Nicholls SJ, Bhatt DL, et al.; SURPASS-CVOT Investigators. Desfechos cardiovasculares com tirzepatida versus dulaglutida no diabetes tipo 2. New England Journal of Medicine, 2025;393(24):2409-2420. https://doi.org/10.1056/NEJMoa2505928
Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.O que muda com o passar dos meses
A maior parte das queixas aparece cedo. Enjoo, diarreia, prisão de ventre e dor abdominal são mais frequentes nas primeiras semanas e logo após cada aumento de dose, porque o organismo ainda está se adaptando.
Uma dúvida comum é se o corpo se acostuma e o medicamento para de agir. Não é o que os estudos mostram. O efeito sobre o apetite se mantém, e a desaceleração da perda de peso ao longo dos meses tem outra explicação, ligada à adaptação do organismo ao novo peso.
Com a dose estável, esses sintomas tendem a perder intensidade. Não é regra para todo mundo, e algumas pessoas convivem com desconforto digestivo ao longo do tratamento, o que costuma motivar ajuste de dose.
Um ponto que muda com o tempo é o próprio efeito sobre o estômago. A bula registra que o retardo do esvaziamento gástrico diminui com o uso continuado, o que ajuda a explicar a melhora dos sintomas.
O que mostra o maior estudo de longo prazo
A melhor evidência disponível vem do SURPASS-CVOT, publicado no New England Journal of Medicine em dezembro de 2025. Foram 13.299 adultos com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular, acompanhados por cerca de quatro anos.
O estudo comparou tirzepatida com dulaglutida, outro medicamento da classe já consolidado. O desfecho cardiovascular combinado ocorreu em 12,2% do grupo tirzepatida e em 13,1% do grupo dulaglutida.
Para a pergunta sobre segurança, o dado relevante é que a frequência geral de eventos adversos foi semelhante entre os dois grupos, com mais efeitos gastrointestinais no grupo da tirzepatida. Nenhum risco novo apareceu nesse período.
Faz tratamento com tirzepatida?
Quais pontos seguem em observação
Massa muscular
A perda de peso rápida vem acompanhada de perda de massa magra, e esse é um dos temas mais discutidos no uso prolongado. O impacto a longo prazo sobre força e funcionalidade ainda está sendo estudado, e é por isso que proteína e treino de força entram no acompanhamento, como detalhamos em canetas emagrecedoras e perda de músculo.
Vesícula biliar
Cálculos na vesícula e inflamação da vesícula aparecem entre os eventos relatados com medicamentos dessa classe, e a própria perda de peso acelerada já é fator de risco conhecido para isso. Dor forte no lado direito do abdome, sobretudo depois de refeições gordurosas, merece avaliação.
Pâncreas
A pancreatite aguda é rara e consta nas bulas como precaução. Em uso prolongado, a recomendação prática é a mesma de sempre, com atenção a dor abdominal intensa e persistente, que pede interrupção e avaliação médica.
Tireoide
Estudos em roedores mostraram tumores de células C da tireoide com medicamentos da classe, achado que levou à recomendação de cautela em quem tem histórico pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide. A relevância para humanos é considerada baixa e segue monitorada.
Quem usa há mais tempo precisa mudar a dose?
Não como regra. Depois de atingida a dose de manutenção, muita gente segue nela por meses, e o ajuste acontece quando há efeito colateral persistente, quando o peso estabiliza em um patamar indesejado ou quando o controle da glicemia muda.
Reduzir a dose por conta própria para economizar costuma sair caro, porque a fome volta e o resultado se perde. Se o custo é o problema, vale levar isso à consulta, porque hoje existem mais opções no mercado do que havia há um ano.
A desaceleração da perda de peso ao longo dos meses, por outro lado, é esperada e não significa que a dose precisa subir. Esse fenômeno tem explicação fisiológica, tema do platô no tratamento.
E os alertas recentes, valem para o Mounjaro?
Em 2025, agências reguladoras incluíram a neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica, conhecida como NOIA, entre os efeitos muito raros da semaglutida, depois de estudos epidemiológicos apontarem risco aumentado.
Esse alerta se refere à semaglutida, molécula diferente da tirzepatida, e não foi estendido ao Mounjaro. Ainda assim, perda súbita de visão é motivo para avaliação imediata em qualquer tratamento, assunto que tratamos em semaglutida e risco de NOIA.
O caso serve de lembrete sobre como funciona a farmacovigilância. Medicamentos novos seguem sendo monitorados depois da aprovação, e é assim que efeitos raros aparecem com o tempo.
Quanto tempo de evidência existe
A tirzepatida foi aprovada no Brasil em 2023 para diabetes tipo 2 e em 2025 para obesidade, então o uso em larga escala é recente. Os estudos de registro acompanharam os participantes por 52 a 72 semanas, como o SURMOUNT-1, e o SURPASS-CVOT estendeu esse horizonte para cerca de quatro anos.
Isso é bastante para um medicamento novo e pouco para uma doença crônica. Efeitos que apareçam depois de cinco ou dez anos de uso contínuo ainda não podem ser descartados nem confirmados.
Do outro lado da balança estão os benefícios documentados, com redução de peso, melhora do controle glicêmico, do perfil de pressão e de desfechos cardiovasculares. É essa comparação que o médico faz ao indicar a continuidade. As informações clínicas deste artigo passaram pela revisão médica do Dr. Earim Chaudry.
O que acompanhar em quem usa há mais tempo
Há ainda um ponto prático que aparece no uso longo. Como a caneta reduz bastante o volume das refeições, o risco de ingestão insuficiente de proteína, ferro e vitaminas cresce com o tempo, e isso costuma passar despercebido.
Consultas regulares e exames combinados com o médico seguem valendo, mesmo quando tudo vai bem. Peso e composição corporal, glicemia e hemoglobina glicada, perfil lipídico e função renal costumam estar na lista.
Vale também observar sinais que não entram em exame, como força, disposição, qualidade do sono e comportamento alimentar. Em tratamento longo, é esse conjunto que mostra se o resultado está sendo bom para a saúde, e não só para a balança.
Por que o acompanhamento continua importante quando tudo vai bem
Depois dos primeiros meses, é comum o tratamento entrar numa fase mais estável: os efeitos digestivos diminuem, a dose se mantém e a balança passa a mudar mais devagar. É justamente aí que o acompanhamento pode parecer menos necessário, mas ele continua tendo um papel importante.
Com o tempo, as decisões mudam. Em vez de apenas subir a dose, passa a ser preciso avaliar se ela ainda faz sentido, se a perda de peso está preservando massa muscular, se a alimentação continua adequada e se algum sintoma ou alteração nos exames merece atenção.
E mesmo quando a pessoa se sente bem, alguns pontos não aparecem na balança. Ingestão insuficiente de proteína e micronutrientes, perda de massa muscular, alterações na função renal ou sintomas discretos podem passar despercebidos sem uma revisão periódica.
Por isso, no tratamento de longo prazo, acompanhar não significa procurar problemas o tempo todo. Significa confirmar que o benefício continua maior que o risco e que o plano ainda faz sentido para aquela pessoa.
O que se sabe sobre cada ponto
Efeitos digestivos
Mais intensos no início e após aumentos de dose, com tendência de melhora depois da adaptação.
Segurança cardiovascular
No SURPASS-CVOT, com cerca de 4 anos de acompanhamento, a tirzepatida não foi inferior à dulaglutida no desfecho combinado.
Massa muscular
Perda de massa magra acompanha a perda de peso, e o efeito de longo prazo segue em estudo.
Vesícula biliar
Cálculos e inflamação são relatados na classe e também associados à perda de peso rápida.
Pâncreas
Pancreatite aguda é rara e consta como precaução em bula, com atenção à dor abdominal persistente.
Tempo de evidência
Estudos de registro de 52 a 72 semanas, e dados de segurança de cerca de 4 anos.
O que lembrar:
- Os efeitos digestivos se concentram no início e após aumentos de dose, e tendem a diminuir depois.
- No SURPASS-CVOT, com cerca de 4 anos e 13.299 participantes, não apareceram riscos novos.
- Massa muscular, vesícula biliar e pâncreas seguem como pontos de atenção no uso prolongado.
- O alerta de NOIA se refere à semaglutida, e não foi estendido à tirzepatida.
- A evidência disponível cobre cerca de quatro anos, o que é pouco para uma doença crônica.
- Consultas e exames regulares continuam necessários mesmo quando tudo vai bem.



