Sanyal AJ, Newsome PN, et al. Phase 3 Trial of Semaglutide in Metabolic Dysfunction-Associated Steatohepatitis (ESSENCE). N Engl J Med. 2025;392(21):2089-2099. doi:10.1056/NEJMoa2413258

Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Gordura no fígado é o acúmulo de gordura dentro das células do fígado, quase sempre ligado à forma como o corpo lida com a insulina e com o excesso de energia disponível.
A condição é comum. Um levantamento que reuniu dados de mais de nove milhões de pessoas estimou que cerca de 30% da população mundial convive com ela. Na América Latina, que aparece na faixa mais alta do mundo, o número chega perto de 44%.
Quem chega até aqui costuma ter acabado de ler "esteatose hepática grau I" num laudo de ultrassom, sem saber o que fazer com essa informação. O ponto mais útil neste momento é que o grau mede a quantidade de gordura que apareceu na imagem, e não a gravidade da doença.
Quem determina a gravidade são outros exames, simples de pedir e disponíveis em qualquer laboratório.
O que o grau do ultrassom significa, e o que ele não diz
A ultrassonografia estima quanta gordura existe no fígado a partir do brilho que o órgão produz na imagem, e organiza o resultado em três faixas, chamadas de graus I, II e III. Essa escala só responde uma pergunta, deixando outras duas importantes questões sem respostas.
A primeira é se a gordura já provocou inflamação. O exame não separa a esteatose simples, que é gordura sem inflamação, da esteato-hepatite, que é gordura com inflamação e dano nas células.
A segunda é se existe fibrose, o endurecimento progressivo do tecido do fígado que substitui as células danificadas por cicatriz. O ultrassom também não enxerga isso.
Uma pessoa com grau I pode ter fibrose avançada, e outra com grau III pode ter apenas gordura, sem inflamação nenhuma. O grau sozinho não separa os dois casos, e por isso as diretrizes não o usam para definir conduta.
Para estratificar risco, a diretriz da Associação Americana para o Estudo das Doenças do Fígado recomenda começar por um cálculo simples, feito com exames de sangue que a maioria das pessoas já tem em mãos.
Calculando os riscos
Para saber quem corre mais risco, a diretriz da Associação Americana para o Estudo das Doenças do Fígado recomenda começar por uma conta simples, chamada FIB-4.
Ela combina quatro informações que costumam estar em exames de rotina: idade, contagem de plaquetas e as enzimas do fígado AST e ALT. O resultado separa as pessoas em risco baixo, intermediário ou alto de ter fibrose avançada.
Vale um cuidado com a leitura das enzimas hepáticas. Elas podem aparecer dentro da faixa de referência em pessoas com alteração no fígado, e podem estar alteradas por motivos sem relação com gordura hepática.
Um resultado isolado diz pouco, e quem interpreta esses valores é o médico que acompanha o caso.
Por que o fígado acumula gordura
O ponto de partida costuma ser a resistência à insulina. Quando as células respondem menos à insulina, o pâncreas produz mais hormônio para compensar, e esse excesso favorece o transporte de gordura para o fígado e a produção de gordura dentro dele. O órgão recebe mais do que consegue processar, e o excedente fica armazenado.
Esse mecanismo não age isolado. Ele é o mesmo que sustenta a síndrome metabólica, e por isso a esteatose costuma aparecer junto com circunferência abdominal aumentada, triglicérides altos, pressão elevada e glicemia de jejum alterada. A gordura no fígado é a manifestação hepática de um quadro que atinge o corpo inteiro, e por isso o tratamento passa pelo metabolismo.
Existem causas não metabólicas, e o álcool está à frente delas. O consumo acima de determinado limiar produz um quadro hepático próprio, com manejo diferente, e é por isso que o diagnóstico de MASLD depende de verificar o consumo alcoólico antes de fechar a conclusão.
Alguns medicamentos também podem levar ao acúmulo de gordura no fígado. Informar o histórico de bebida e de medicações em uso muda a investigação.
Quando a gordura vira inflamação
A esteatose simples é a etapa inicial e costuma permanecer estável por anos. Em parte das pessoas, porém, a gordura acumulada desencadeia inflamação e dano celular, e o quadro passa a se chamar esteato-hepatite. Essa é a forma que preocupa, porque a inflamação sustentada estimula a produção de tecido cicatricial.
É aqui que aparecem as siglas que circulam em laudos e bulas. Desde 2023, por consenso entre sociedades médicas de vários países, a doença passou a se chamar MASLD, e a forma inflamatória, MASH. Os nomes anteriores eram doença hepática gordurosa não alcoólica e NASH, e ainda aparecem em exames mais antigos.
A fibrose avança em estágios, e nos casos mais graves chega à cirrose, com perda de função hepática e risco de complicações sérias. O percurso costuma levar anos e não acontece com todo mundo, o que reforça o valor de saber em que ponto cada pessoa está.
Entre quem tem obesidade, a esteatose está presente em 75,27% dos casos, e cerca de um terço apresenta a forma inflamatória.
O que reverte o quadro
A esteatose responde bem, e responde a algo que já está no radar de quem convive com excesso de peso. A perda de peso é o tratamento com evidência mais consistente, e o efeito acompanha a magnitude da perda.
Um estudo de um ano mostra essa relação. Entre as pessoas que perderam 10% ou mais do peso corporal, 90% tiveram resolução da esteato-hepatite e 45% apresentaram regressão da fibrose, que é a alteração mais difícil de reverter. Perdas menores também produzem benefício, com melhora da gordura e das enzimas hepáticas, apenas em grau proporcionalmente menor.
A atividade física entra com peso próprio nessa conta. O exercício reduz a gordura hepática mesmo quando o peso na balança se mexe pouco, porque melhora a resposta do corpo à insulina e aumenta o consumo de gordura pelo músculo. O treino de força soma ao trabalho aeróbico e ajuda a preservar massa magra durante a perda de peso.
Reduzir o álcool tem efeito direto e vale mesmo quando o consumo está abaixo do limiar da doença hepática alcoólica. Ajustes alimentares e sono regular completam o conjunto, e nada disso depende de produto ou suplemento.
Quer perder peso com acompanhamento certo?
Wegovy foi aprovado para gordura no fígado: o que isso significa
Desde dezembro de 2025, o Wegovy (semaglutida 2,4 mg) tem indicação aprovada pela Anvisa para tratar MASH que ainda não evoluiu para cirrose. A indicação vale para adultos com fibrose moderada a avançada, o que corresponde aos estágios 2 e 3 de uma escala que vai de 0 a 4.
Foi o primeiro medicamento a receber essa autorização no Brasil, e ela cobre um recorte específico da doença, não qualquer laudo de esteatose.
A aprovação se baseou no estudo chamado ESSENCE, feito com 1.197 participantes, e conduzido na etapa final de testes que antecede a liberação de um medicamento.
Todos tinham MASH confirmada por biópsia, que é a análise de uma amostra de tecido retirada do fígado. Os principais resultados foram:
- Na semana 72, a inflamação havia sido resolvida sem piora da fibrose em 62,9% de quem usou semaglutida, contra 34,3% no grupo que recebeu aplicações sem medicamento.
- A fibrose melhorou em 36,8% deles, contra 22,4%.
O que ainda está sendo medido é se esse ganho se traduz em menos casos graves ao longo do tempo.
A segunda parte do estudo acompanha os participantes por 240 semanas, verificando evolução para cirrose e necessidade de transplante, com resultados previstos para 2029. Mais da metade dos participantes tinha diabetes tipo 2.
Duas ressalvas evitam confusão. A tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, não tem indicação hepática aprovada no Brasil nem nos Estados Unidos, e os estudos com ela nessa condição seguem em etapa intermediária. E há moléculas em desenvolvimento voltadas especificamente para o fígado, como a survodutida, ainda sem registro no país.
O diagnóstico de MASH com fibrose nos estágios 2 e 3 depende de elastografia ou biópsia, com acompanhamento de hepatologista.
O caminho da maioria continua o mesmo
Quem acabou de receber um laudo de esteatose quase nunca está no cenário que a aprovação descreve. O quadro costuma estar numa fase anterior, em que o grau do ultrassom ainda não diz o que precisa ser dito.
O próximo passo é a conta do FIB-4, feita com o médico que acompanha o caso, e é ali que se descobre se existe motivo para preocupação maior.
E o tratamento que a evidência sustenta para essa fase continua sendo o mesmo de sempre. A perda média observada no ESSENCE foi de 10,5%. É a mesma faixa que, no estudo de mudança de estilo de vida citado antes, levou à resolução da inflamação na maior parte dos casos.
São caminhos diferentes chegando ao mesmo lugar, e isso diz algo simples sobre o órgão. O fígado responde quando o peso cai, seja qual for o meio que produziu a perda.
O que lembrar:
- O grau do ultrassom mede a quantidade de gordura na imagem, não o estágio da doença.
- O ultrassom não distingue esteatose simples de esteato-hepatite e não detecta fibrose.
- As diretrizes avaliam o risco pela conta do FIB-4 e, quando indicado, pela elastografia hepática.
- A causa mais comum é metabólica, com a resistência à insulina no centro do processo.
- Álcool e alguns medicamentos são causas não metabólicas e precisam ser informados ao médico.
- Perda de 10% ou mais do peso levou a 90% de resolução da esteato-hepatite e 45% de regressão de fibrose.
- O Wegovy tem indicação aprovada para MASH que ainda não evoluiu para cirrose, com fibrose moderada a avançada, e não para esteatose em geral.


