Tian H, et al. Suplementação de picolinato de cromo para adultos com sobrepeso ou obesidade. Cochrane Database of Systematic Reviews, 2013, CD010063. https://doi.org/10.1002/14651858.CD010063.pub2
O que é o picolinato de cromo
Quem procura um empurrão para emagrecer costuma encontrar o picolinato de cromo nas prateleiras de suplementos, sozinho ou misturado a fibras e extratos vegetais em fórmulas como o Spirotril. A promessa é quase sempre a mesma, de controlar a vontade de doce e ajudar o corpo a usar melhor o açúcar, e a pergunta que fica é quanto disso se confirma nos estudos.
O cromo é um mineral presente em pequenas quantidades em alimentos como carnes, grãos integrais, brócolis e oleaginosas. O picolinato é apenas a forma em que ele aparece no suplemento, ligado a uma molécula que facilita a absorção. A fama vem da ideia de que o cromo ajudaria a insulina, o hormônio que coloca a glicose para dentro das células, a funcionar melhor.
Essa ideia, porém, é menos sólida do que o marketing faz parecer. Ao revisar as evidências, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos concluiu que nem o papel essencial do cromo no organismo está estabelecido, e por isso não definiu uma necessidade diária do mineral para a população.
Na prática, não há relato de deficiência de cromo em pessoas saudáveis. Os poucos casos descritos envolviam pacientes que passaram longos períodos recebendo nutrição apenas pela veia, e mesmo esses hoje são questionados pelos pesquisadores, uma situação muito distante da de quem quer perder alguns quilos.
O que os estudos mostram sobre o peso
A análise mais rigorosa sobre o tema é uma revisão da Cochrane, organização internacional especializada em reunir ensaios clínicos. Ela juntou nove estudos com 622 adultos com sobrepeso ou obesidade e encontrou, após 12 a 16 semanas, perda média de 1,1 kg a mais com o picolinato de cromo do que com placebo.
Os autores, no entanto, classificaram a qualidade da evidência como baixa e a relevância clínica do resultado como discutível. Outras duas meta-análises chegaram a números parecidos ou menores, com diferença de 0,5 kg em uma revisão publicada na Obesity Reviews e de 0,75 kg em uma análise de 21 ensaios publicada na Clinical Obesity, que também encontrou redução de 0,68 ponto percentual na gordura corporal.
Para dar uma ideia de escala, uma pessoa de 100 kg que usasse o suplemento por três meses poderia esperar, em média, perder menos de 1 kg além do que perderia apenas com as mudanças de dieta e rotina. É um efeito que existe no papel, mas que dificilmente se percebe na balança.
E a vontade de comer doce?
Boa parte do apelo do picolinato de cromo está na promessa de reduzir a compulsão por carboidratos. O estudo mais citado nesse ponto, publicado na Diabetes Technology & Therapeutics em 2008, acompanhou 42 mulheres com sobrepeso que relatavam desejo intenso por carboidratos e usaram 1.000 microgramas por dia ou placebo durante oito semanas.
No grupo do cromo, a quantidade de comida consumida caiu 25%, contra 8% no grupo placebo, e a fome e a vontade de comer gordura diminuíram. Mesmo assim, a diferença de peso entre os grupos não chegou a ser estatisticamente significativa, e o estudo foi pequeno e curto demais para mostrar se o efeito se mantém.
É o mesmo tipo de apelo usado pelos suplementos vendidos como Ozempic natural, que costumam combinar cromo, fibras e extratos vegetais. Um efeito discreto sobre a fome em um estudo pequeno está longe da redução de apetite medida nos ensaios com medicamentos.
Qual a dose de picolinato de cromo usada nos estudos
Os ensaios clínicos testaram doses entre 200 e 1.000 microgramas de picolinato de cromo por dia. Na revisão da Cochrane, doses maiores não trouxeram mais perda de peso do que doses menores, e na meta-análise da Clinical Obesity os resultados foram mais consistentes nos estudos com até 400 microgramas por dia e duração de até 12 semanas.
Esses números descrevem o que foi pesquisado e não funcionam como recomendação de uso. No Brasil, o picolinato de cromo é uma das formas de cromo autorizadas pela Anvisa em suplementos alimentares, e a regra só permite no rótulo alegações que constem de uma lista oficial, sem qualquer insinuação de efeito terapêutico. Produtos que prometem emagrecimento rápido ou queima de gordura merecem desconfiança.
Picolinato de cromo e canetas emagrecedoras: a diferença de escala
A comparação com os medicamentos para obesidade ajuda a colocar o suplemento em perspectiva. No STEP 1, a semaglutida 2,4 mg levou a uma perda média de 14,9% do peso em 68 semanas, e no SURMOUNT-1 a tirzepatida 15 mg chegou a 22,5% em 72 semanas.
Em uma pessoa de 100 kg, isso equivale a perder entre 15 e 22 kg, contra menos de 1 kg com o cromo. A diferença tem explicação no mecanismo, porque os medicamentos imitam hormônios intestinais que agem diretamente nos centros de apetite do cérebro e retardam o esvaziamento do estômago, algo que nenhum suplemento faz.
Os resultados detalhados de quantos quilos o Mounjaro faz perder por semana mostram como essa curva costuma evoluir ao longo do tratamento, sempre com acompanhamento médico e mudanças de hábito. Esses medicamentos só são usados com prescrição, e a indicação depende de uma avaliação que considera o peso, as doenças associadas e o histórico de cada pessoa.
Voy Saúde
Cromo, glicose e diabetes
Como o cromo é associado à ação da insulina, muita gente com resistência à insulina ou pré-diabetes chega ao suplemento esperando controlar a glicose. Em pessoas saudáveis, a avaliação europeia não encontrou benefício do cromo sobre o metabolismo da glicose.
Em quem já tem diabetes tipo 2, uma revisão de 20 ensaios clínicos publicada na Nutrition Reviews mostrou que a hemoglobina glicada chegou à meta de tratamento em apenas 3 de 14 estudos, quase sempre com o cromo somado aos remédios. Os autores concluíram que há pouca razão para recomendar o suplemento no controle da glicose, e por isso ele não faz parte do tratamento do diabetes nem substitui os remédios prescritos.
Riscos e quem deve evitar
Nos estudos de curto prazo, o picolinato de cromo foi em geral bem tolerado, com relatos de fezes amolecidas, tontura, dor de cabeça e urticária. A segurança no longo prazo, porém, é pouco conhecida, e a própria revisão da Cochrane lembra que poucos estudos registraram os efeitos adversos de forma adequada.
Há ainda relatos isolados de problemas no fígado, insuficiência renal, anemia e hipoglicemia associados ao cromo, e quem já tem doença renal ou hepática pode ser mais sensível a doses altas. O suplemento também pode somar efeito à insulina e a outros remédios para diabetes, aumentando o risco de hipoglicemia, e reduzir a absorção da levotiroxina, usada no hipotireoidismo.
Por esses motivos, a decisão de usar ou não o picolinato de cromo cabe ao médico, que avalia a saúde de cada pessoa e os remédios em uso, e o melhor caminho para quem busca resultado consistente costuma ser um tratamento para perda de peso orientado por um profissional.



