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Curva glicêmica: o que é, como é feita e quais são os valores de referência

Como funciona o teste de tolerância à glicose, o que mudou na diretriz brasileira e o que um resultado alterado pede

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Aprovado por:

Dr. Earim Chaudry

Escrito com base em estudos científicos
Tempo de leitura: 9 min
Atualizado em 8 de outubro de 2026

Resumo rápido

A curva glicêmica, chamada oficialmente de teste oral de tolerância à glicose, mede como o organismo processa uma dose de 75 g de glicose ao longo de uma a duas horas. Pela diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, o resultado é normal quando a glicemia fica abaixo de 155 mg/dL em uma hora ou abaixo de 140 mg/dL em duas horas. Valores de 155 a 208 mg/dL em uma hora, ou de 140 a 199 mg/dL em duas, indicam pré-diabetes, e a partir de 209 mg/dL em uma hora ou 200 mg/dL em duas o resultado sugere diabetes, com necessidade de confirmação.

O que é a curva glicêmica

O pedido médico chegou com o nome curva glicêmica, ou com a sigla TOTG, e junto vieram as dúvidas sobre como é o exame, quanto tempo ele leva e o que significa cada número do laudo. É uma das perguntas mais comuns de quem vai investigar a glicose, e a resposta começa pelo que o teste observa de diferente dos exames de sangue mais simples.

A glicemia de jejum mostra o nível de açúcar no sangue em um único momento, depois de uma noite sem comer. A hemoglobina glicada mostra a média da glicose dos últimos dois a três meses. Já a curva glicêmica coloca o organismo à prova, oferecendo uma quantidade conhecida de glicose e acompanhando como o corpo reage a ela ao longo do tempo.

Por que isso importa? Em muitas pessoas, a glicemia de jejum continua normal por anos enquanto o corpo já tem dificuldade para lidar com o açúcar que vem das refeições. A curva consegue flagrar essa dificuldade mais cedo, porque mostra quanto a glicose sobe depois da sobrecarga e quanto tempo o organismo leva para trazê-la de volta.

Como o exame é feito e qual é o preparo

O teste começa com uma coleta de sangue em jejum. Em seguida, a pessoa bebe uma solução com 75 g de glicose diluída em água, que tem um gosto bem doce, e permanece no laboratório para novas coletas, em geral depois de uma e de duas horas, conforme o pedido médico. Alguns laboratórios incluem coletas intermediárias, aos 30 e aos 90 minutos.

A diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes orienta jejum de 8 a 12 horas antes do exame e uma alimentação com pelo menos 150 g de carboidratos por dia nos três dias anteriores. Esse segundo ponto costuma surpreender, mas tem explicação. Quem corta carboidratos às vésperas do exame pode ter uma resposta artificialmente alterada à glicose, porque o organismo sai do ritmo habitual de produção de insulina.

Durante as coletas, o ideal é permanecer sentado e em repouso, sem comer, sem fumar e sem fazer esforço físico, já que tudo isso interfere no consumo de glicose pelos músculos. Vale levar algo para passar o tempo e avisar o laboratório se surgir enjoo ou vômito depois de beber a solução, porque nesse caso o exame pode precisar ser refeito em outro dia.

Valores de referência da curva glicêmica

Os valores usados no Brasil para diagnóstico seguem a diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, que separa o resultado em três faixas para cada momento da coleta. Esses pontos de corte valem para adultos fora da gestação, e a gravidez segue critérios próprios, explicados mais adiante.

  • Jejum: normal abaixo de 100 mg/dL, pré-diabetes 100 a 125 mg/dL, diabetes 126 mg/dL ou mais
  • 1 hora após a glicose: normal abaixo de 155 mg/dL, pré-diabetes 155 a 208 mg/dL, diabetes 209 mg/dL ou mais
  • 2 horas após a glicose: normal abaixo de 140 mg/dL, pré-diabetes 140 a 199 mg/dL, diabetes 200 mg/dL ou mais

Um único valor alterado já basta para classificar o resultado na faixa correspondente, mas o diagnóstico de diabetes tipo 2 pede confirmação. Pela diretriz, quando só um exame está alterado e os demais estão normais, ele deve ser repetido, e a pessoa com apenas um critério fora do esperado costuma ser reavaliada em cerca de seis meses.

Por que a medida de 1 hora ganhou espaço

Durante décadas, o valor de duas horas foi o principal parâmetro da curva glicêmica. Na atualização mais recente, a diretriz brasileira passou a considerar a glicemia de uma hora preferível à de duas para diagnosticar o diabetes tipo 2 e detectar o pré-diabetes, com a medida de duas horas mantida como alternativa.

A mudança se apoia em estudos que acompanharam pessoas por muitos anos e mostraram que uma glicose alta uma hora depois da sobrecarga identifica mais cedo quem tem maior risco de desenvolver diabetes e complicações. Há também uma vantagem prática, já que o exame fica mais curto e reduz o tempo de espera no laboratório. Por isso, alguns pedidos médicos já trazem apenas as coletas de jejum e de uma hora. Para quem vai fazer o exame, a principal diferença está na leitura do laudo, já que os limites de uma hora são mais altos do que os de duas.

O que pode alterar o resultado

Como a curva glicêmica depende da forma como o corpo reage naquele dia específico, algumas situações podem distorcer o resultado. Doenças agudas, como infecções e febre, e períodos de estresse físico intenso elevam a glicose temporariamente. Alguns medicamentos fazem o mesmo, como os corticoides, certos diuréticos e alguns antipsicóticos, e por isso o médico precisa saber de tudo o que está sendo usado.

O preparo também pesa. Dieta muito pobre em carboidratos nos dias anteriores, jejum mais longo do que o recomendado e atividade física durante as coletas podem levar a resultados que não refletem o dia a dia. Quem já tem diagnóstico de diabetes, ou glicemia de jejum muito alta, em geral não precisa fazer a curva, e cabe ao médico decidir se o exame faz sentido.

Curva glicêmica na gravidez

Na gestação, a curva glicêmica é usada para investigar o diabetes gestacional, geralmente entre a 24ª e a 28ª semana, e os pontos de corte são outros. Os valores mais usados vêm do consenso internacional do grupo IADPSG, publicado na Diabetes Care em 2010, que considera alterado um resultado igual ou acima de 92 mg/dL em jejum, 180 mg/dL em uma hora ou 153 mg/dL em duas horas.

Nesse caso, basta um único valor alterado para o diagnóstico, e o acompanhamento é feito pelo obstetra. Os valores de referência apresentados acima não valem para gestantes, o que evita interpretações erradas de laudos durante o pré-natal.

Curva alterada: o que costuma vir depois

Um resultado na faixa de pré-diabetes não significa que o diabetes já está instalado, mas mostra que o corpo tem mais dificuldade para controlar a glicose. Na maioria das vezes, por trás dessa dificuldade está a resistência à insulina, quadro em que as células respondem menos ao hormônio responsável por colocar o açúcar para dentro delas e o pâncreas precisa trabalhar mais para compensar.

É também a fase em que mudanças de estilo de vida têm mais efeito. Perder peso, praticar atividade física com regularidade e ajustar a alimentação reduzem de forma importante o risco de progressão, e o médico pode pedir outros exames para entender o quadro completo, já que a glicose alterada costuma andar junto com pressão alta, colesterol elevado e gordura abdominal, um conjunto chamado síndrome metabólica.

Como o tratamento da obesidade se conecta à curva glicêmica

Para pessoas com obesidade e pré-diabetes, o tratamento do excesso de peso também protege contra o diabetes. No acompanhamento de três anos do estudo SURMOUNT-1, publicado no New England Journal of Medicine, 1,3% dos participantes com pré-diabetes que usaram tirzepatida evoluíram para diabetes tipo 2, contra 13,3% no grupo placebo, uma redução de risco de cerca de 93%.

O mesmo estudo mostrou que o efeito depende de manter o tratamento. Nas 17 semanas seguintes à interrupção, parte do peso voltou e a proporção de casos de diabetes no grupo da tirzepatida subiu para 2,4%, ainda bem abaixo do placebo. Esse é o tipo de dado que o médico considera ao avaliar se há indicação de medicamentos da classe GLP-1, grupo que inclui a tirzepatida e a semaglutida, presente no Ozempic, no Wegovy, no Ozivy e nos genéricos nacionais aprovados para diabetes tipo 2 em 2026.

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A curva glicêmica, portanto, vai além de um número no laudo. Ela mostra em que ponto do caminho entre a glicose normal e o diabetes a pessoa está, e dá tempo para agir enquanto as mudanças ainda têm grande chance de reverter o quadro.

O que lembrar

  • A curva glicêmica mede como o corpo reage a 75 g de glicose ao longo de uma a duas horas.
  • O preparo pede jejum de 8 a 12 horas e pelo menos 150 g de carboidratos por dia nos três dias anteriores.
  • Normal é abaixo de 155 mg/dL em uma hora ou abaixo de 140 mg/dL em duas horas.
  • A diretriz brasileira passou a preferir o valor de uma hora para o diagnóstico.
  • Na gravidez, os pontos de corte são outros, e um único valor alterado já define diabetes gestacional.
  • Pré-diabetes é a fase em que perder peso e mudar hábitos tem mais chance de evitar o diabetes.

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Aviso Importante:

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.

Perguntas Frequentes

Referências
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Diagnóstico de diabetes mellitus, Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes. https://diretriz.diabetes.org.br/diagnostico-de-diabetes-mellitus/

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Recomendações do IADPSG para o diagnóstico e a classificação da hiperglicemia na gravidez, Diabetes Care, 2010. https://doi.org/10.2337/dc09-1848

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Tirzepatida para o tratamento da obesidade e a prevenção do diabetes, New England Journal of Medicine, 2025. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2410819

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