Malhotra A, et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity. New England Journal of Medicine, 2024. doi.org/10.1056/NEJMoa2404881

Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
A apneia obstrutiva do sono acontece quando a via aérea superior se fecha repetidamente durante o sono, interrompendo a respiração por dez segundos ou mais e fragmentando o descanso noturno. É uma condição comum e que pode estar diretamente relacionada ao excesso de peso.
A 4ª edição do estudo EPISONO encontrou a condição em 37,1% dos adultos avaliados em São Paulo, proporção que chega a 44,9% entre os homens. A obesidade é o principal fator de risco modificável: além de aumentar a chance de desenvolver a apneia, o excesso de peso também pode influenciar a gravidade do quadro.
Na prática, porém, nem sempre é fácil perceber que algo está errado. Quem convive com a apneia muitas vezes nota primeiro os efeitos no dia seguinte: ronco alto, sono pouco reparador e um cansaço que se prolonga ao longo do dia.
Como as interrupções da respiração acontecem durante o sono, o quadro pode passar anos sem ser reconhecido e, muitas vezes, o alerta vem de quem dorme ao lado, ao perceber as pausas na respiração durante a noite.
O que é apneia obstrutiva do sono
A cada colapso da via aérea, a entrada de ar é interrompida ou reduzida por alguns segundos. O nível de oxigênio no sangue cai, e o cérebro reage com um breve despertar para reabrir a passagem. Na maioria das vezes, esse despertar é tão curto que não chega a ser lembrado no dia seguinte.
Esse ciclo pode se repetir dezenas de vezes por hora. Para medir a frequência desses episódios, o exame utiliza o Índice de Apneia e Hipopneia (IAH), que indica quantas interrupções ou reduções da respiração acontecem, em média, a cada hora de sono.
O resultado ajuda a definir a gravidade da apneia: um IAH entre 5 e 14 indica quadro leve; entre 15 e 29, moderado; e a partir de 30, grave. Mas os números do exame não são a única forma de perceber o problema.
No dia a dia, os sinais mais comuns são ronco alto e irregular, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, sensação de sufocamento durante a noite, boca seca ao acordar, dor de cabeça pela manhã e sonolência excessiva ao longo do dia.
A importância do tratamento
As consequências podem ir muito além do cansaço. A repetição das quedas de oxigênio e dos microdespertares mantém o organismo sob estresse, sobrecarregando o sistema cardiovascular.
Quando não tratada, a apneia está associada a hipertensão de difícil controle, arritmias, resistência à insulina e maior risco de acidentes relacionados à sonolência, inclusive ao volante.
Por que a obesidade aumenta e agrava a apneia?
O excesso de peso atua sobre a via aérea de duas maneiras que se somam. A gordura depositada ao redor do pescoço e entre os tecidos da faringe estreita o espaço por onde o ar passa e aumenta a chance de colapso quando a musculatura relaxa.
A gordura abdominal, por sua vez, empurra o diafragma para cima e reduz o volume pulmonar, o que diminui a tração que mantém a via aérea aberta a partir do tórax.
Os números que sustentam essa relação vêm de um acompanhamento publicado em 2000, que mediu o que acontece com o mesmo grupo de pessoas ao longo do tempo.
Ganhar 10% do peso corporal elevou o IAH em cerca de 32% e multiplicou por seis a chance de desenvolver apneia moderada ou grave. Perder 10% do peso reduziu o IAH em 26%, o que mostra que o caminho funciona nos dois sentidos.
O que dizem os estudos
No Brasil, o estudo EPISONO acompanha a ocorrência da apneia obstrutiva do sono na população de São Paulo por meio de polissonografia completa.
Na 4ª edição, publicada em 2026, a condição foi identificada em 37,1% dos adultos avaliados: 44,9% dos homens e 30,8% das mulheres. Entre todos os participantes, 11,5% tinham apneia moderada e 7,9%, grave.
Na edição anterior, que registrou prevalência de 32,8%, a obesidade apareceu como o fator de risco mais forte do levantamento, associada a uma chance dez vezes maior de ter o quadro em comparação com pessoas de peso normal.
Como o diagnóstico é feito
O diagnóstico de apneia não se faz por sintoma nem por aplicativo de celular.
O exame de referência é a polissonografia, realizada em laboratório do sono, que registra ao mesmo tempo o fluxo de ar, o esforço respiratório, a oxigenação do sangue, a atividade cerebral e os movimentos do corpo durante a noite. É esse conjunto de dados que permite calcular o IAH e classificar a gravidade.
Em situações selecionadas, o médico pode indicar o teste do sono domiciliar, um equipamento portátil que a pessoa leva para casa e utiliza durante uma noite.
Ele mede menos variáveis que a polissonografia completa e serve melhor para casos com suspeita clínica alta de apneia moderada ou grave, sem outras doenças do sono associadas. Os dois exames dependem de prescrição e de interpretação médica, porque o número isolado não define conduta.
Ronco vs apneia
Roncar é frequente e nem todo ronco corresponde a apneia, embora ronco alto acompanhado de pausas respiratórias e sonolência diurna aumente bastante a probabilidade.
A decisão de investigar parte da soma desses sinais com fatores de risco como excesso de peso, circunferência cervical aumentada e pressão alta, e quem faz essa avaliação é o médico.
Quais são os tratamentos
O tratamento de referência para apneia moderada e grave é o CPAP, um aparelho que insufla ar sob pressão contínua por meio de uma máscara e mantém a via aérea aberta durante a noite.
Ele age enquanto está em uso e devolve qualidade ao sono desde as primeiras semanas, com boa resposta quando a adesão é consistente.
Aparelhos intraorais, que reposicionam a mandíbula, e procedimentos cirúrgicos sobre estruturas da via aérea entram em casos selecionados, conforme a anatomia e a gravidade.
Como cuidar do peso pode ajudar
Ao lado desses recursos está o tratamento do peso, que age sobre a causa em vez de compensar o efeito.
A diretriz brasileira de manejo da obesidade de 2025 recomenda a perda de peso para pessoas com obesidade e apneia moderada a grave, e registra um ponto que costuma passar batido na conversa com o paciente, o de que o CPAP sozinho não reduz o peso corporal.
A diretriz da American Thoracic Society segue a mesma direção ao recomendar o manejo do peso como parte do tratamento da apneia em quem tem sobrepeso ou obesidade.
A aprovação da tirzepatida para apneia
A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, foi o primeiro medicamento aprovado nos Estados Unidos com indicação específica para tratar a apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade.
A aprovação ocorreu em dezembro de 2024 e foi baseada em dois estudos clínicos que avaliaram a redução dos episódios de apneia em pessoas com obesidade.
No Brasil, a situação é diferente. Em junho de 2025, a Anvisa aprovou o Mounjaro para o controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a uma comorbidade relacionada ao peso, entre elas a apneia obstrutiva do sono.
Isso significa que, no contexto brasileiro, a apneia aparece como uma condição relacionada ao peso que pode fazer parte dos critérios para o tratamento da obesidade, e não como uma indicação independente do medicamento.
O que o estudo SURMOUNT-OSA mostrou
A evidência que sustenta a indicação vem do estudo SURMOUNT-OSA, publicado em 2024, feito com adultos que tinham apneia obstrutiva do sono moderada a grave e obesidade.
Em um dos ensaios, participaram pessoas que não usavam CPAP (o aparelho que mantém a via aérea aberta durante o sono). Nesse grupo, a tirzepatida reduziu o IAH em 25,3 eventos por hora, contra 5,3 com placebo.
No outro, que manteve o tratamento com CPAP, a redução foi de 29,3 eventos por hora, contra 5,5 com placebo. Em termos percentuais, isso correspondeu a uma queda de aproximadamente 51% e 59%, respectivamente, enquanto nos grupos placebo a redução ficou próxima de 3%.
A perda de peso e a melhora respiratória
A melhora da apneia veio acompanhada de uma perda de peso significativa.
Ao fim das 52 semanas, os participantes que receberam tirzepatida perderam, em média, 17,7% do peso corporal no ensaio com CPAP e 19,6% no ensaio sem CPAP. Nos dois casos, a perda de peso foi maior do que a observada nos grupos que receberam placebo.
Esses percentuais não devem, porém, ser comparados diretamente com os resultados de outros estudos da tirzepatida. O estudo adotou critérios específicos para calcular a perda de peso, diferentes dos utilizados em outros estudos.
Por isso, os percentuais de perda de peso com Mounjaro podem variar de um estudo para outro, mesmo quando o medicamento é o mesmo.
O que os resultados ainda não respondem
A ideia principal é simples: melhorar a apneia com tirzepatida não significa que a pessoa possa parar de usar o CPAP por conta própria.
O estudo que manteve o CPAP não avaliou se os participantes poderiam deixar de usar o aparelho depois de perder peso e melhorar a apneia. Já o estudo sem CPAP incluiu pessoas que não conseguiam ou não queriam usar o aparelho. Por isso, os resultados não permitem dizer que a tirzepatida substitui o CPAP.
Se a apneia melhorar bastante ou entrar em remissão, o médico pode avaliar se o CPAP ainda é necessário. Para tomar essa decisão com segurança, pode ser preciso repetir a avaliação do sono.
O CPAP continua sendo uma opção importante de tratamento, assim como aparelhos orais e cirurgia, dependendo de cada caso.
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Quem tem apneia e se beneficiar do tratamento da obesidade?
Para adultos com IMC a partir de 30 kg/m², o tratamento medicamentoso pode ser considerado para controle crônico do peso.
Já para quem tem IMC a partir de 27 kg/m², os medicamentos podem ser indicados quando existe pelo menos uma condição associada ao excesso de peso, como a apneia obstrutiva do sono.
Na prática, isso significa que uma pessoa com sobrepeso e apneia diagnosticada pode ser avaliada para tratamento medicamentoso mesmo sem ter IMC na faixa de obesidade.
A indicação, porém, não depende apenas do número da balança: o médico considera o histórico, os exames e as condições de saúde de cada pessoa.
O que lembrar:
- A apneia obstrutiva do sono acontece quando a via aérea colapsa repetidamente durante o sono, e a obesidade é o principal fator de risco modificável.
- Ganhar 10% do peso aumenta o índice de apneia e hipopneia em cerca de 32%, e perder 10% reduz esse índice em 26%.
- No Brasil, a 4ª edição do EPISONO encontrou apneia em 37,1% dos adultos avaliados em São Paulo, chegando a 44,9% entre os homens.
- O diagnóstico exige polissonografia ou teste do sono domiciliar, com prescrição médica.
- A tirzepatida tem indicação em bula para apneia obstrutiva moderada a grave em adultos com obesidade, com manutenção de 10 mg ou 15 mg.
- A decisão de suspender o CPAP é médica e passa por nova avaliação do sono.



