Sociedade Brasileira de Diabetes. Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, edição 2025. Capítulo de diagnóstico de diabetes mellitus. diretriz.diabetes.org.br/diagnostico-de-diabetes-mellitus

Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
O diabetes tipo 2 é uma doença crônica em que o corpo passa a responder mal à insulina e, com o tempo, produz menos desse hormônio, o que mantém a glicose alta no sangue.
Como costuma avançar sem sintomas por anos, muita gente só descobre em exames de rotina, e sede excessiva, vontade frequente de urinar e cansaço tendem a aparecer quando a glicemia já está bem elevada.
O tratamento combina mudança de hábitos com medicamentos orais ou injetáveis, entre eles os agonistas de GLP-1, e começar cedo faz diferença, porque o controle da glicose desde o diagnóstico reduz as complicações nos rins, nos olhos, nos nervos e no coração.
O que é diabetes tipo 2
Vamos explicar mais a fundo. Quem acabou de receber o diagnóstico ou está investigando a glicose costuma chegar com uma mistura de preocupação e dúvidas práticas.
O diabetes tipo 2 é a forma mais comum da doença, responsável pela grande maioria dos casos, e entender o que acontece no corpo ajuda a entender por que o tratamento funciona como funciona.
No centro do problema está um desequilíbrio entre a produção de insulina e a capacidade das células de usá-la. A insulina, produzida pelo pâncreas, funciona como uma chave que permite a entrada da glicose nas células para virar energia, e no diabetes tipo 2 as células dos músculos, do fígado e da gordura passam a responder mal a essa chave, um estado chamado resistência à insulina.
No início, o pâncreas compensa produzindo ainda mais insulina, o que segura a glicemia por um tempo. Com os anos, esse esforço extra desgasta as células que fabricam o hormônio, a produção cai e a glicose sobe de forma gradual e contínua, o que caracteriza a doença.
O quadro costuma estar associado ao excesso de peso, ao sedentarismo e a uma alimentação rica em ultraprocessados, mas a predisposição genética também pesa.
É isso que ajuda a explicar por que a doença se repete em famílias e por que duas pessoas com hábitos parecidos podem ter desfechos diferentes.
Sintomas do diabetes tipo 2
A característica mais importante do diabetes tipo 2 é que muita gente não sente nada nos estágios iniciais.
Diabetes no Brasil: 1 em cada 10 adultos
Segundo os dados epidemiológicos reunidos pela Sociedade Brasileira de Diabetes a partir do IDF Diabetes Atlas, o Brasil tinha 16,6 milhões de adultos entre 20 e 79 anos com diabetes em 2024, e cerca de 32% deles, o equivalente a 5,3 milhões de pessoas, ainda não sabiam do diagnóstico.Quando os sintomas aparecem, eles refletem a glicose alta no sangue. Os clássicos são a vontade frequente de urinar, sobretudo à noite, a sede que nenhuma quantidade de água parece saciar, a fome exagerada mesmo depois das refeições e a perda de peso sem motivo.
Eles surgem porque, quando a glicose não entra nas células, o organismo tenta eliminá-la pela urina, o que aumenta o volume urinário e leva à desidratação.
Outras manifestações podem vir junto. O cansaço e a fraqueza são comuns, já que as células recebem menos energia, a visão pode ficar embaçada porque o açúcar alto altera o cristalino.
Além disso, infecções de repetição, feridas que demoram a cicatrizar e formigamento nas mãos e nos pés, podem ser um alerta de que os nervos começam a ser afetados.
Como é feito o diagnóstico
O diagnóstico segue a Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes, atualizada em 2025, e pode usar um ou mais exames.
A glicemia de jejum indica diabetes a partir de 126 mg/dL, e a hemoglobina glicada, que reflete a média da glicose dos últimos três meses, a partir de 6,5%.
O teste de tolerância à glicose, em que se mede a glicemia depois de beber uma solução com 75 g de glicose, também entra no diagnóstico. A diretriz passou a preferir a leitura de uma hora, que indica diabetes a partir de 209 mg/dL, mas a leitura clássica de duas horas continua válida, com corte de 200 mg/dL.
Em quem não tem sintomas, um único exame alterado não fecha o diagnóstico e precisa ser confirmado por um segundo, para evitar alarmes falsos.
Por isso a diretriz recomenda, sempre que possível, pedir dois exames ao mesmo tempo, como glicemia de jejum e hemoglobina glicada, e quando os dois vêm alterados o diagnóstico já fica estabelecido.
A mesma diretriz antecipou a idade do rastreamento, que agora deve começar aos 35 anos para todas as pessoas. Adultos com sobrepeso ou obesidade que tenham pelo menos mais um fator de risco, como histórico familiar de diabetes, devem ser rastreados em qualquer idade, e os exames estão disponíveis na rede pública.
Tratamento do diabetes tipo 2
O tratamento funciona em camadas, começando pelas mudanças que a própria pessoa pode fazer e somando medicamentos conforme a necessidade.
A maioria combina estratégias ao longo da vida, e a escolha depende do perfil clínico, do peso, do risco cardiovascular e das metas definidas com o médico.
Mudança de hábitos
Uma perda de 5% a 10% do peso, mais atividade física e mudanças na alimentação podem, por si só, melhorar bastante a sensibilidade à insulina e reduzir a glicemia.
A recomendação geral combina cerca de 150 minutos de atividade aeróbica moderada por semana com exercícios de força, e uma alimentação com menos ultraprocessados e mais fibras ajuda no controle da glicose e na saciedade.
Medicamentos orais
Quando os hábitos não bastam, a metformina costuma ser a primeira medicação.
Ela reduz a glicose produzida pelo fígado e melhora a forma como as células usam o açúcar, é bem tolerada, tem custo acessível e décadas de segurança acumulada.
Outros comprimidos podem ser somados, como os inibidores de SGLT2, que aumentam a eliminação de glicose pela urina, e as sulfonilureias, que estimulam o pâncreas a liberar mais insulina.
Em quem já tem doença cardiovascular, insuficiência cardíaca ou doença renal, as diretrizes indicam priorizar desde cedo remédios com proteção comprovada para esses órgãos, como os inibidores de SGLT2 e os agonistas de GLP-1, independentemente do valor da glicose.
Nesses casos, o remédio entra também para proteger o coração e os rins, além de baixar a glicose.
Agonistas de GLP-1 e outros injetáveis
Os medicamentos da classe GLP-1 imitam um hormônio produzido pelo intestino e fazem o pâncreas liberar insulina só quando a glicose está alta, o que reduz o risco de hipoglicemia.
A semaglutida está registrada no Brasil em diferentes apresentações. Para diabetes tipo 2, além do Ozempic, injetável semanal, e do Rybelsus, em comprimido, hoje existem as versões sintéticas Ozivy, Owozy, Seemasun, Zempneo, Semavy e Orsema, além de genéricos de semaglutida e similares como Semaclique e Yluméc.
Já a tirzepatida, vendida como Mounjaro, atua sobre os receptores de GLP-1 e GIP e tem indicação aprovada para diabetes tipo 2 e para controle crônico do peso.
O Wegovy também é semaglutida, mas sua indicação aprovada é obesidade e sobrepeso com comorbidades, fora do tratamento do diabetes.
A insulina entra quando as outras abordagens não controlam a glicemia. No diabetes tipo 1 ela é essencial desde o diagnóstico, enquanto no tipo 2 costuma chegar mais tarde, em geral combinada com outros remédios, e seu papel é controlar a glicose, com riscos sérios quando usada fora desse contexto, como explica o artigo sobre insulina para emagrecer.
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Benefícios cardiovasculares e renais
Os benefícios desses medicamentos vão além do controle da glicose. No SUSTAIN-6, que acompanhou 3.297 pessoas com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular por cerca de dois anos, a combinação de morte cardiovascular, infarto e AVC ocorreu em 6,6% dos participantes que usaram semaglutida, contra 8,9% no grupo placebo.
O benefício renal foi reforçado mais tarde pelo FLOW, realizado especificamente em pessoas com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. Nesse estudo, a semaglutida reduziu em 24% o risco do desfecho principal, que reunia eventos renais graves e morte por causas cardiovasculares ou renais.
E o risco de retinopatia?
O SUSTAIN-6 também encontrou mais complicações da retinopatia diabética com semaglutida: 3,0% dos participantes, contra 1,8% no placebo. Esse achado merece atenção principalmente em pessoas que já têm retinopatia e reforça a importância do acompanhamento oftalmológico durante o tratamento.
Tirzepatida ou semaglutida: o que mostrou a comparação direta?
O SURPASS-2 comparou diretamente tirzepatida e semaglutida em 1.879 pessoas com diabetes tipo 2 durante 40 semanas. Na dose de 15 mg, a tirzepatida reduziu a hemoglobina glicada em 2,30 pontos percentuais e o peso em 11,2 kg, enquanto a semaglutida de 1 mg reduziu esses valores em 1,86 ponto percentual e 5,7 kg.
Esses números são específicos de pessoas com diabetes tipo 2 e não devem ser confundidos com os estudos de obesidade. Em pessoas sem diabetes, a perda de peso observada com tirzepatida foi maior, como mostramos no artigo sobre quantos quilos o Mounjaro faz perder por semana.
Complicações e por que o controle precoce faz diferença
A glicose alta por muitos anos afeta vários órgãos, e as complicações se dividem entre as de pequenos e as de grandes vasos.
Entre as primeiras estão as dos rins, que atrapalham a filtração e costumam ser silenciosas no início, as da retina, que tornam o exame oftalmológico anual essencial, e as dos nervos, que causam formigamento e dormência nas mãos e nos pés, chamadas em linguagem médica de nefropatia, retinopatia e neuropatia.
As complicações de grandes vasos elevam o risco de infarto, AVC e entupimento das artérias das pernas, e por isso o diabetes tipo 2 é considerado um fator de risco cardiovascular por si só.
Como todas elas se desenvolvem devagar, existe uma janela real de prevenção quando o controle começa cedo.
O acompanhamento de dez anos do estudo UKPDS, publicado em 2008, mostrou que quem teve controle intensivo da glicose logo após o diagnóstico manteve, uma década depois do fim do estudo, 24% menos complicações de pequenos vasos, 15% menos infartos e 13% menos mortes por qualquer causa.
Os pesquisadores chamaram esse efeito de memória metabólica, a ideia de que os anos iniciais de bom controle deixam uma proteção duradoura.
Viver bem com diabetes tipo 2
O diagnóstico de diabetes tipo 2 não precisa significar uma vida mais curta. Um estudo sueco publicado em 2018, com mais de 270 mil pessoas com diabetes tipo 2, mostrou que quem mantinha glicose, pressão, colesterol, função renal e tabagismo dentro das metas tinha risco de morte, infarto e AVC muito próximo ao de pessoas sem diabetes.
O prognóstico melhora muito quando paciente e médico definem metas claras logo depois do diagnóstico. Mudanças de hábito sustentadas, uso regular dos remédios, exames periódicos e o rastreamento ativo das complicações formam a base para conviver bem com a doença por muitos anos.
O que lembrar:
- O diabetes tipo 2 surge da resistência à insulina somada à queda progressiva da produção do hormônio, e é a forma mais comum da doença.
- O Brasil tinha 16,6 milhões de adultos com diabetes em 2024, e cerca de 32% deles não sabiam do diagnóstico.
- O diagnóstico usa glicemia de jejum a partir de 126 mg/dL, hemoglobina glicada a partir de 6,5% ou teste de tolerância à glicose, e o rastreamento começa aos 35 anos.
- O tratamento combina mudança de hábitos, metformina e outros comprimidos, e injetáveis como os agonistas de GLP-1 conforme a necessidade.
- No SUSTAIN-6, a semaglutida reduziu eventos cardiovasculares e renais, mas aumentou as complicações na retina, o que exige acompanhamento oftalmológico.
- O controle da glicose desde o diagnóstico reduz complicações por décadas.
