, porque alterações hepáticas, renais e metabólicas podem evoluir semanas sem sintomas e só aparecer em exames. O Sinitox, sistema da Fiocruz, registrou mais de 596 mil intoxicações por medicamentos no país entre 2012 e 2021.
Quando e como parar
A obesidade é uma condição crônica, e os estudos mostram que interromper o tratamento costuma levar à recuperação de parte do peso perdido. Isso não significa que o tratamento seja para sempre, e sim que a saída precisa ser planejada, tema detalhado no conteúdo sobre o que acontece com o peso ao parar o medicamento.
Quem define o momento e a forma de reduzir ou suspender é o médico, considerando os resultados alcançados, os hábitos consolidados e o histórico individual.
A parte que a balança não mede
Viver com obesidade numa sociedade que a trata como falta de disciplina tem custo emocional documentado.
Uma análise de 15 estudos que acompanharam quase 59 mil pessoas ao longo do tempo mostrou que a obesidade aumentou em 55% a chance de desenvolver depressão, e que a depressão, por sua vez, aumentou em 58% a chance de desenvolver obesidade. É uma relação de mão dupla, em que a frustração pode alimentar o comer emocional e reiniciar o ciclo.
É por isso que o acompanhamento psicológico e o nutricional fazem parte do tratamento. A terapia cognitivo-comportamental é uma das abordagens mais estudadas nesse contexto, porque ajuda a reconhecer padrões automáticos, como comer para aliviar ansiedade, e a construir respostas diferentes diante das mesmas situações.
O medicamento reduz a fome, e a equipe ajuda a reconstruir a relação com a comida e a sustentar o resultado quando o contexto aperta.
O que lembrar:
- O corpo defende o peso anterior com mecanismos hormonais, e os medicamentos agem justamente sobre esses sinais.
- O platô faz parte da adaptação do corpo e não indica falha do tratamento.
- Sem exercício, parte relevante do peso perdido é massa magra, e proteína e treino de força ajudam a preservá-la.
- Com tirzepatida, a pílula anticoncepcional precisa de método adicional nas primeiras quatro semanas e depois de cada aumento de dose.
- Na menopausa, os critérios de indicação são os mesmos, com prioridade a proteína, treino de força e sono.
- Transtorno alimentar em atividade, pancreatite prévia e doença renal avançada não impedem o tratamento por si só, mas pedem avaliação cuidadosa.


