
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Nem todo efeito colateral aparece no primeiro dia. Às vezes, você já percebeu redução do apetite, talvez até perda de peso, e só depois nota outra mudança mais silenciosa: o intestino desacelerou. Menos evacuações, sensação de peso abdominal, desconforto persistente.
Se isso aconteceu com você durante o uso do Mounjaro, saiba que não é incomum. A constipação é um dos efeitos gastrointestinais associados à tirzepatida, princípio ativo do medicamento.
Compreender o mecanismo fisiológico por trás do sintoma ajuda não apenas a reduzir a ansiedade, mas também a conduzir o manejo de forma mais segura e eficaz.
Segue que a gente te explica.
O que o Mounjaro faz no seu sistema digestivo
Para entender a constipação, primeiro é preciso relembrar como a tirzepatida funciona no corpo.
O Mounjaro contém tirzepatida, uma molécula com ação dupla que ativa simultaneamente dois receptores hormonais, o do GLP-1 e o do GIP, também chamado de polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose. Essa característica diferencia a tirzepatida de medicamentos como a semaglutida, que atua apenas no receptor de GLP-1.
Quando esses receptores são ativados, o organismo responde de várias maneiras. A fome diminui, a saciedade aumenta e o esvaziamento gástrico se torna mais lento.
Isso significa que o alimento permanece mais tempo no estômago antes de seguir para o intestino. Essa desaceleração é intencional e faz parte do mecanismo terapêutico que contribui para o controle glicêmico e a perda de peso.
O efeito, porém, não se restringe ao estômago. Receptores de GLP-1 estão distribuídos ao longo de todo o trato gastrointestinal, do intestino delgado ao cólon. Quando ativados pela tirzepatida, a motilidade intestinal global diminui. O trânsito se torna mais lento, ocorre maior reabsorção de água nas fezes e o resultado pode ser a constipação.
Por que o Mounjaro pode prender o intestino
Em termos simples, o intestino faz movimentos automáticos, como pequenas ondas, que empurram as fezes até a saída.
O Mounjaro pode diminuir esses movimentos. Quando o intestino trabalha mais devagar, as fezes ficam mais tempo lá dentro. Nesse período, o corpo retira mais água delas, deixando-as mais secas e difíceis de eliminar.
Veja o que pode causar a constipação:
Comer menos
A redução do apetite leva naturalmente a menor ingestão alimentar. Menos volume significa menos fibras e menor estímulo mecânico para o intestino funcionar adequadamente.
Beber menos água
Náuseas são relativamente comuns no início do tratamento. Isso pode diminuir a ingestão de líquidos sem que a pessoa perceba. Com menos hidratação, as fezes ficam mais ressecadas.
Mudanças abruptas na dieta
Reduções drásticas de porção ou o hábito de pular refeições alteram o ritmo digestivo habitual do organismo. O intestino também precisa de regularidade.
Portanto, a constipação associada ao Mounjaro raramente é consequência exclusiva da ação direta do medicamento. Trata-se da combinação entre efeito farmacológico e mudanças comportamentais simultâneas.
O que os estudos mostram
No ensaio clínico SURMOUNT-1, que avaliou a tirzepatida em 2.539 adultos com obesidade (sem diabetes), a constipação foi reportada por 11,7% a 17,1% dos participantes, dependendo da dose, contra cerca de 5% no grupo placebo. Nos estudos com foco em diabetes tipo 2 (programa SURPASS), as taxas foram menores, entre 6% e 7%.
Já no SURMOUNT-4, que incluiu uma fase aberta de 36 semanas, a constipação atingiu 20,7% dos participantes.
Os efeitos gastrointestinais foram, em sua maioria, leves a moderados e ocorreram predominantemente durante o período de escalonamento da dose.
Uma análise post-hoc dos ensaios SURMOUNT-1 a 4, publicada em 2025, investigou se esses efeitos contribuíam para a perda de peso e concluiu que a contribuição era mínima: pacientes que não tiveram náusea, vômito ou diarreia perderam peso de forma muito semelhante aos que tiveram.
Um dado que vale destacar: quando comparada diretamente com a semaglutida no ensaio SURMOUNT-5, a tirzepatida gerou maior perda de peso (20,2% vs 13,7% em 72 semanas), com perfil de efeitos gastrointestinais semelhante entre os dois medicamentos. As descontinuações por eventos adversos foram, inclusive, mais frequentes no grupo que usou semaglutida.
Como aliviar o intestino preso durante o tratamento
Saber que o sintoma é possível não significa ignorá-lo. O manejo adequado reduz desconforto e melhora adesão ao tratamento.
A abordagem é gradual e deve sempre envolver orientação médica.
O primeiro passo costuma ser comportamental. Aumentar o consumo de fibras por meio de vegetais, frutas com casca e grãos integrais, manter hidratação adequada ao longo do dia e incluir atividade física regular, mesmo que leve, são medidas com impacto real. Embora pareçam simples, frequentemente resolvem o quadro.
Se não houver melhora suficiente, o médico pode considerar laxantes osmóticos ou outras intervenções farmacológicas. A automedicação não é recomendada, pois laxantes estimulantes usados sem critério podem mascarar sinais importantes ou causar dependência intestinal.
Caso a constipação persista, pode ser necessário ajustar o ritmo do escalonamento ou reavaliar a dose. Vale reforçar que o escalonamento gradual, começando com a menor dose e aumentando a cada quatro semanas, existe justamente para minimizar sintomas digestivos. Acelerar esse processo aumenta o risco de efeitos adversos.
Sinais de alerta: quando procurar o médico
Constipação leve que melhora com ajustes de estilo de vida pode fazer parte da adaptação inicial. No entanto, alguns sinais exigem avaliação médica imediata:
- Dor abdominal intensa ou persistente
- Distensão abdominal importante, com abdome rígido
- Vômitos recorrentes
- Ausência total de evacuação por vários dias associada à dor
Pessoas com histórico de gastroparesia ou doença gastrointestinal grave exigem avaliação criteriosa antes do início do tratamento, conforme orientações presentes na bula aprovada pela Anvisa.
A bula do Mounjaro alerta para a possibilidade de obstrução intestinal como um evento raro, porém grave. Ou seja: embora incomum, o reconhecimento precoce é fundamental.
Mitos e verdades sobre Mounjaro e o intestino
Se o intestino prendeu, é sinal de que o Mounjaro está funcionando
Não. Esse é um mito comum nas redes sociais. A análise dos ensaios SURMOUNT demonstrou que a perda de peso foi semelhante entre pacientes com e sem efeitos gastrointestinais. A constipação é um efeito colateral do mecanismo de ação, não um indicador de maior eficácia.
Mounjaro prende mais o intestino que Wegovy
Depende do estudo analisado. No SURMOUNT-1, a constipação variou de 11,7% a 17,1%. Nos ensaios STEP com semaglutida, as taxas ficaram próximas de 24%. No SURMOUNT-5, o perfil gastrointestinal foi semelhante entre os dois medicamentos. A resposta individual pode variar.
É só tomar laxante por conta própria
Nem sempre é a melhor estratégia. Laxantes estimulantes usados sem orientação podem causar dependência intestinal e mascarar sintomas relevantes. O manejo inicial deve priorizar fibras, hidratação e atividade física, com avaliação médica antes de introduzir qualquer medicamento adicional.
Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.




