
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
No fim de janeiro de 2026, a Agência Reguladora de Medicamentos do Reino Unido, a MHRA, atualizou as bulas dos medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, como Mounjaro, Wegovy e Ozempic.
A mudança reforça o alerta para a pancreatite aguda, um efeito colateral raro, mas potencialmente grave. Pela primeira vez, a bula passou a mencionar de forma explícita relatos muito raros de pancreatite necrosante que levaram a casos fatais.
É importante destacar que a pancreatite já constava nas bulas desses medicamentos como um efeito adverso incomum. O que mudou não foi a identificação de um novo risco, e sim a forma como esse alerta passou a ser descrito, com mais detalhamento.
Diante desse tipo de atualização, é natural surgir preocupação. Ainda assim, o foco não deve ser o medo, mas a informação e o acompanhamento médico adequado, que permitem avaliar riscos individuais, reconhecer sinais precoces e usar o medicamento com segurança.
A seguir, explicamos o que esse alerta realmente significa na prática e o que dizem os dados científicos.
O que é pancreatite e por que ela está sendo discutida
De forma simples, a pancreatite é uma inflamação do pâncreas, órgão responsável pela produção de insulina e de enzimas que ajudam na digestão.
Quando ocorre na forma aguda, ela costuma aparecer de repente, com dor abdominal intensa (que pode irradiar para as costas), além de náuseas e vômitos. Na maioria dos casos, o quadro melhora com tratamento hospitalar e acompanhamento adequado.
Existe, porém, uma forma mais rara e grave, chamada pancreatite necrosante, em que parte do tecido do pâncreas sofre necrose, ou seja, deixa de funcionar por falta de circulação adequada. É nesse cenário específico que podem ocorrer complicações mais sérias, inclusive risco de morte.
O alerta do Reino Unido e a repercussão
O alerta emitido pela MHRA, agência reguladora de medicamentos do Reino Unido, veio acompanhado de números que ajudam a colocar o risco em perspectiva.
Entre 2007 e outubro de 2025, o órgão recebeu 1.296 notificações de pancreatite associada ao uso de agonistas de GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida.
Dentro desse total, 24 casos foram classificados como pancreatite necrosante e 19 evoluíram para óbito. No mesmo período, cerca de 25,4 milhões de caixas desses medicamentos foram dispensadas no Reino Unido.
À primeira vista, esses dados podem assustar. Mas o contexto é essencial para uma leitura responsável. Isso mostra que, embora o risco exista e deva ser levado a sério, ele é considerado raro quando analisado em relação ao volume de uso.
Reconhecer um risco não significa ignorar os benefícios nem gerar pânico, mas reforçar a necessidade de prescrição adequada, acompanhamento médico e atenção aos sinais de alerta.
No Brasil, o tema ganhou visibilidade após a Agência Brasil repercutir o comunicado da MHRA na primeira semana de fevereiro. A notícia levantou dúvidas entre pessoas que já utilizam ou pensam em iniciar o tratamento com as chamadas canetas emagrecedoras, como o Mounjaro e o Ozempic, especialmente sobre segurança e efeitos colaterais.
Afinal, por que existe essa suspeita?
Os medicamentos da classe GLP-1, incluindo tirzepatida, semaglutida (Wegovy e Ozempic), atuam estimulando receptores do hormônio GLP-1. No caso da tirzepatida, há ação dupla nos receptores GLP-1 e GIP.
Essa estimulação aumenta a liberação de insulina, desacelera o esvaziamento gástrico e influencia centros cerebrais ligados à saciedade.
O estímulo direto ao pâncreas levantou, ainda nos primeiros estudos, uma hipótese teórica: poderia haver aumento do risco de inflamação pancreática?
- Em modelos animais, observou-se inflamação pancreática em contextos específicos.
- Em humanos, chamou atenção a elevação de enzimas pancreáticas (amilase e lipase).
Essas enzimas são usadas como marcadores de inflamação pancreática, mas isoladamente não confirmam pancreatite clínica. O diagnóstico exige pelo menos dois critérios entre três: dor abdominal típica, enzimas elevadas acima de três vezes o limite normal e achados compatíveis em exames de imagem.
O que dizem os estudos clínicos
- Tirzepatida (Mounjaro)
Em dezembro de 2024, foi publicada a maior meta-análise disponível sobre tirzepatida e pancreatite, na revista Obesity Science and Practice. O estudo reuniu dados de 17 ensaios clínicos randomizados, com um total de 14.645 participantes.
O resultado foi consistente: o risco de pancreatite confirmada em pessoas que usaram tirzepatida foi semelhante ao observado com placebo, insulina e outros medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1.
A mesma análise mostrou que a tirzepatida está associada a um aumento nos níveis de amilase e lipase, enzimas produzidas pelo pâncreas e frequentemente usadas como marcadores de inflamação pancreática.
Isso chama atenção, mas não significa, por si só, que haja pancreatite. Muitas pessoas apresentam elevação dessas enzimas sem qualquer sintoma e sem desenvolver a doença. Por isso, esse tipo de alteração precisa ser avaliado por um médico, e não interpretado de forma isolada ou como diagnóstico.
Outra meta-análise, publicada na Frontiers in Endocrinology com 9 ensaios e quase 10.000 participantes, chegou a conclusão semelhante, mas identificou um possível aumento no risco de doenças biliares (cálculos e colecistite).
Essa conexão entre vesícula e pâncreas é relevante: cálculos biliares podem migrar e obstruir o ducto pancreático, desencadeando pancreatite secundária.
- Semaglutida (Wegovy e Ozempic)
Em 2024, uma das análises mais completas já feitas sobre semaglutida e pancreatite foi publicada na revista Endocrinología, Diabetes y Nutrición. Foram reunidos 21 estudos clínicos, com mais de 34 mil pessoas, comparando quem usou o medicamento com quem usou placebo (ou seja, não tomou o remédio de verdade).
A conclusão foi: não houve aumento comprovado do risco de pancreatite em quem usou semaglutida (Wegovy ao Ozempic). Apesar disso, a pancreatite continua listada como evento adverso raro, o que significa que casos isolados podem ocorrer na prática clínica, embora sejam extremamente incomuns. Por isso, médicos recomendam atenção a sintomas sugestivos, principalmente em pessoas com histórico da doença ou fatores de risco.
Relatos pós-comercialização
Ensaios clínicos controlados são considerados o padrão-ouro para avaliar a segurança e a eficácia de medicamentos. Ainda assim, eles têm limitações, especialmente quando o assunto são eventos raros ou populações muito diversas.
É aí que entram os dados de uso no mundo real, coletados após a aprovação do medicamento.
- Tizerpatida (Mounjaro)
Em 2025, um caso publicado no JCEM Case Reports descreveu um episódio de pancreatite necrosante fulminante e fatal em uma mulher de 64 anos logo após o início do uso de tirzepatida.
Outro relato, divulgado no PubMed Central, apresentou um quadro de pancreatite aguda em um homem de 59 anos que havia trocado recentemente de semaglutida para tirzepatida, sem uma fase adequada de ajuste gradual da dose.
- Semaglutida (Wegovy e Ozempic)
Em 2024, um relato publicado no Cureus descreveu um caso fatal de pancreatite aguda em um paciente que utilizava semaglutida havia quatro anos. O episódio ocorreu após um aumento recente de dose. Outras causas comuns foram investigadas e descartadas.
É importante frisar que se trata de casos isolados. Eles não permitem concluir que exista um padrão nem estimar risco populacional. Ainda assim, esses relatos reforçam o ponto central: o acompanhamento médico contínuo é fundamental, tanto no início do tratamento quanto durante ajustes de dose ou troca de medicamentos.
Quem precisa de atenção redobrada
Nem todas as pessoas apresentam o mesmo nível de risco ao usar a tirzepatida. Por isso, a avaliação médica individual faz toda a diferença antes e durante o tratamento.
Alguns fatores merecem atenção especial:
- Histórico de pancreatite
O cuidado depende da causa do episódio anterior. Quando a pancreatite foi causada por cálculos biliares e a vesícula já foi retirada, o risco tende a ser menor. Se esteve relacionada a triglicérides elevados, a tirzepatida pode ajudar a reduzi-los. Já nos casos sem causa definida, a chamada pancreatite idiopática, a recomendação costuma ser de maior cautela. - Doenças da vesícula biliar
A perda de peso mais rápida pode favorecer a formação de cálculos biliares. Além disso, a tirzepatida pode interferir na motilidade da vesícula, o que reforça a necessidade de acompanhamento, especialmente em quem já tem histórico de problemas biliares. - Troca entre medicamentos da classe GLP-1
A transição de um agonista de GLP-1 para outro deve seguir protocolos de titulação gradual. Mudanças feitas de forma abrupta, sem ajuste adequado de dose, podem aumentar o risco de efeitos adversos, como sugerem relatos clínicos.
Sintomas de alerta e o que fazer
Identificar uma pancreatite aguda logo no início nem sempre é simples. E esse é justamente o desafio. Os primeiros sintomas, como dor abdominal, náuseas e vômitos, podem se parecer com os efeitos gastrointestinais comuns do próprio medicamento.
A diferença está na intensidade e na evolução do quadro. Uma dor abdominal forte, que não melhora com o tempo, irradia para as costas e vem acompanhada de vômitos repetidos, não deve ser considerada normal em nenhum cenário.
As agências reguladoras são claras sobre a conduta: diante de suspeita de pancreatite, é preciso procurar ajuda médica imediatamente e o medicamento deve ser suspenso. Se o diagnóstico for confirmado, o tratamento não deve ser reiniciado.
Por que a bula brasileira ainda não foi atualizada?
A falta de atualização imediata na bula brasileira não indica omissão ou aumento de risco. No Brasil, a Anvisa segue processos próprios de avaliação, que envolvem análise técnica dos dados e podem levar mais tempo do que em outros países.
Além disso, a pancreatite já aparece na bula dos medicamentos GLP-1 como reação adversa incomum. O alerta da MHRA não descreve um risco novo, mas detalha um evento já conhecido, o que ajuda a explicar por que a atualização não ocorre automaticamente em todos os países.
Na prática, a segurança do uso está ligada ao acompanhamento médico e à vigilância contínua, e não apenas ao texto da bula.
Acompanhamento médico: o jeito certo de se cuidar
Nenhuma bula substitui a orientação médica individual. Em tratamentos com as chamadas canetas emagrecedoras, o acompanhamento profissional faz parte do próprio cuidado, especialmente porque os efeitos adversos, embora raros, podem ser graves.
Antes de iniciar o medicamento, o médico avalia fatores de risco como histórico de pancreatite, problemas na vesícula, uso de álcool e outras condições que podem aumentar a vulnerabilidade. Depois do início, o acompanhamento ajuda a identificar sinais precoces, interpretar exames e ajustar a dose de forma segura.
A titulação gradual é essencial. Pular etapas ou trocar medicamentos sem orientação aumenta o risco de efeitos adversos e complicações. Além disso, o acompanhamento garante que o paciente saiba reconhecer sintomas de alerta e buscar ajuda rapidamente, o que faz diferença em quadros como pancreatite aguda.
Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.




