
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Os medicamentos agonistas de GLP-1 viraram assunto frequente nas conversas sobre tratamento de obesidade e diabetes nos últimos anos. E não é por acaso: estudos científicos têm mostrado resultados consistentes tanto no controle da glicemia quanto na perda de peso.
Mas o que exatamente são esses medicamentos? Como funcionam no corpo? E, mais importante: para quem eles realmente são indicados?
Começando pelo principal: o que é o GLP-1?
GLP-1 (do inglês Glucagon-Like Peptide-1, ou peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1) é um hormônio que o próprio corpo produz. Ele vem das células do intestino e tem um papel importante na regulação do apetite e da glicemia.
Funciona assim: quando você come, o intestino libera GLP-1 naturalmente. Esse hormônio sinaliza ao cérebro que você está satisfeito, estimula o pâncreas a produzir insulina (mas só quando a glicose está elevada), e ainda reduz a liberação de glucagon, outro hormônio que aumenta o açúcar no sangue.
O problema? O GLP-1 natural tem vida curta no organismo. Ele é degradado em minutos.
GLP-1 natural versus medicamentos agonistas de GLP-1
Os medicamentos agonistas de GLP-1 são versões sintéticas que imitam o hormônio natural, mas com uma diferença crucial: eles duram muito mais tempo no corpo. Alguns ficam ativos por horas (os de uso diário), outros por dias (os de uso semanal).
Essa durabilidade maior permite que eles mantenham seus efeitos ao longo do dia ou da semana, dependendo da formulação.
Principais medicamentos GLP-1 disponíveis no Brasil
Alguns nomes são muito conhecidos, como Mounjaro, Ozempic, Wegovy, mas existem outros agonistas de GLP-1 aprovados pela Anvisa e disponíveis no mercado brasileiro.
Dá só uma olhada no princípio ativo e no medicamento:
- Liraglutida (Victoza®, Saxenda®): aplicação diária
- Semaglutida (Ozempic®, Wegovy®, Rybelsus®): semanal injetável ou diária oral
- Dulaglutida (Trulicity®): semanal
- Exenatida (Byetta®, Bydureon®): diária ou semanal
- Lixisenatida (Soliqua®): diária
- Tirzepatida (Mounjaro®): semanal (este é tecnicamente um agonista duplo GLP-1/GIP)
Cada um tem características próprias de dosagem, via de administração e perfil de efeitos. A escolha depende de vários fatores individuais que só podem ser avaliados em consulta médica.
Como o GLP-1 funciona no organismo?
Os medicamentos agonistas de GLP-1 atuam em múltiplos pontos do corpo. Isso mesmo, são vários mecanismos trabalhando juntos.
Controle da saciedade
Talvez o efeito mais conhecido seja sobre o apetite. Esses medicamentos agem no cérebro, especificamente nas áreas que controlam a fome e a saciedade.
Pacientes em tratamento frequentemente relatam que sentem menos fome e ficam satisfeitos com porções menores de comida. Isso não é força de vontade. É uma mudança biológica real.
Regulação da glicemia
Para pessoas com diabetes tipo 2, os agonistas de GLP-1 oferecem um benefício adicional importante: eles estimulam a produção de insulina pelo pâncreas, mas apenas quando a glicose está elevada.
Essa característica "glicose-dependente" significa menor risco de hipoglicemia (queda perigosa do açúcar no sangue), especialmente quando comparados à insulina tradicional ou outros medicamentos para diabetes. Além disso, esses medicamentos suprimem a liberação de glucagon, reduzindo a produção hepática de glicose.
Efeito no esvaziamento gástrico
Os agonistas de GLP-1 também retardam o esvaziamento gástrico (ou seja, a comida fica mais tempo no estômago antes de seguir para o intestino). Isso contribui para a sensação de saciedade prolongada e ajuda a controlar os picos de glicose após as refeições.
Esse efeito, porém, tem implicações práticas importantes. Por exemplo, ele aumenta o risco de aspiração durante procedimentos com anestesia (mais sobre isso adiante).
Para quem os medicamentos GLP-1 são indicados?
Aqui chegamos a um ponto fundamental. Nem todo mundo que quer emagrecer tem indicação para usar esses medicamentos. A avaliação de um médico é essencial, não apenas porque a receita é obrigatória, mas pela segurança e eficácia do tratamento.
Indicações médicas aprovadas
De acordo com as diretrizes médicas brasileiras (ABESO, SBEM, SBD) e as aprovações da ANVISA, os agonistas de GLP-1 são indicados para:
- Diabetes tipo 2: especialmente quando outros tratamentos não alcançaram controle adequado da glicemia, ou quando o paciente tem risco cardiovascular moderado a alto
- Obesidade: IMC ≥ 30 kg/m²
- Sobrepeso com comorbidades: IMC ≥ 27 kg/m² na presença de condições como hipertensão, dislipidemia, pré-diabetes ou doença cardiovascular
Vale destacar: as sociedades médicas brasileiras têm sido claras em seus posicionamentos. Esses medicamentos não são para uso estético ou para quem simplesmente quer perder "uns quilinhos" sem indicação médica real.
Obesidade é uma doença crônica, não uma questão puramente cosmética.
Quando o GLP-1 NÃO deve ser usado
Existem contraindicações absolutas. Os medicamentos agonistas de GLP-1 não devem ser usados por pessoas com:
- Histórico pessoal ou familiar de câncer medular de tireoide
- Síndrome de Neoplasia Endócrina Múltipla tipo 2 (MEN2)
- Alergia grave conhecida a qualquer componente do medicamento
- Gravidez (a segurança não foi estabelecida)
Além disso, alguns grupos precisam de cautela especial e monitoramento mais próximo: pessoas com histórico de pancreatite, doença biliar, problemas renais graves, ou transtornos alimentares.
Resultados: o que esperar do tratamento com GLP-1
Vamos aos números, porque eles importam. Mas com uma ressalva importante: resultados individuais variam. Sempre.
Uma meta-análise publicada em 2025 na revista Diabetes Care reuniu dados de 47 estudos clínicos randomizados envolvendo mais de 23 mil participantes. Os resultados mostraram que, em comparação com placebo, os agonistas de GLP-1 produziram:
- Redução média de peso de 4,57 kg
- Redução média de IMC de 2,07 kg/m²
- Redução média de circunferência da cintura de 4,55 cm
Esses são valores médios. Algumas pessoas perderam significativamente mais, outras menos.
Em estudos específicos com doses mais altas de semaglutida (2,4 mg semanal) mostraram perdas médias de 15% a 16,9% do peso inicial ao longo de 68 semanas, quando combinadas com dieta hipocalórica e atividade física.
Para colocar em perspectiva: entre os pacientes tratados com agonistas de GLP-1, cerca de 50% alcançaram perda de pelo menos 5% do peso corporal, enquanto no grupo placebo apenas 17% chegaram a esse resultado. Perda de 10% ou mais foi alcançada por 17,5% dos tratados vs. 3,1% do placebo.
Benefícios vão muito além do emagrecimento
Os agonistas de GLP-1 não afetam apenas o peso. Estudos têm demonstrado benefícios cardiovasculares, incluindo redução de eventos como infarto e AVC em pacientes com alto risco. Também há evidências de melhora em marcadores metabólicos (pressão arterial, perfil lipídico) e possíveis efeitos protetores no fígado e rins.
A semaglutida, inclusive, tornou-se em março de 2024 o primeiro medicamento para perda de peso aprovado pela FDA americana especificamente para reduzir risco cardiovascular em pessoas com obesidade ou sobrepeso e doença cardiovascular estabelecida.
No estudo SELECT, que envolveu mais de 17.600 participantes, a semaglutida reduziu significativamente o risco de eventos cardiovasculares adversos graves (morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal) em 20% comparado ao placebo – os eventos ocorreram em 6,5% dos participantes que receberam semaglutida contra 8% do grupo placebo.
Tempo de tratamento e manutenção
Aqui está uma verdade que precisa ser dita com clareza: a obesidade é uma condição crônica. E como outras doenças crônicas, geralmente requer tratamento de longo prazo.
Estudos mostram que quando as pessoas interrompem o uso dos agonistas de GLP-1, há recuperação de peso. Uma meta-análise de 2025 publicada em Obesity Reviews encontrou que pacientes recuperaram em média:
- 2,20 kg após parar liraglutida
- 9,69 kg após parar semaglutida ou tirzepatida
A quantidade recuperada foi proporcional ao peso que havia sido perdido.
No estudo STEP 1, participantes que interromperam semaglutida recuperaram cerca de dois terços do peso perdido em um ano após a descontinuação.
Outro estudo publicado em The Lancet eClinicalMedicine em 2025 confirmou que a descontinuação de GLP-1 resulta em ganho de peso médio de 5,63 kg entre indivíduos com obesidade, com deterioração em múltiplos parâmetros cardiometabólicos.
Isso não significa que você vai tomar o medicamento para sempre, necessariamente. Mas significa que a decisão de quando (e se) parar precisa ser feita junto com sua equipe médica, considerando estratégias estruturadas de manutenção que incluam:
- Continuidade do acompanhamento nutricional
- Manutenção ou intensificação da atividade física
- Estratégias comportamentais consolidadas
- Monitoramento regular do peso e parâmetros metabólicos
- Possível transição para doses menores ou esquemas intermitentes (sob orientação médica)
A obesidade não é uma condição que você "trata e cura", é uma condição que você gerencia a longo prazo, assim como diabetes ou hipertensão. O tratamento com GLP-1 é uma ferramenta poderosa dentro dessa gestão contínua, não uma solução temporária.
Cuidados antes de cirurgias
Este é um ponto crítico que muita gente desconhece. Em setembro de 2024, a Anvisa emitiu um alerta oficial sobre o risco de aspiração e pneumonia em pacientes usando agonistas de GLP-1 que serão submetidos a anestesia ou sedação profunda.
O retardo no esvaziamento gástrico causado por esses medicamentos significa que pode haver mais conteúdo no estômago do que o esperado, aumentando o risco de aspiração pulmonar durante o procedimento anestésico.
Diretrizes publicadas em 2025 pela Sociedade Brasileira de Diabetes, em colaboração com a ABESO e a Sociedade Brasileira de Anestesiologia, recomendam que médicos considerem a suspensão dos medicamentos antes de cirurgias, geralmente 1 semana antes para medicações diárias de curta duração, 2 a 3 semanas para as de ação prolongada.
Se você usa agonista de GLP-1 e tem algum procedimento cirúrgico ou exame com sedação marcado, sempre informe sua equipe médica. Essa informação é crucial.
GLP-1 no Brasil: o que mudou em 2025?
O cenário regulatório brasileiro passou por mudanças importantes no ano de 2025, quando a Anvisa publicou uma resolução com normas estabelecendo que todos os medicamentos agonistas de GLP-1 agora exigem retenção da receita médica na farmácia no momento da compra: similar ao que já acontece com antibióticos.
Na prática, isso significa:
- A prescrição deve ser feita em duas vias (uma fica com você, outra é retida pela farmácia)
- A receita tem validade de até 90 dias
- Prescrições por telemedicina são válidas, desde que assinadas com certificado digital
A medida veio em resposta ao aumento expressivo de uso inadequado desses medicamentos, frequentemente para fins estéticos sem indicação médica real.
A Anvisa também proibiu especificamente vários produtos importados de GLP-1 sem registro no Brasil, assim como manipulados. Ninguém quer perder peso à custa da saúde, certo?
Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.




