CagriSema: novo injetável para obesidade?

Entenda como funciona, o que os estudos mostram e se o Brasil pode ter acesso.

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Aprovado por:

Time de Saúde Voy

Escrito com base em estudos científicos
Atualizado em 06/03/2026
Aviso Importante:

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde. ​‍

Quem acompanha o mercado de medicamentos para obesidade já sabe que a briga pelo topo está acirrada. A semaglutida dominou os noticiários por anos, a tirzepatida chegou com resultados ainda melhores, e agora um terceiro nome entrou na conversa: o CagriSema.

Desta vez, a combinação é diferente das anteriores, e os dados dos estudos de fase 3 são suficientemente expressivos para justificar a atenção. A pergunta é: quando chega ao Brasil?

Segue que explicamos tudo aqui.

O que é CagriSema?

É desenvolvido pela Novo Nordisk e administrado em uma única injeção subcutânea semanal, o medicamento contém a cagrilintida: ingrediente que diferencia o CagriSema de tudo que já existe no mercado para obesidade.

Enquanto a tirzepatida combina GLP-1 e GIP, dois hormônios intestinais, o CagriSema aposta em uma via diferente: une a semaglutida a um análogo sintético da amilina, um hormônio pancreático que quase não aparece nas discussões sobre emagrecimento, mas tem papel relevante no controle do apetite.

A semaglutida já é bem conhecida: atua nos receptores GLP-1 no hipotálamo, reduzindo o apetite e retardando o esvaziamento gástrico. Já a cagrilintida imita a amilina, secretada pelo pâncreas junto com a insulina sempre que uma refeição começa.

Enquanto na forma natural, esse hormônio tem meia-vida curtíssima no organismo, o que limita qualquer efeito terapêutico. Com o medicamento, seu efeito pode para durar uma semana, mantendo o sinal de saciedade ativo de forma contínua.

Por que combinar os dois hormônios?

GLP-1 e amilina atuam em receptores distintos, mas em regiões cerebrais que se sobrepõem no controle do apetite. Quando os dois sinais chegam ao mesmo tempo, eles não simplesmente se somam: potencializam um ao outro.

A hipótese foi confirmada nos ensaios clínicos, nos quais o CagriSema superou tanto a semaglutida isolada quanto a cagrilintida isolada em termos de perda de peso. Nenhum dos dois componentes, usado sozinho, produziu o mesmo resultado que a combinação.

É diferente de aumentar a dose do Ozempic. É uma abordagem farmacológica distinta, que acessa duas vias de saciedade ao mesmo tempo.

O que os ensaios clínicos mostram

Os resultados que colocaram o CagriSema no radar da medicina vieram de um programa robusto de estudos de fase 3, chamado REDEFINE.

Os dados mais completos foram publicados em junho de 2025 no New England Journal of Medicine e apresentados no congresso da Associação Americana de Diabetes. Vale entender cada um deles com calma.

REDEFINE 1: resultados em pessoas sem diabetes

O REDEFINE 1 incluiu 3.417 adultos com obesidade ou sobrepeso e pelo menos uma comorbidade, como hipertensão ou dislipidemia, sem diabetes tipo 2. O peso médio inicial era de 106,9 kg, e o acompanhamento durou 68 semanas.

Os participantes que usaram CagriSema perderam em média 22,7% do peso corporal, contra 2,3% no grupo placebo, 16,1% com semaglutida isolada e 11,8% com cagrilintida isolada. Mais da metade dos participantes chegou ao final do estudo com IMC abaixo de 30, saindo da faixa de obesidade. A taxa de abandono por efeitos adversos ficou abaixo de 1%.

Um detalhe importante do desenho do estudo: o protocolo permitia ajuste de dose ao longo do tratamento. Só 57% dos participantes chegaram à dose máxima prevista. Ainda assim, a perda de peso foi expressiva. Na prática clínica, esse tipo de flexibilidade de dose costuma ser a norma.

REDEFINE 2: resultados em pessoas com diabetes tipo 2

Historicamente, pessoas com diabetes tipo 2 respondem menos à semaglutida isolada do que pessoas sem a condição. O REDEFINE 2 foi desenhado justamente para testar se o CagriSema conseguia superar essa limitação. O estudo incluiu 1.206 participantes com obesidade ou sobrepeso e diabetes tipo 2, acompanhados por 68 semanas.

A perda de peso média foi de 15,7%, contra 3,1% com placebo. Quase 90% dos participantes atingiram pelo menos 5% de redução do peso corporal.

Os dados sugerem que adicionar cagrilintida pode ajudar a contornar parte dessa resistência. Como em qualquer tratamento crônico, os resultados variam de pessoa para pessoa e dependem de fatores individuais que um médico precisa avaliar.

Comparação com tirzepatida: o que o estudo revelou

O REDEFINE 4 comparou o CagriSema diretamente com tirzepatida 15 mg em 809 adultos com obesidade, ao longo de 84 semanas. O CagriSema obteve perda de peso de 23%; a tirzepatida, 25,5%. A diferença não foi grande o suficiente para que o CagriSema atingisse o endpoint de não-inferioridade definido no protocolo.

Em outras palavras: o CagriSema não provou ser tão bom quanto a tirzepatida no cenário mais exigente do estudo. Isso não invalida o medicamento.

Significa que, nesse confronto direto específico, a tirzepatida saiu na frente. O que é um dado importante para médicos avaliarem, não um motivo para descartar o CagriSema como opção futura.

CagriSema vs. medicamentos que já existem

Entender onde o CagriSema se posiciona dentro do arsenal disponível ajuda a colocar o entusiasmo em perspectiva. Um resumo direto para contextualizar:

  • Wegovy (semaglutida 2,4 mg): o CagriSema demonstrou perda de peso superior nos ensaios, com 22,7% contra 16,1% com semaglutida isolada no REDEFINE 1.
  • Mounjaro/Zepbound (tirzepatida): no confronto direto, a tirzepatida obteve resultado ligeiramente superior (25,5% contra 23%). Ambos estão na faixa mais alta de eficácia já documentada para medicamentos para obesidade.
  • Ozempic (semaglutida 1 mg, para diabetes): uma comparação direta não é relevante, pois são indicações e doses distintas.

O que isso significa na prática? Que o CagriSema representa um avanço genuíno sobre a semaglutida isolada, mas não estabeleceu superioridade sobre a tirzepatida.

Para o paciente brasileiro, o dado mais imediato é outro: nenhum dos dois está ainda disponível no país para tratamento da obesidade.

Aprovação, acesso e o que esperar no Brasil

Aqui é onde a maioria das matérias peca por otimismo excessivo. Os números dos estudos impressionam, mas entre um resultado de ensaio clínico e um medicamento disponível na farmácia da esquina existe um caminho longo, burocrático e caro. Vale entender cada etapa.

Status regulatório atual

A Novo Nordisk submeteu o pedido de aprovação à FDA americana em dezembro de 2025. A revisão pela FDA está prevista para 2026. Aprovação nos EUA e na União Europeia, se ocorrer, abre caminho para submissões em outros países. O CagriSema não tem pedido de registro aberto na Anvisa até o momento, ou seja, não há uma data oficial.

Quando o CagriSema pode chegar ao Brasil?

Historicamente, a Anvisa aprova medicamentos com defasagem de 12 a 24 meses após aprovações internacionais. Isso significa que, no melhor cenário, o CagriSema não estará disponível nas farmácias brasileiras antes de 2027. Mais provavelmente 2028, dependendo de quando (e se) a aprovação americana ocorrer.

Paciência é necessária. E desconfiança de qualquer anúncio de "versão manipulada" ou importação não oficial do produto.

Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.

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Perguntas Frequentes

Referências
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Garvey WT, Blüher M, Osorto Contreras CK, et al. Coadministered Cagrilintide and Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity. New England Journal of Medicinescribble-underline, junho 2025.

icon²

Davies MJ, Bajaj HS, Broholm C, et al. Cagrilintide–Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity and Type 2 Diabetes. New England Journal of Medicinescribble-underline, junho 2025.

icon³

Drug Topics. CagriSema Did Not Meet Primary End Point of Noninferiority to Tirzepatide. Fevereiro 2026.

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Novo Nordisk. Novo Nordisk Files for FDA Approval of CagriSema. Dezembro 2025.

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CNN Brasil. Fabricante do Ozempic anuncia novo remédio que se "iguala" ao Mounjaro. Dezembro 2024.

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