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Apneia obstrutiva do sono e obesidade: qual a relação e como tratar

Por que o excesso de peso causa apneia, o que a polissonografia mostra e onde a perda de peso entra no tratamento.

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Aprovado por:

Dr. Earim Chaudry

Escrito com base em estudos científicos
Tempo de leitura: 6 min
Atualizado em 21 de agosto de 2026

Aviso Importante:

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde. ​‍

A apneia obstrutiva do sono acontece quando a via aérea superior se fecha repetidamente durante o sono, interrompendo a respiração por dez segundos ou mais e fragmentando o descanso noturno. É uma condição comum e que pode estar diretamente relacionada ao excesso de peso.

A 4ª edição do estudo EPISONO encontrou a condição em 37,1% dos adultos avaliados em São Paulo, proporção que chega a 44,9% entre os homens. A obesidade é o principal fator de risco modificável: além de aumentar a chance de desenvolver a apneia, o excesso de peso também pode influenciar a gravidade do quadro.

Na prática, porém, nem sempre é fácil perceber que algo está errado. Quem convive com a apneia muitas vezes nota primeiro os efeitos no dia seguinte: ronco alto, sono pouco reparador e um cansaço que se prolonga ao longo do dia.

Como as interrupções da respiração acontecem durante o sono, o quadro pode passar anos sem ser reconhecido e, muitas vezes, o alerta vem de quem dorme ao lado, ao perceber as pausas na respiração durante a noite.

O que é apneia obstrutiva do sono

A cada colapso da via aérea, a entrada de ar é interrompida ou reduzida por alguns segundos. O nível de oxigênio no sangue cai, e o cérebro reage com um breve despertar para reabrir a passagem. Na maioria das vezes, esse despertar é tão curto que não chega a ser lembrado no dia seguinte.

Esse ciclo pode se repetir dezenas de vezes por hora. Para medir a frequência desses episódios, o exame utiliza o Índice de Apneia e Hipopneia (IAH), que indica quantas interrupções ou reduções da respiração acontecem, em média, a cada hora de sono.

O resultado ajuda a definir a gravidade da apneia: um IAH entre 5 e 14 indica quadro leve; entre 15 e 29, moderado; e a partir de 30, grave. Mas os números do exame não são a única forma de perceber o problema.

No dia a dia, os sinais mais comuns são ronco alto e irregular, pausas na respiração percebidas por quem dorme ao lado, sensação de sufocamento durante a noite, boca seca ao acordar, dor de cabeça pela manhã e sonolência excessiva ao longo do dia.

A importância do tratamento

As consequências podem ir muito além do cansaço. A repetição das quedas de oxigênio e dos microdespertares mantém o organismo sob estresse, sobrecarregando o sistema cardiovascular.

Quando não tratada, a apneia está associada a hipertensão de difícil controle, arritmias, resistência à insulina e maior risco de acidentes relacionados à sonolência, inclusive ao volante.

Por que a obesidade aumenta e agrava a apneia?

O excesso de peso atua sobre a via aérea de duas maneiras que se somam. A gordura depositada ao redor do pescoço e entre os tecidos da faringe estreita o espaço por onde o ar passa e aumenta a chance de colapso quando a musculatura relaxa.

A gordura abdominal, por sua vez, empurra o diafragma para cima e reduz o volume pulmonar, o que diminui a tração que mantém a via aérea aberta a partir do tórax.

Os números que sustentam essa relação vêm de um acompanhamento publicado em 2000, que mediu o que acontece com o mesmo grupo de pessoas ao longo do tempo.

Ganhar 10% do peso corporal elevou o IAH em cerca de 32% e multiplicou por seis a chance de desenvolver apneia moderada ou grave. Perder 10% do peso reduziu o IAH em 26%, o que mostra que o caminho funciona nos dois sentidos.

O que dizem os estudos

No Brasil, o estudo EPISONO acompanha a ocorrência da apneia obstrutiva do sono na população de São Paulo por meio de polissonografia completa.

Na 4ª edição, publicada em 2026, a condição foi identificada em 37,1% dos adultos avaliados: 44,9% dos homens e 30,8% das mulheres. Entre todos os participantes, 11,5% tinham apneia moderada e 7,9%, grave.

Na edição anterior, que registrou prevalência de 32,8%, a obesidade apareceu como o fator de risco mais forte do levantamento, associada a uma chance dez vezes maior de ter o quadro em comparação com pessoas de peso normal.

Como o diagnóstico é feito

O diagnóstico de apneia não se faz por sintoma nem por aplicativo de celular.

O exame de referência é a polissonografia, realizada em laboratório do sono, que registra ao mesmo tempo o fluxo de ar, o esforço respiratório, a oxigenação do sangue, a atividade cerebral e os movimentos do corpo durante a noite. É esse conjunto de dados que permite calcular o IAH e classificar a gravidade.

Em situações selecionadas, o médico pode indicar o teste do sono domiciliar, um equipamento portátil que a pessoa leva para casa e utiliza durante uma noite.

Ele mede menos variáveis que a polissonografia completa e serve melhor para casos com suspeita clínica alta de apneia moderada ou grave, sem outras doenças do sono associadas. Os dois exames dependem de prescrição e de interpretação médica, porque o número isolado não define conduta.

Ronco vs apneia

Roncar é frequente e nem todo ronco corresponde a apneia, embora ronco alto acompanhado de pausas respiratórias e sonolência diurna aumente bastante a probabilidade.

A decisão de investigar parte da soma desses sinais com fatores de risco como excesso de peso, circunferência cervical aumentada e pressão alta, e quem faz essa avaliação é o médico.

Quais são os tratamentos

O tratamento de referência para apneia moderada e grave é o CPAP, um aparelho que insufla ar sob pressão contínua por meio de uma máscara e mantém a via aérea aberta durante a noite.

Ele age enquanto está em uso e devolve qualidade ao sono desde as primeiras semanas, com boa resposta quando a adesão é consistente.

Aparelhos intraorais, que reposicionam a mandíbula, e procedimentos cirúrgicos sobre estruturas da via aérea entram em casos selecionados, conforme a anatomia e a gravidade.

Como cuidar do peso pode ajudar

Ao lado desses recursos está o tratamento do peso, que age sobre a causa em vez de compensar o efeito.

A diretriz brasileira de manejo da obesidade de 2025 recomenda a perda de peso para pessoas com obesidade e apneia moderada a grave, e registra um ponto que costuma passar batido na conversa com o paciente, o de que o CPAP sozinho não reduz o peso corporal.

A diretriz da American Thoracic Society segue a mesma direção ao recomendar o manejo do peso como parte do tratamento da apneia em quem tem sobrepeso ou obesidade.

A aprovação da tirzepatida para apneia

A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, foi o primeiro medicamento aprovado nos Estados Unidos com indicação específica para tratar a apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade.

A aprovação ocorreu em dezembro de 2024 e foi baseada em dois estudos clínicos que avaliaram a redução dos episódios de apneia em pessoas com obesidade.

No Brasil, a situação é diferente. Em junho de 2025, a Anvisa aprovou o Mounjaro para o controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso associado a uma comorbidade relacionada ao peso, entre elas a apneia obstrutiva do sono.

Isso significa que, no contexto brasileiro, a apneia aparece como uma condição relacionada ao peso que pode fazer parte dos critérios para o tratamento da obesidade, e não como uma indicação independente do medicamento.

O que o estudo SURMOUNT-OSA mostrou

A evidência que sustenta a indicação vem do estudo SURMOUNT-OSA, publicado em 2024, feito com adultos que tinham apneia obstrutiva do sono moderada a grave e obesidade.

Em um dos ensaios, participaram pessoas que não usavam CPAP (o aparelho que mantém a via aérea aberta durante o sono). Nesse grupo, a tirzepatida reduziu o IAH em 25,3 eventos por hora, contra 5,3 com placebo.

No outro, que manteve o tratamento com CPAP, a redução foi de 29,3 eventos por hora, contra 5,5 com placebo. Em termos percentuais, isso correspondeu a uma queda de aproximadamente 51% e 59%, respectivamente, enquanto nos grupos placebo a redução ficou próxima de 3%.

A perda de peso e a melhora respiratória

A melhora da apneia veio acompanhada de uma perda de peso significativa.

Ao fim das 52 semanas, os participantes que receberam tirzepatida perderam, em média, 17,7% do peso corporal no ensaio com CPAP e 19,6% no ensaio sem CPAP. Nos dois casos, a perda de peso foi maior do que a observada nos grupos que receberam placebo.

Esses percentuais não devem, porém, ser comparados diretamente com os resultados de outros estudos da tirzepatida. O estudo adotou critérios específicos para calcular a perda de peso, diferentes dos utilizados em outros estudos.

Por isso, os percentuais de perda de peso com Mounjaro podem variar de um estudo para outro, mesmo quando o medicamento é o mesmo.

O que os resultados ainda não respondem

A ideia principal é simples: melhorar a apneia com tirzepatida não significa que a pessoa possa parar de usar o CPAP por conta própria.

O estudo que manteve o CPAP não avaliou se os participantes poderiam deixar de usar o aparelho depois de perder peso e melhorar a apneia. Já o estudo sem CPAP incluiu pessoas que não conseguiam ou não queriam usar o aparelho. Por isso, os resultados não permitem dizer que a tirzepatida substitui o CPAP.

Se a apneia melhorar bastante ou entrar em remissão, o médico pode avaliar se o CPAP ainda é necessário. Para tomar essa decisão com segurança, pode ser preciso repetir a avaliação do sono.

O CPAP continua sendo uma opção importante de tratamento, assim como aparelhos orais e cirurgia, dependendo de cada caso.

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Quem tem apneia e se beneficiar do tratamento da obesidade?

Para adultos com IMC a partir de 30 kg/m², o tratamento medicamentoso pode ser considerado para controle crônico do peso.

Já para quem tem IMC a partir de 27 kg/m², os medicamentos podem ser indicados quando existe pelo menos uma condição associada ao excesso de peso, como a apneia obstrutiva do sono.

Na prática, isso significa que uma pessoa com sobrepeso e apneia diagnosticada pode ser avaliada para tratamento medicamentoso mesmo sem ter IMC na faixa de obesidade.

A indicação, porém, não depende apenas do número da balança: o médico considera o histórico, os exames e as condições de saúde de cada pessoa.

O que lembrar:

  • A apneia obstrutiva do sono acontece quando a via aérea colapsa repetidamente durante o sono, e a obesidade é o principal fator de risco modificável.
  • Ganhar 10% do peso aumenta o índice de apneia e hipopneia em cerca de 32%, e perder 10% reduz esse índice em 26%.
  • No Brasil, a 4ª edição do EPISONO encontrou apneia em 37,1% dos adultos avaliados em São Paulo, chegando a 44,9% entre os homens.
  • O diagnóstico exige polissonografia ou teste do sono domiciliar, com prescrição médica.
  • A tirzepatida tem indicação em bula para apneia obstrutiva moderada a grave em adultos com obesidade, com manutenção de 10 mg ou 15 mg.
  • A decisão de suspender o CPAP é médica e passa por nova avaliação do sono.

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Perguntas Frequentes

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Referências
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Malhotra A, et al. Tirzepatide for the Treatment of Obstructive Sleep Apnea and Obesity. New England Journal of Medicine, 2024. doi.org/10.1056/NEJMoa2404881

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Peppard PE, Young T, Palta M, Dempsey J, Skatrud J. Longitudinal study of moderate weight change and sleep-disordered breathing. JAMA, 2000;284(23):3015–3021. doi.org/10.1001/jama.284.23.3015

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Tufik S, et al. Prevalence and Risk Factors for Obstructive Sleep Apnea in São Paulo: Findings From the 4th Edition of the EPISONO Study. Journal of Sleep Research, 2026;35(3):e70255. doi.org/10.1111/jsr.70255