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Leptina e grelina: os hormônios que controlam fome e saciedade

Os dois hormônios explicam boa parte da fome que aparece depois de uma dieta restritiva ou de uma noite mal dormida. Veja o que a ciência já sabe sobre eles.

Aprovado por:

Dr. Earim Chaudry

Escrito com base em estudos científicos
Atualizado em 23 de setembro de 2026

Resumo rápido:

A leptina é produzida pelas células de gordura e informa ao cérebro quanta energia o corpo tem armazenada, reduzindo o apetite quando as reservas estão adequadas. A grelina vem sobretudo do estômago e faz o caminho oposto, avisando que está na hora de comer. Quando alguém perde peso, essa dupla se desequilibra a favor da fome, com queda da leptina e aumento da grelina, o que ajuda a explicar por que manter o peso costuma ser mais difícil do que perdê-lo. Dormir pouco, passar por longos períodos de restrição alimentar e conviver com estresse crônico também mexem nesses sinais, e cuidar do sono, da rotina e do acompanhamento profissional é o que tem sustentação científica.

Aviso Importante:

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.​​​​‌‍​‍​‍‌‍ ‌​‍‌‍‍‌‌‍‌‌‍‍‌‌‍‍​‍​‍​‍‍​‍​‍‌​‌‍​‌‌‍‍‌‍‍‌‌‌​‌‍‌​‍‍‌‍‍‌‌‍ ​‍​‍​‍​​‍​‍‌‍‍​‌​‍‌‍‌‌‌‍‌‍​‍​‍​‍‍​‍​‍‌‍‍​‌‌​‌‌​‌​​‌​​‍‍​‍​‍ ‌‍‌‌‍​‌‌‍‍‌‌‌‌‍​‌‌‍​​‍‌‌​‌‍​‌‌‍‍‌‍‍‌‌‌​‌‍‌​‍‌‌​‌‌​‌‌‌‌‍‌​‌‍‍

O que é a leptina?

A leptina é um hormônio produzido principalmente pelas células de gordura, os adipócitos. O nome vem do grego leptos, que significa magro, e sua descoberta, publicada na revista Nature em 1994, mudou a forma como a ciência entende o peso corporal, ao mostrar que o tecido gorduroso também funciona como um órgão que envia mensagens.

Essas mensagens chegam ao hipotálamo, região do cérebro que coordena o apetite e o gasto de energia. Quanto maior a quantidade de gordura armazenada, mais leptina circula no sangue, e o cérebro interpreta esse sinal como um aviso de que há energia disponível.

A partir daí, o cérebro reduz a sensação de fome e mantém o gasto de energia em um nível adequado. Quando a leptina cai, acontece o contrário, com aumento do apetite e economia de energia, uma resposta que protegeu nossos antepassados em períodos de escassez.

O que é a grelina?

A grelina é produzida sobretudo pelo estômago e age como o outro lado dessa balança. Seus níveis sobem quando o estômago está vazio e caem depois das refeições, o que explica a fome que aparece perto dos horários habituais de comer.

No cérebro, ela estimula os circuitos que aumentam o apetite. No aparelho digestivo, prepara o corpo para receber comida, estimulando a produção de ácido gástrico e a movimentação do intestino.

A grelina também segue um ritmo ao longo do dia, influenciado pelos horários das refeições e pelo sono. Por isso, mudanças bruscas de rotina costumam vir acompanhadas de alterações na fome.

Por que a fome aumenta quando a gente emagrece?

Essa é uma das perguntas mais frequentes de quem está em tratamento, e a resposta está justamente nesses hormônios. A perda de peso reduz a quantidade de gordura corporal e, com ela, a leptina, enquanto a grelina tende a subir.

Em um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2002, pessoas que perderam peso com dieta apresentaram aumento significativo da grelina, na direção oposta à desejada por quem quer manter o peso.

Quase dez anos depois, outro estudo do mesmo periódico acompanhou participantes durante um ano após uma perda de peso importante e encontrou leptina ainda reduzida e grelina ainda elevada, junto com fome maior do que antes do emagrecimento. As adaptações, portanto, não são passageiras.

Esse conjunto de respostas ajuda a explicar o reganho de peso comum depois de dietas restritivas, tema que aprofundamos no post sobre o efeito sanfona. Também mostra por que atribuir o reganho apenas à força de vontade é uma leitura incompleta.

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O que é resistência à leptina?

Pessoas com obesidade costumam ter níveis altos de leptina no sangue, e não baixos, como se poderia imaginar. Mesmo assim, o efeito de redução do apetite não aparece na intensidade esperada, quadro descrito como resistência à leptina.

A explicação ainda está em estudo. As hipóteses mais aceitas envolvem a dificuldade do hormônio de chegar ao cérebro em quantidade suficiente, alterações na sinalização dentro dos neurônios e a inflamação de baixo grau associada ao excesso de gordura corporal.

Na prática, o cérebro se comporta como se as reservas estivessem baixas, o que mantém a fome elevada e favorece o ganho de peso. Vale dizer que resistência à leptina não é um diagnóstico que se faz com exame de sangue, e sim um conceito usado para explicar o funcionamento do organismo.

O que desregula leptina e grelina?

Noites mal dormidas

O sono curto é um dos fatores mais estudados. Em um experimento publicado em 2004 na Annals of Internal Medicine, homens jovens saudáveis que dormiram cerca de quatro horas por noite tiveram queda de 18% na leptina, aumento de 28% na grelina e mais fome, sobretudo por alimentos calóricos.

O estudo é pequeno e foi feito em condições controladas, mas seus achados combinam com os de uma pesquisa populacional publicada no mesmo ano na PLoS Medicine, que associou noites curtas a leptina mais baixa, grelina mais alta e índice de massa corporal maior. Quem faz tratamento com canetas e dorme mal costuma sentir esse efeito no apetite.

Se quiser saber mais, leia nosso no post sobre Mounjaro e sono.

Restrição alimentar prolongada

Períodos longos de restrição intensa acentuam a queda da leptina e a elevação da grelina, o que aumenta a fome e favorece episódios de compulsão.

É um dos motivos pelos quais dietas muito rígidas costumam funcionar por pouco tempo.

Estresse crônico

O estresse mantido por muito tempo eleva o cortisol, hormônio que influencia o apetite e a distribuição da gordura corporal. A relação com leptina e grelina é menos direta do que a do sono, mas o efeito prático costuma ser mais vontade de comer, principalmente alimentos muito palatáveis.

Onde entram os medicamentos da classe GLP-1?

Semaglutida e tirzepatida não repõem leptina nem bloqueiam a grelina. Elas imitam hormônios liberados pelo intestino depois das refeições, que sinalizam saciedade ao cérebro e deixam o esvaziamento do estômago mais lento.

Na prática, esses medicamentos atuam em um ponto diferente do mesmo sistema, o que ajuda a compensar parte do aumento de fome que aparece com a perda de peso. Esse é um dos motivos pelos quais o tratamento medicamentoso costuma ser mantido a longo prazo.

Mesmo assim, as adaptações do corpo continuam existindo, e é por isso que a perda de peso desacelera com o tempo, fenômeno que explicamos no post sobre o platô no tratamento.

Dá para equilibrar leptina e grelina?

Não existe um método que devolva esses hormônios a um ponto ideal, e desconfie de promessas nesse sentido. O que a ciência mostra é que alguns hábitos ajudam a manter a regulação do apetite mais estável.

Dormir o suficiente e com horários regulares é o ponto com evidência mais consistente, já que a privação de sono altera os dois hormônios em poucos dias. Refeições com proteína e fibras aumentam a saciedade, e a atividade física regular melhora a regulação do apetite e ajuda a preservar a massa muscular.

Evitar restrições extremas também faz diferença, porque elas empurram o corpo para a resposta de escassez. Um plano alimentar sustentável, construído com profissional de saúde, tende a funcionar melhor do que ciclos de dieta rígida, e o mesmo raciocínio vale para quem está em tratamento com canetas.

Idade, sexo e outras variações

Os níveis desses hormônios também mudam por fatores que ninguém controla. Mulheres costumam ter leptina mais alta que homens com a mesma quantidade de gordura, e as concentrações variam ao longo da vida e do ciclo menstrual.

Doenças que afetam o estômago, como a gastrite por Helicobacter pylori, e cirurgias que reduzem o volume gástrico também alteram a produção de grelina. Por isso, comparar exames entre pessoas diferentes diz pouco sobre quem sente mais ou menos fome.

Vale medir leptina e grelina no sangue?

Esses exames existem, mas não fazem parte da avaliação de rotina da obesidade e raramente mudam a conduta. Não há valores de referência que orientem tratamento no dia a dia.

A avaliação médica costuma se apoiar em história clínica, exame físico, peso, circunferência abdominal e exames metabólicos comuns, como glicemia, hemoglobina glicada, perfil lipídico e função da tireoide. Fome constante, ganho de peso rápido ou dificuldade importante para emagrecer merecem consulta, e não autodiagnóstico

O que lembrar:

  • A leptina, produzida pelas células de gordura, avisa ao cérebro que há energia armazenada e reduz o apetite.
  • A grelina, produzida sobretudo no estômago, sobe com o estômago vazio e estimula a fome.
  • Emagrecer reduz a leptina e aumenta a grelina, e essas mudanças podem durar pelo menos um ano.
  • Na obesidade, a leptina costuma estar alta, mas o cérebro responde pouco a ela, o que se chama resistência à leptina.
  • Dormir cerca de quatro horas por noite reduziu a leptina em 18% e aumentou a grelina em 28% em estudo com homens jovens.
  • Não existe exame de rotina nem fórmula para equilibrar esses hormônios, e sono regular, alimentação com proteína e fibras e acompanhamento profissional são o que tem respaldo.

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Perguntas Frequentes

Referências
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Zhang Y, Proenca R, Maffei M, et al. Clonagem posicional do gene murino obese e de seu homólogo humano. Nature, 1994;372(6505):425-432. https://doi.org/10.1038/372425a0

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Cummings DE, Weigle DS, Frayo RS, et al. Elevação dos níveis plasmáticos de grelina após perda de peso induzida por dieta ou cirurgia bariátrica. New England Journal of Medicine, 2002;346(21):1623-1630. https://doi.org/10.1056/NEJMoa012908

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Sumithran P, Prendergast LA, Delbridge E, et al. Persistência a longo prazo das adaptações hormonais à perda de peso. New England Journal of Medicine, 2011;365(17):1597-1604. https://doi.org/10.1056/NEJMoa1105816

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