Mounjaro e pancreatite: o que se sabe

Entenda o que dizem os estudos clínicos e saiba como emagrecer com segurança.

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Aprovado por:

Time de Saúde Voy

Escrito com base em estudos científicos
Atualizado em 05/02/2026
Aviso Importante:

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde. ​‍

No fim de janeiro de 2026, a Agência Reguladora de Medicamentos do Reino Unido, a MHRA, atualizou as bulas dos medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, incluindo a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.

A mudança reforça o alerta para a pancreatite aguda, um efeito colateral raro, mas potencialmente grave. Pela primeira vez, a bula passou a mencionar de forma explícita relatos muito raros de pancreatite necrosante e casos fatais.

É importante destacar que a pancreatite já constava nas bulas desses medicamentos como um efeito adverso incomum. O que mudou não foi a identificação de um novo risco, e sim a forma como esse alerta passou a ser descrito, com mais detalhamento.

Diante desse tipo de atualização, é natural surgir preocupação. Ainda assim, o foco não deve ser o medo, mas a informação e o acompanhamento médico adequado, que permitem avaliar riscos individuais, reconhecer sinais precoces e usar o medicamento com segurança.

A seguir, explicamos o que esse alerta realmente significa na prática e o que dizem os dados científicos.

O que é pancreatite e por que ela está sendo discutida

De forma simples, a pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão responsável pela produção de insulina e de enzimas que ajudam na digestão.

Quando ocorre na forma aguda, ela costuma aparecer de repente, com dor abdominal intensa (que pode irradiar para as costas), além de náuseas e vômitos. Na maioria dos casos, o quadro melhora com tratamento hospitalar e acompanhamento adequado.

Existe, porém, uma forma mais rara e grave, chamada pancreatite necrosante, em que parte do tecido do pâncreas sofre necrose, ou seja, deixa de funcionar por falta de circulação adequada. É nesse cenário específico que podem ocorrer complicações mais sérias, inclusive risco de morte.

O alerta da MHRA e a repercussão

O alerta emitido pela MHRA, agência reguladora de medicamentos do Reino Unido, veio acompanhado de números que ajudam a colocar o risco em perspectiva.

Entre 2007 e outubro de 2025, o órgão recebeu 1.296 notificações de pancreatite associada ao uso de agonistas de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida. Dentro desse total, 24 casos foram classificados como pancreatite necrosante e 19 evoluíram para óbito. No mesmo período, cerca de 25,4 milhões de caixas desses medicamentos foram dispensadas no Reino Unido.

À primeira vista, esses dados podem assustar. Mas o contexto é essencial para uma leitura responsável. Isso mostra que, embora o risco exista e deva ser levado a sério, ele é considerado raro quando analisado em relação ao volume de uso.

Reconhecer um risco não significa ignorar os benefícios nem gerar pânico, mas reforçar a necessidade de prescrição adequada, acompanhamento médico e atenção aos sinais de alerta.

No Brasil, o tema ganhou visibilidade após a Agência Brasil repercutir o comunicado da MHRA na primeira semana de fevereiro. A notícia levantou dúvidas entre pessoas que já utilizam ou pensam em iniciar o tratamento com as chamadas canetas emagrecedoras, como o Mounjaro e o Ozempic, especialmente sobre segurança e efeitos colaterais.

Como o Mounjaro atua no organismo

O que diferencia o Mounjaro de outros medicamentos da mesma classe é a forma como a tirzepatida age no organismo. Ela atua ao mesmo tempo em dois receptores hormonais, o GLP-1 e o GIP, que são hormônios produzidos naturalmente pelo intestino após as refeições.

Na prática, essa ação dupla ajuda o corpo a liberar insulina quando os níveis de glicose estão elevados, desacelera o esvaziamento do estômago, prolongando a sensação de saciedade, e influencia áreas do cérebro ligadas ao apetite.

Esse conjunto de efeitos explica por que a tirzepatida tem mostrado bons resultados tanto no controle do diabetes quanto na perda de peso.

Mas onde pâncreas entra nessa história?

Os agonistas de GLP-1 estimulam diretamente as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Em estudos com modelos animais, essa estimulação já foi associada a sinais de inflamação pancreática, o que levantou hipóteses sobre uma possível relação com a pancreatite.

Em outras palavras, foram observados casos de pancreatite em pessoas que usavam tirzepatida, o que explica o alerta na bula e o acompanhamento contínuo.

O que dizem os estudos clínicos

Falando em estudos, vamos para o que foi observado até então. Em dezembro de 2024, foi publicada a maior meta-análise disponível sobre tirzepatida e pancreatite, na revista Obesity Science and Practice. O estudo reuniu dados de 17 ensaios clínicos randomizados, com um total de 14.645 participantes.

O resultado foi consistente: o risco de pancreatite confirmada em pessoas que usaram tirzepatida foi semelhante ao observado com placebo, insulina e outros medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1.

A mesma análise mostrou que a tirzepatida está associada a um aumento nos níveis de amilase e lipase, enzimas produzidas pelo pâncreas e frequentemente usadas como marcadores de inflamação pancreática.

Isso chama atenção, mas não significa, por si só, que haja pancreatite. Muitas pessoas apresentam elevação dessas enzimas sem qualquer sintoma e sem desenvolver a doença. Por isso, esse tipo de alteração precisa ser avaliado por um médico, e não interpretado de forma isolada ou como diagnóstico.

Outra meta-análise, publicada na Frontiers in Endocrinology com 9 ensaios e quase 10.000 participantes, chegou a conclusão semelhante, mas identificou um possível aumento no risco de doenças biliares (cálculos e colecistite).

Essa conexão entre vesícula e pâncreas é relevante: cálculos biliares podem migrar e obstruir o ducto pancreático, desencadeando pancreatite secundária.

Os relatos pós-comercialização

Ensaios clínicos controlados são considerados o padrão-ouro para avaliar a segurança e a eficácia de medicamentos. Ainda assim, eles têm limitações, especialmente quando o assunto são eventos raros ou populações muito diversas.

É aí que entram os dados de uso no mundo real, coletados após a aprovação do medicamento. Em 2025, um caso publicado no JCEM Case Reports descreveu um episódio de pancreatite necrosante fulminante e fatal em uma mulher de 64 anos logo após o início do uso de tirzepatida.

Outro relato, divulgado no PubMed Central, apresentou um quadro de pancreatite aguda em um homem de 59 anos que havia trocado recentemente de semaglutida para tirzepatida, sem uma fase adequada de ajuste gradual da dose.

É importante frisar que se trata de casos isolados. Eles não permitem concluir que exista um padrão nem estimar risco populacional. Ainda assim, esses relatos reforçam o ponto central: o acompanhamento médico contínuo é fundamental, tanto no início do tratamento quanto durante ajustes de dose ou troca de medicamentos.

Quem deve ter mais cuidado

Nem todas as pessoas apresentam o mesmo nível de risco ao usar a tirzepatida. Por isso, a avaliação médica individual faz toda a diferença antes e durante o tratamento.

Alguns fatores merecem atenção especial:

  • Histórico de pancreatiteO cuidado depende da causa do episódio anterior. Quando a pancreatite foi causada por cálculos biliares e a vesícula já foi retirada, o risco tende a ser menor. Se esteve relacionada a triglicérides elevados, a tirzepatida pode ajudar a reduzi-los. Já nos casos sem causa definida, a chamada pancreatite idiopática, a recomendação costuma ser de maior cautela.
  • Doenças da vesícula biliarA perda de peso mais rápida pode favorecer a formação de cálculos biliares. Além disso, a tirzepatida pode interferir na motilidade da vesícula, o que reforça a necessidade de acompanhamento, especialmente em quem já tem histórico de problemas biliares.
  • Troca entre medicamentos da classe GLP-1A transição de um agonista de GLP-1 para outro deve seguir protocolos de titulação gradual. Mudanças feitas de forma abrupta, sem ajuste adequado de dose, podem aumentar o risco de efeitos adversos, como sugerem relatos clínicos.

Sintomas de alerta e o que fazer

Identificar uma pancreatite aguda logo no início nem sempre é simples. E esse é justamente o desafio. Os primeiros sintomas, como dor abdominal, náuseas e vômitos, podem se parecer com os efeitos gastrointestinais comuns do próprio medicamento.

A diferença está na intensidade e na evolução do quadro. Uma dor abdominal forte, que não melhora com o tempo, irradia para as costas e vem acompanhada de vômitos repetidos, não deve ser considerada normal em nenhum cenário.

As agências reguladoras são claras sobre a conduta: diante de suspeita de pancreatite, é preciso procurar ajuda médica imediatamente e o medicamento deve ser suspenso. Se o diagnóstico for confirmado, o tratamento não deve ser reiniciado.

Por que a bula brasileira ainda não foi atualizada?

A falta de atualização imediata na bula brasileira não indica omissão ou aumento de risco. No Brasil, a Anvisa segue processos próprios de avaliação, que envolvem análise técnica dos dados e podem levar mais tempo do que em outros países.

Além disso, a pancreatite já aparece na bula do Mounjaro como reação adversa incomum. O alerta da MHRA não descreve um risco novo, mas detalha um evento já conhecido, o que ajuda a explicar por que a atualização não ocorre automaticamente em todos os países.

Na prática, a segurança do uso está ligada ao acompanhamento médico e à vigilância contínua, e não apenas ao texto da bula.

Acompanhamento médico: o jeito certo de se cuidar

Nenhuma bula substitui a orientação médica individual. Em tratamentos como o da tirzepatida, o acompanhamento profissional faz parte do próprio cuidado, especialmente porque os efeitos adversos, embora raros, podem ser graves.

Antes de iniciar o medicamento, o médico avalia fatores de risco como histórico de pancreatite, problemas na vesícula, uso de álcool e outras condições que podem aumentar a vulnerabilidade. Depois do início, o acompanhamento ajuda a identificar sinais precoces, interpretar exames e ajustar a dose de forma segura.

A titulação gradual é essencial. Pular etapas ou trocar medicamentos sem orientação aumenta o risco de efeitos adversos e complicações. Além disso, o acompanhamento garante que o paciente saiba reconhecer sintomas de alerta e buscar ajuda rapidamente, o que faz diferença em quadros como pancreatite aguda.

Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.

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Perguntas Frequentes

Referências
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Kamrul-Hasan ABM, et al. "Pancreatic Safety of Tirzepatide and Its Effects on Islet Cell Function: A Systematic Review and Meta-Analysis." Obesity Science and Practicescribble-underline, 2024;10(6):e70032. PubMed

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Zeng Q, et al. "Safety issues of tirzepatide (pancreatitis and gallbladder or biliary disease) in type 2 diabetes and obesity: a systematic review and meta-analysis." Frontiers in Endocrinologyscribble-underline, 2023;14:1214334. Frontiers

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MHRA. "GLP-1 receptor agonists and dual GLP-1/GIP receptor agonists: strengthened warnings on acute pancreatitis, including necrotising and fatal cases." Drug Safety Update, 29 jan 2026. GOV.UK

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MHRA. "MHRA updates guidance for GLP-1 prescribers and patients." 29 jan 2026. GOV.UK

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"Fatal, Fulminant, Necrotizing Pancreatitis Associated With Recent Tirzepatide Initiation." JCEM Case Reportsscribble-underline, 2025;3(6):luaf087. Oxford Academic

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"Acute Pancreatitis Caused by Tirzepatide." Cureusscribble-underline, 2025. PMC

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"Anvisa aprova uso do medicamento Mounjaro para perda de peso." Agência Brasilscribble-underline, 9 jun 2025. Link

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"Reino Unido alerta para pancreatite associada a canetas emagrecedoras." Agência Brasilscribble-underline, fev 2026. Link