
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Em dezembro de 2024, as discussões sobre a “quebra da patente do Ozempic” passou a aparecer com frequência nas notícias.
Isso aconteceu depois que o Superior Tribunal de Justiça negou, por unanimidade, o pedido da Novo Nordisk para manter a exclusividade sobre a fabricação da semaglutida, o princípio ativo do medicamento.
Mas o que exatamente está em jogo quando se fala em patente? E, principalmente, o que essa decisão muda para quem usa – ou pode precisar usar – o Ozempic?
Adiantando o texto, o fato é: a exclusividade da Novo Nordisk sobre a semaglutida termina em março de 2026. Isso significa que, a partir dessa data, outras empresas podem solicitar autorização para lançar versões genéricas ou similares no mercado brasileiro, o que abre a possibilidade de preços mais acessíveis no futuro.
Mas atenção: e esse “mas” é importante. O fim da patente não significa que esses medicamentos vão surgir automaticamente nas prateleiras no dia seguinte.
Segue que a gente te explica tudo.
O que é a patente do Ozempic?
Quando falamos em "patente do Ozempic", estamos tecnicamente falando da patente da semaglutida. É o nome químico do princípio ativo presente no Ozempic (desenvolvido originalmente para diabetes); no Wegovy (desenvolvido para obesidade); e no Rybelsus (versão oral da semaglutida).
Uma patente farmacêutica é um direito temporário. Funciona assim: a empresa que desenvolveu a molécula tem exclusividade para fabricá-la e vendê-la por um período determinado. No Brasil, esse prazo é de 20 anos contados a partir do pedido: não da aprovação.
A Novo Nordisk depositou o pedido de patente da semaglutida em 2006. Foram 13 anos até a concessão oficial em 2019. E é exatamente esse atraso que gerou a disputa judicial recente.
A tentativa de extensão da patente
A farmacêutica dinamarquesa argumentou que esses 13 anos de espera "consumiram" parte do tempo em que deveria ter exclusividade sobre a tecnologia. Pediu uma compensação que, na prática, estenderia a proteção por vários anos além de 2026.
A lógica por trás desse pedido é conhecida na indústria farmacêutica. Desenvolver um medicamento exige investimentos bilionários, anos (às vezes décadas) de estudos clínicos, testes de segurança, comprovação de eficácia e aprovação regulatória.
A patente funciona como uma espécie de troca: a empresa investe alto em pesquisa e, em contrapartida, recebe um período limitado de exclusividade para explorar aquela tecnologia.
O Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) e o judiciário brasileiro foram claros: não houve culpa intencional no atraso da análise. Mais importante: a lei brasileira estabelece um prazo máximo de 20 anos, sem possibilidade de extensão ou prorrogação.
Em 2021, o Supremo Tribunal Federal já havia declarado inconstitucional um artigo que permitia extensões automáticas de patentes. A decisão do STJ em dezembro de 2024 manteve essa linha.
Em termos práticos, isso significa uma coisa: março de 2026 é o limite.
O que acontece quando a patente expira?
Quando expira, a "receita" entra em domínio público (com algumas proteções de marca, claro). Ou seja, a partir de março de 2026, qualquer laboratório farmacêutico poderá produzir medicamentos contendo semaglutida.
Mas não com o nome "Ozempic", essa marca continua pertencendo à Novo Nordisk. Os genéricos serão vendidos simplesmente como "semaglutida" (mais o nome do laboratório, geralmente).
Empresas já estão se preparando
A empresas brasileiras não estão esperando sentadas. A EMS, por exemplo, inaugurou em 2024 a primeira fábrica do Brasil especializada em medicamentos peptídicos – justamente a categoria da semaglutida. Eles já lançaram produtos com liraglutida (um GLP-1 mais antigo) e estão desenvolvendo sua versão de semaglutida.
A Biomm anunciou parceria com a Biocon, da Índia. A Cimed declarou que pretende lançar suas "canetinhas amarelas" logo após a queda da patente. A Prati-Donaduzzi está importando matéria-prima da Ásia e dispositivos de aplicação da Europa.
Mas aqui está o detalhe crucial: primeiro, as essas empresas precisam da aprovação da Anvisa para comercializar no Brasil, ou seja, não é um processo automático.
Genérico, similar ou biossimilar?
A semaglutida é uma molécula complexa, produzida por biotecnologia. Isso traz implicações importantes para as versões pós-patente.
Os medicamentos genéricos “tradicionais” são cópias exatas de moléculas químicas simples. Mas no caso de medicamentos biológicos, como a semaglutida, não existe cópia idêntica em nível molecular.
Por isso, essas versões são chamadas de biossimilares: extremamente parecidas com o medicamento original, com o mesmo efeito clínico esperado, mas não totalmente idênticas na estrutura.
Isso não significa menos eficácia ou segurança. Para que um biossimilar seja aprovado, a Anvisa exige um conjunto rigoroso de estudos que comprovem equivalência em termos de ação no organismo, segurança e eficácia.
Em outras palavras, é preciso demonstrar que o medicamento se comporta da mesma forma no corpo, mesmo não sendo uma “cópia perfeita” da molécula original.
Esses testes levam tempo, e é justamente por isso que as versões genéricas, similares ou biossimilares não devem chegar às farmácias imediatamente em março de 2026, mesmo com o fim da patente.
O original sai do mercado?
Não. A Novo Nordisk continuará produzindo e vendendo o Ozempic, Wegovy e Rybelsus. Muitos pacientes preferem medicamentos de marca por confiança, experiência prévia ou simplesmente por já estarem acostumados. Isso é completamente normal e legítimo.
O que muda é que haverá opções. E, na consulta com seu médico, você poderá escolher entre a versão original de marca ou versões genéricas mais acessíveis.
Os genéricos serão seguros?
Sim, desde que aprovados pela Anvisa. A agência reguladora brasileira tem padrões rigorosos. Qualquer medicamento genérico ou similar de semaglutida precisará demonstrar:
- Mesma qualidade do produto de referência
- Mesma segurança e eficácia
- Bioequivalência comprovada em estudos
- Condições adequadas de fabricação
Não é um processo rápido ou fácil. E isso é bom. Significa que quando um genérico chegar ao mercado com o selo da Anvisa, você pode confiar que passou por testes rigorosos.
Panorama global: e em outros países?
A situação da patente varia bastante pelo mundo.
- Nos Estados Unidos, a exclusividade deve durar até 2031 ou 2032. A Novo Nordisk chegou a acordos confidenciais com vários fabricantes de genéricos (Mylan, Dr. Reddy's, Apotex, Sun Pharma) que provavelmente estabelecem datas de entrada no mercado dentro dessa janela.
- No Canadá, aconteceu algo inusitado. A Novo Nordisk perdeu a patente em 2026 por não pagar taxas de manutenção: um erro administrativo que custou bilhões. A empresa confirmou que não foi um engano, mas uma "decisão cuidadosamente considerada em nível global". Interpretações variam sobre o que isso significa.
- Na China, onde a patente também expira em 2026, mais de 15 empresas farmacêuticas já estão desenvolvendo genéricos. Algumas estão em fase final de testes clínicos. O mercado chinês é enorme, e a entrada de genéricos lá pode impactar preços globais de matéria-prima.
- Na Índia, gigantes farmacêuticos como Dr. Reddy's, Cipla e Biocon estão bem avançadas no desenvolvimento. A Biocon, inclusive, já recebeu aprovação no Reino Unido para seu genérico de liraglutida (um GLP-1 mais antigo) e está preparando sua versão de semaglutida para vários mercados, incluindo o Brasil através da parceria com a Biomm.
- Na Europa e Japão, as patentes seguem até 2031.
Resumindo: o que muda, na prática
O fim da patente da semaglutida em março de 2026 é um marco importante, mas não uma virada imediata. Ele abre a porta para que outras empresas entrem no mercado, aumenta a concorrência e cria a possibilidade de preços mais acessíveis ao longo do tempo, não da noite para o dia.
Até lá, seguem valendo as mesmas regras: uso com prescrição médica, acompanhamento profissional e atenção à qualidade, à segurança e à procedência do medicamento.
A entrada de versões genéricas, similares ou biossimilares depende de estudos rigorosos, aprovação da Anvisa e tempo de adaptação do mercado.
Para quem usa ou pretende usar a semaglutida, a melhor estratégia continua sendo informação de qualidade e acompanhamento médico: antes, durante e depois de qualquer tratamento.
Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.




