
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
A obesidade já atinge mais de 650 milhões de adultos no mundo. No Brasil, os dados seguem a mesma tendência de crescimento.
Embora alimentação equilibrada e atividade física continuem sendo a base de qualquer tratamento, a ciência médica reconhece que, para muitas pessoas, isso não é suficiente. É nesse contexto que entram medicamentos como o Mounjaro KwikPen.
Aprovado pela Anvisa em setembro de 2023 para o tratamento do diabetes tipo 2 e, mais recentemente, em junho de 2025, para o controle crônico do peso, o Mounjaro representa uma nova geração de medicamentos para obesidade.
Ele não é uma solução mágica, nenhum medicamento é, mas pode ser uma ferramenta poderosa quando usado com prescrição médica e dentro de um plano completo de tratamento.
A seguir, explicamos o que a ciência já sabe sobre essa caneta injetável que tem chamado tanta atenção.
O que é o Mounjaro kwikpen?
Mounjaro é o nome comercial da tirzepatida, medicamento desenvolvido pela farmacêutica Eli Lilly. O termo KwikPen se refere ao formato: uma caneta injetável pré-preenchida, de uso semanal, que contém quatro doses: suficientes para um mês de tratamento.
O grande diferencial do Mounjaro está no seu mecanismo de ação. Ele é o primeiro medicamento aprovado que atua simultaneamente em dois receptores hormonais: GLP-1 e GIP.
Esses hormônios são produzidos naturalmente pelo intestino após as refeições e estão diretamente envolvidos no controle da fome, da saciedade e da glicose no sangue.
Medicamentos como Ozempic e Wegovy atuam apenas no GLP-1. Já o Mounjaro combina os dois caminhos, e isso ajuda a explicar os resultados mais expressivos observados nos estudos clínicos.
Aprovação da Anvisa no Brasil
A aprovação do Mounjaro no Brasil aconteceu de forma progressiva:
- Setembro de 2023: aprovado para diabetes tipo 2
- Junho de 2025: aprovado para controle crônico do peso em adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidades
- Outubro de 2025: aprovado para tratamento da apneia obstrutiva do sono moderada a grave em adultos com obesidade
Desde 23 de junho de 2025, a ANVISA passou a exigir receita de controle especial em duas vias para a compra da tirzepatida. Uma das vias fica retida na farmácia. O objetivo é claro: evitar o uso sem acompanhamento médico, algo que pode trazer riscos sérios à saúde.
Como funciona o Mounjaro?
A tirzepatida imita a ação de dois hormônios intestinais:
- GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1)
- GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose)
Quando você se alimenta, esses hormônios são liberados naturalmente. O Mounjaro potencializa esse efeito, promovendo várias ações ao mesmo tempo:
- Estimula o pâncreas a liberar insulina apenas quando a glicose está elevada
- Reduz a liberação de glucagon pelo fígado (hormônio que aumenta o açúcar no sangue)
- Retarda o esvaziamento gástrico, prolongando a sensação de saciedade
- Atua em áreas do cérebro ligadas ao apetite e ao comportamento alimentar
O resultado prático é uma combinação de menos fome, mais saciedade e melhor controle glicêmico, o que favorece a perda de peso.
Um ponto interessante é o equilíbrio entre GLP-1 e GIP. Enquanto o GLP-1 reduz o glucagon, o GIP tende a aumentá-lo, criando um efeito compensatório que pode ajudar a reduzir o risco de hipoglicemia.
Mounjaro KwikPen emagrece? O que dizem os estudos
Sim. E os dados são consistentes.
O estudo SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine, avaliou mais de 2.500 adultos com obesidade ou sobrepeso com comorbidades durante 72 semanas. Todos os participantes receberam orientação para dieta hipocalórica e aumento da atividade física.
Os resultados foram expressivos:
- Perda de 16% a 22,5% do peso corporal, dependendo da dose
- No grupo placebo, a perda foi de apenas 3%
- Mais de 85% dos participantes perderam pelo menos 5% do peso — um marco clinicamente relevante
Na prática, uma pessoa com 100 kg poderia perder entre 16 e 22,5 kg ao longo do tratamento, sempre associado a mudanças no estilo de vida.
Comparação com Semaglutida (Ozempic e Wegovy)
O estudo SURMOUNT-5, publicado em 2024, comparou diretamente a tirzepatida com a semaglutida.
Após 72 semanas:
- Tirzepatida (Mounjaro): média de 20,2% de perda de peso (≈22,8 kg)
- Semaglutida: média de 13,7% de perda de peso (≈15 kg)
Isso representa uma eficácia cerca de 47% maior para o Mounjaro nesse estudo específico. Ainda assim, ambos os medicamentos só apresentaram bons resultados porque foram usados com acompanhamento médico, dieta e atividade física.
Expectativas realistas de resultado
A perda de peso com Mounjaro é progressiva, não imediata.
- Primeiras mudanças costumam aparecer entre 4 e 6 semanas
- Pico de perda ocorre entre 9 e 12 meses
- Depois, o peso tende a se estabilizar
No primeiro mês, a média esperada é de 2% a 4% de redução do peso corporal. Sem reeducação alimentar e atividade física, os resultados são limitados — e o peso tende a retornar se o medicamento for suspenso de forma abrupta.
Para quem o Mounjaro é indicado?
Segundo a ANVISA, o Mounjaro é indicado para adultos com:
- IMC ≥ 30 kg/m² (obesidade), ou
- IMC ≥ 27 kg/m² (sobrepeso) associado a pelo menos uma comorbidade, como:
- Hipertensão
- Dislipidemia
- Apneia obstrutiva do sono
- Doença cardiovascular
- Pré-diabetes ou diabetes tipo 2
Contraindicações
O uso é contraindicado para pessoas com:
- Histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular da tireoide
- Neoplasia endócrina múltipla tipo 2 (MEN 2)
- Diabetes tipo 1
- Gravidez ou amamentação
- Histórico de pancreatite aguda
- Alergia à tirzepatida
Em casos de doenças gastrointestinais graves, o uso deve ser avaliado com ainda mais cautela pelo médico.
Como usar a caneta Mounjaro KwikPen
A KwikPen é uma caneta de múltiplas doses, com quatro aplicações semanais.
- Frequência: uma vez por semana, sempre no mesmo dia
- Via de aplicação: subcutânea (abdômen, coxa ou braço)
- Dose inicial: geralmente 2,5 mg/semana por 4 semanas
- Ajuste de dose: pode subir gradualmente até 15 mg, conforme resposta e tolerância
O armazenamento correto e o uso de agulha nova a cada aplicação são fundamentais. A caneta nunca deve ser compartilhada.
Efeitos colaterais do Mounjaro
Os efeitos adversos mais comuns são gastrointestinais, especialmente no início:
- Náusea
- Diarreia
- Vômitos
- Constipação
Em geral, são leves a moderados e tendem a diminuir com o tempo. Eventos raros, mas graves, incluem pancreatite, problemas na vesícula e reações alérgicas.
Qualquer sintoma intenso deve ser avaliado imediatamente por um médico.
Cuidados e recomendações importantes
O Mounjaro não é varinha mágica. E não deve ser visto como solução rápida para perder alguns quilos antes de um evento. Tem algumas coisas das quais não dá para abrir mão:
- Acompanhamento médico é essencial: Obesidade é doença crônica que requer tratamento de longo prazo. O endocrinologista monitora resposta à medicação, ajusta doses, gerencia efeitos colaterais e avalia exames laboratoriais regularmente.
- Dieta e exercícios não são opcionais: Todos os estudos clínicos do Mounjaro incluíram dieta com redução calórica e aumento de atividade física. A medicação não ensina ninguém a comer melhor. Apenas ajuda a controlar fome e saciedade. Sem mudanças sustentáveis no estilo de vida, o peso perdido frequentemente retorna após suspender a medicação.
Dados do estudo SURMOUNT-4 mostram que pessoas que pararam o Mounjaro após 36 semanas recuperaram 14% do peso em 52 semanas, enquanto quem continuou perdeu mais 5,5%.
- Tratamento de longo prazo: Estudos de 3 anos mostram que a perda de peso se mantém com uso contínuo. Mas 50% a 70% do peso pode ser recuperado em 1-2 anos se a medicação for suspensa sem plano de manutenção.
Isso não é "dependência" ou "vício". É a natureza crônica da obesidade.
- Interações medicamentosas: O Mounjaro pode reduzir a absorção de anticoncepcionais orais. A Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (FEBRASGO) recomenda métodos alternativos como DIU ou implante hormonal, além de preservativo nas primeiras semanas de tratamento.
Se você toma insulina ou medicamentos que aumentam a produção de insulina (como sulfonilureias), há risco de hipoglicemia. Seu médico pode precisar ajustar essas doses.



