
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Você começa um tratamento que melhora o peso, a glicemia, a saúde metabólica e, de repente, nota mais fios no ralo do banheiro. O susto é compreensível.
Desde que a tirzepatida ganhou popularidade, especialmente com o nome Mounjaro, a associação com queda de cabelo virou um dos temas mais comentados em redes sociais e consultórios.
Mas aqui vai um ponto importante, que já adianta metade da resposta: a tirzepatida não “estraga” o cabelo. Na maioria dos casos, o que acontece é uma reação do corpo às mudanças rápidas provocadas pelo emagrecimento.
Vamos explicar isso com calma.
O que é a tirzepatida e como ela age no organismo
Antes de falar sobre cabelo, vale entender o que esse medicamento faz no corpo. A tirzepatida é um medicamento injetável que atua como agonista duplo dos receptores GLP-1 e GIP, dois hormônios intestinais envolvidos no controle do apetite, da saciedade e do metabolismo da glicose.
Aprovada pela Anvisa em setembro de 2023 para o tratamento do diabetes tipo 2, a tirzepatida também passou a ser indicada para obesidade e, mais recentemente, para apneia obstrutiva do sono em pessoas com obesidade.
O diferencial da tirzepatida está justamente nessa ação dupla. Enquanto medicamentos como a semaglutida atuam apenas no receptor GLP-1, a tirzepatida age em dois sistemas ao mesmo tempo. O resultado costuma ser um emagrecimento mais intenso e sustentado. Em estudos clínicos, a perda média chegou a 20,2% do peso corporal em 72 semanas, contra 13,7% com semaglutida.
E é aqui que o cabelo entra na história.
Tirzepatida realmente causa queda de cabelo?
A resposta técnica é: sim, pode acontecer, mas não porque o medicamento seja tóxico para os fios ou para o couro cabeludo.
Nos estudos clínicos do Zepbound, nome comercial da tirzepatida nos Estados Unidos, entre 4% e 5% dos participantes relataram queda de cabelo, comparado a cerca de 1% no grupo placebo. Uma revisão sistemática publicada em 2025, que analisou diferentes agonistas de GLP-1, encontrou resultados variados: alguns estudos mostraram queda de cabelo, outros não observaram diferença relevante e alguns chegaram a relatar melhora do crescimento capilar em contextos específicos.
O ponto-chave é entender o mecanismo. A tirzepatida não ataca o folículo capilar. O que acontece, na maioria das vezes, é um fenômeno chamado eflúvio telógeno, desencadeado pelo emagrecimento rápido.
Por que o cabelo cai durante o tratamento?
A queda não surge do nada e nem é aleatória. Ela costuma ser consequência de uma combinação de fatores fisiológicos.
Emagrecimento rápido e estresse metabólico
O eflúvio telógeno é uma resposta do organismo a situações de estresse físico. Isso inclui cirurgias, infecções, parto e, sim, perda de peso acelerada.
Em condições normais, cerca de 85% a 90% dos fios estão em fase de crescimento ativo. Quando ocorre um estresse metabólico importante, parte desses fios entra precocemente na fase de repouso. Dois a quatro meses depois, eles caem de forma mais intensa e difusa.
Esse mecanismo é bem conhecido após cirurgia bariátrica e dietas muito restritivas. Com a tirzepatida, o processo é semelhante. Não é o remédio em si, mas a mudança rápida que ele provoca no metabolismo.
Redução da ingestão de nutrientes
Outro fator relevante é a alimentação. A tirzepatida reduz o apetite de forma significativa. Muitas pessoas comem muito menos do que estavam acostumadas.
Quando a ingestão de proteínas, ferro, zinco, vitaminas do complexo B, vitamina D e outros micronutrientes cai, o corpo passa a priorizar funções vitais. O cabelo, que não é essencial para a sobrevivência, acaba ficando em segundo plano.
Alterações hormonais
A perda de peso também modifica o ambiente hormonal. Em mulheres, essas alterações costumam impactar mais o ciclo capilar. Não por acaso, os dados mostram maior incidência de queda feminina, com taxas em torno de 7,1% em mulheres, contra cerca de 0,5% em homens nos estudos com tirzepatida.
Quem tem mais risco de apresentar queda de cabelo
Nem todo mundo que usa tirzepatida vai perceber queda capilar. Alguns fatores aumentam esse risco:
- Perda de peso acima de 20% do peso corporal inicial
- Emagrecimento muito rápido
- Sexo feminino
- Restrição alimentar severa ou dietas muito pobres em proteínas
- Presença prévia de alopecia androgenética, a calvície de origem genética
Nesse último caso, o eflúvio telógeno pode não ser a causa principal, mas pode acelerar ou tornar visível uma condição que já existia.
A queda de cabelo é temporária ou definitiva?
Na grande maioria dos casos, a queda é temporária.
O eflúvio telógeno é uma condição autolimitada. Após a estabilização do peso e a adaptação metabólica, o crescimento capilar tende a se normalizar. Isso costuma acontecer entre 6 e 12 meses.
A principal exceção ocorre quando existe calvície androgenética de base. Nesses casos, o eflúvio não cria a calvície, mas pode acelerar sua progressão. Por isso, a avaliação dermatológica é importante, especialmente para quem já nota entradas, rarefação no topo ou afinamento progressivo dos fios.
Curiosamente, há relatos isolados do efeito oposto. Um caso publicado descreveu melhora da densidade capilar em um paciente com resistência à insulina após o uso de tirzepatida. A hipótese é que a correção do ambiente metabólico tenha favorecido o ciclo capilar. Mas isso é exceção, não regra.
Como prevenir ou minimizar a queda de cabelo
Embora nem sempre seja possível evitar completamente o eflúvio telógeno, algumas estratégias ajudam bastante.
Priorizar nutrientes, mesmo com pouco apetite
Comendo menos, cada refeição precisa ser mais nutritiva. Proteínas de boa qualidade, vegetais ricos em ferro, oleaginosas e alimentos fontes de zinco e vitaminas do complexo B fazem diferença.
Evitar substituir refeições por líquidos pobres em nutrientes também ajuda a proteger o ciclo capilar.
Avaliar suplementação com critério
Suplementos não devem ser usados de forma automática. O ideal é avaliar exames laboratoriais, como ferritina, vitamina B12, vitamina D e zinco. Se houver deficiência, a suplementação pode ser indicada de forma individualizada.
Manter acompanhamento médico
O acompanhamento com endocrinologista é essencial para ajustar a velocidade do emagrecimento e monitorar possíveis deficiências nutricionais. Em alguns casos, o apoio de um dermatologista especializado em tricologia complementa esse cuidado.
Quando procurar um médico
É importante investigar se a queda apresentar características diferentes do eflúvio telógeno, como:
- Queda localizada em áreas específicas
- Persistência por mais de seis meses após estabilização do peso
- Alterações no couro cabeludo, como vermelhidão, dor ou descamação
- Afinamento progressivo com padrão típico de calvície
Esses sinais podem indicar outras formas de alopecia que exigem abordagem específica.



