
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
É uma das dúvidas mais frequentes entre quem começa o tratamento com Ozempic: será que posso beber naquela festa de fim de semana? E aquela cervejinha com os amigos, precisa ficar de fora?
A resposta não é tão simples quanto um sim ou não. Mas vamos direto ao ponto: não existe uma proibição absoluta na bula do medicamento. O que existe é um conjunto de riscos que você precisa conhecer, e uma decisão que deve ser tomada junto com seu médico, considerando seu histórico e objetivos.
A ciência mais recente tem coisas interessantes a dizer sobre essa combinação.
Relembrando: o que é o Ozempic e como ele funciona?
Ozempic (semaglutida) é um medicamento aprovado pela Anvisa para tratamento de diabetes tipo 2. Ele imita um hormônio natural chamado GLP-1, que nosso intestino produz depois que comemos.
Esse hormônio faz várias coisas ao mesmo tempo: estimula o pâncreas a liberar insulina quando o açúcar sobe, reduz a liberação de glucagon (que eleva o açúcar), e aqui está o ponto-chave para quem busca emagrecimento: retarda o esvaziamento do estômago. Resultado? Você se sente satisfeito por mais tempo.
Embora o Ozempic não seja oficialmente aprovado para perda de peso no Brasil (existe o Wegovy, que contém a mesma substância em doses diferentes, aprovado especificamente para obesidade), muitos médicos prescrevem a semaglutida off-label para esse fim. Os estudos mostram perda média de 7-12% do peso corporal em seis meses.
Ozempic e álcool: o que dizem os especialistas?
Aqui está o consenso médico atual: não há contraindicação absoluta.
"O consumo de bebida alcoólica de forma moderada não é contraindicado durante uso de Ozempic", explica o Dr. Ricardo Barroso, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia - Regional São Paulo (SBEM-SP).
A bula oficial do medicamento também não lista o álcool entre as contraindicações formais. Mas (e esse é um mas importante) isso não significa que seja uma combinação sem riscos.
A dose moderada varia de pessoa para pessoa. Depende do seu histórico médico, se você tem diabetes, se usa outros medicamentos, qual estágio do tratamento você está. É por isso que a conversa com seu médico é essencial.
Não existe uma resposta universal de "duas taças de vinho estão liberadas" que sirva para todo mundo.
O que a Anvisa diz
A bula aprovada pela Anvisa em 2018 lista as contraindicações oficiais: alergia à semaglutida, diabetes tipo 1, e cetoacidose diabética. Cautela especial é recomendada para quem tem histórico de pancreatite ou retinopatia diabética. Álcool não aparece nessa lista. Mas isso não conta toda a história.
Quais são os riscos de beber álcool com Ozempic?
Vamos aos problemas reais que a combinação pode causar.
Risco de hipoglicemia
Este é o mais sério. Quando você bebe álcool, seu fígado fica ocupado metabolizando a bebida, e isso interfere na sua capacidade de liberar glicose quando o açúcar no sangue cai. O Ozempic já reduz o açúcar no sangue por si só. Junte os dois e você pode ter uma queda perigosa de glicemia.
Os sinais de hipoglicemia incluem tremores, confusão mental, suor frio, tontura. Se você também usa insulina ou sulfonilureias, o risco aumenta significativamente.
Efeitos colaterais gastrointestinais intensificados
Cerca de 20% das pessoas que usam semaglutida experimentam náuseas. Adicione álcool à mistura e esses sintomas podem ficar bem piores: náuseas intensas, vômitos, diarreia, desconforto abdominal que estraga qualquer evento.
O álcool irrita o estômago. O Ozempic retarda o esvaziamento gástrico. Você consegue imaginar como essa combinação funciona na prática?
Impacto nos resultados do emagrecimento
Aqui está algo que muita gente não considera: álcool tem aproximadamente 7 calorias por grama. São calorias vazias (sem nutrientes, só energia pura). Uma taça de vinho tem cerca de 120-150 calorias. Uma cerveja, 150 a 200. Um drink com destilado e refrigerante? Facilmente 200 a 300.
Se você está fazendo todo o esforço de controlar a alimentação e o Ozempic está te ajudando a comer menos, consumir álcool regularmente pode sabotar seus resultados.
Sobrecarga hepática e desidratação
Tanto o álcool quanto a semaglutida passam pelo metabolismo hepático. Para pessoas com função hepática comprometida, isso pode representar uma sobrecarga adicional.
O álcool também tem efeito diurético: você perde mais líquido. Como o Ozempic pode causar náuseas e vômitos (especialmente no início), a desidratação pode se tornar um problema mais sério do que seria normalmente.
O contraponto: o Ozempic pode reduzir a vontade de beber
Agora vem um achado científico fascinante que tem chamado atenção da comunidade médica.
Um ensaio clínico publicado em 2025 na JAMA Psychiatry mostrou resultados impressionantes: doses baixas de semaglutida reduziram o desejo por álcool em até 40% e diminuíram significativamente o consumo excessivo de bebidas em adultos com transtorno por uso de álcool.
O estudo acompanhou 48 participantes por nove semanas. Aqueles que receberam semaglutida consumiram menos álcool em testes laboratoriais e relataram menor desejo de beber durante a semana.
Outro estudo com mais de 227 mil pessoas diagnosticadas com transtorno por uso de álcool mostrou que a semaglutida reduziu o risco de hospitalização relacionada ao álcool em 22%.
O motivo? O medicamento afeta o sistema de recompensa
A explicação está no cérebro. Os agonistas de GLP-1 parecem influenciar o sistema de recompensa cerebral, especificamente a liberação de dopamina no núcleo accumbens, uma região ligada ao prazer e à motivação.
Quando você bebe álcool, há um pico de dopamina que gera aquela sensação prazerosa. Os medicamentos como Ozempic podem atenuar essa resposta, tornando a bebida menos "recompensadora" do ponto de vista cerebral.
Mas (e isso é crítico): o Ozempic não é aprovado para tratamento de alcoolismo e não deve ser usado com esse objetivo. Os estudos são preliminares. Menos de 10% das pessoas com transtorno por uso de álcool recebem tratamento farmacológico adequado, e embora esses dados sejam promissores, ensaios clínicos maiores são necessários.
Se você tem problemas com álcool, existem tratamentos específicos e comprovados. Converse com um especialista.
Quando o álcool deve ser completamente evitado?
Existem situações em que a resposta é um "não" definitivo. No geral, é o médico quem vai te dizer isso, mas abaixo é possível já entender quais as restrições.
Contraindicações Absolutas
Você deve evitar completamente o álcool se:
- Tem histórico de pancreatite (o álcool aumenta muito o risco de novos episódios)
- Teve episódios de hipoglicemia grave
- Usa insulina concomitantemente sem ajuste adequado
- Tem doença hepática diagnosticada
- Está no início do tratamento (primeiras 4-6 semanas, quando o corpo ainda está se adaptando)
Situações de alto risco
Mesmo sem contraindicações formais, há momentos em que beber não vale o risco:
Quando você ajustou a dose recentemente. Quando já está sentindo náuseas ou mal-estar. Quando vai dirigir ou operar equipamentos (o álcool + possível tontura do Ozempic é uma combinação perigosa). Quando está em jejum prolongado.
Como beber com segurança durante o tratamento
Se seu médico avaliar que o consumo ocasional é aceitável no seu caso específico, aqui estão orientações práticas baseadas em recomendações de especialistas.
Orientações práticas para consumo ocasional
- Nunca beba de estômago vazio. Faça uma refeição adequada antes ou durante o consumo. Isso ajuda a estabilizar o açúcar no sangue e reduz a absorção rápida do álcool.
- Hidrate-se ativamente. Alterne cada dose de álcool com um copo cheio de água. Isso ajuda com a desidratação e naturalmente reduz a quantidade total de álcool consumido.
- Comece devagar. Se é a primeira vez que você bebe desde que começou o tratamento, teste com uma dose pequena e observe como seu corpo reage.
- Monitore sinais de alerta. Tontura incomum, sudorese, tremores, confusão — qualquer desses sintomas significa parar imediatamente e comer algo com carboidrato se for seguro fazê-lo.
Tipos de bebidas e quantidades
Se você vai beber, escolhas mais inteligentes podem fazer diferença.
Bebidas destiladas puras (vodka, whisky, gim) com água com gás ou água tônica zero têm menos calorias que cervejas e drinks adoçados. Vinho seco também é uma opção com menor impacto calórico.
Evite drinks com sucos açucarados, refrigerantes regulares, ou bebidas cream-based que são bombas calóricas.
Quanto à quantidade? Isso tem que ser decidido com seu médico. Mas geralmente, se o consumo é aprovado, estamos falando de ocasiões esporádicas, não hábito regular. E "moderação" provavelmente significa uma dose, não várias.
Sinais de alerta para parar imediatamente
Pare de beber e procure ajuda se você sentir:
- Tremores intensos ou sudorese fria
- Confusão mental ou dificuldade de concentração súbita
- Náuseas severas ou vômitos repetidos
- Dor abdominal intensa
- Batimentos cardíacos irregulares
Esses podem ser sinais de hipoglicemia grave ou outras complicações que requerem atenção médica.
O acompanhamento médico é essencial
A gente diz isso sempre, né? Mas a verdade é que não dá pra escapar deste ponto.
Dois pacientes usando Ozempic podem ter recomendações completamente diferentes sobre álcool. Um pode ter diabetes bem controlado, sem outros medicamentos, sem histórico de problemas hepáticos. Para ele, consumo ocasional mínimo pode ser aceitável. Outro pode usar insulina, ter tido episódio de pancreatite no passado, estar com glicemia ainda instável. Nesse caso, álcool precisa ficar totalmente de fora.
Seu histórico médico completo importa. Seus objetivos de tratamento importam. Onde você está na jornada de emagrecimento ou controle do diabetes importa.
Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.




