
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
A retatrutida, desenvolvida pela Eli Lilly, pode ser a mais potente das novas moléculas contra a obesidade. Diferente da tirzepatida e da semaglutida, ela age em três receptores hormonais ao mesmo tempo, o GLP-1, o GIP e o glucagon.
Foi exatamente esse mecanismo triplo que a levou à maior perda de peso já registrada por um medicamento em estudos de fase 3. Um exemplo são os resultados do TRIUMPH-1, no qual se identificou perda média de 25% do peso corporal na dose de 12 mg.
O problema é que toda essa promessa ainda está no laboratório. A retatrutida está em fases finais de estudo e não foi aprovada em nenhum país, o que significa que tudo o que é vendido hoje com esse nome é falsificado, ilegal e potencialmente perigoso.
No Brasil, a Anvisa proibiu qualquer produto que afirme conter a molécula, uma medida que preza pela saúde e segurança enquanto a retatrutida não completa seu caminho regulatório.
Reunimos aqui o que os estudos mostram e por que, no Brasil de hoje, a única resposta segura é aguardar.
O que é a retatrutida
A retatrutida é o princípio ativo, a molécula em si, de um medicamento ainda sem nome comercial, em fase de estudos clínicos pela Eli Lilly. Ela funciona como um agonista triplo de receptores hormonais, ou seja, age ao mesmo tempo em três sistemas do metabolismo que regulam fome, saciedade e gasto de energia.
Para ter referência: a semaglutida, princípio ativo do Wegovy, age em um receptor, o GLP-1. A tirzepatida, do Mounjaro, age em dois, GLP-1 e GIP. A retatrutida age nesses dois e ainda no glucagon. É essa terceira via que parece explicar os resultados mais fortes, e vale entender por quê.
Como a retatrutida age no organismo
O corpo tem vários sistemas que regulam o quanto você come, como usa energia e onde armazena gordura. A retatrutida interfere em três deles ao mesmo tempo. O GLP-1 reduz o apetite, retarda o esvaziamento do estômago e estimula a insulina após as refeições, o mesmo mecanismo do Ozempic e do Wegovy.
O GIP potencializa a resposta à insulina e participa da regulação do armazenamento de gordura, e também está presente no Mounjaro. A novidade é o glucagon: seu receptor aumenta o gasto energético e a queima de gordura, algo que nenhuma das canetas disponíveis hoje faz.
Por que isso importa? Porque o corpo não apenas recebe menos calorias, ele passa a gastar mais, e é aí que parece estar a diferença nos resultados.
O que os estudos mostram
O primeiro grande sinal veio de um estudo publicado no New England Journal of Medicine em 2023. Em adultos com obesidade sem diabetes acompanhados por 48 semanas, a dose de 12 mg levou a 24,2% de perda média de peso. Um detalhe chamou atenção: os participantes ainda perdiam peso ao final do estudo, o que sugere que o período não foi longo o bastante para atingir o platô.
O momento decisivo, porém, foi a chegada dos dados da fase 3 do estudo. Em maio de 2026, a Eli Lilly divulgou o TRIUMPH-1, o estudo pivotal em obesidade, com 2.339 adultos com obesidade sem diabetes.
Em 80 semanas, a perda média foi de 17,6% na dose de 4 mg, 23,7% na de 9 mg e 25,0% na de 12 mg, contra 3,9% no placebo. É o ensaio que serve de base para o pedido de registro, e o mais comparável aos estudos de semaglutida e tirzepatida.
Antes dele, em dezembro de 2025, o TRIUMPH-4 já havia mostrado força em um grupo específico. Participantes com obesidade e osteoartrite de joelho, na dose de 12 mg por 68 semanas, perderam em média 28,7% do peso, o equivalente a cerca de 32 kg, a maior perda já registrada para um medicamento em fase 3.
O estudo também documentou redução de 75,8% nas dores de joelho e melhora em marcadores cardiovasculares. Outros ensaios da fase 3 ainda devem sair ao longo de 2026.
Benefícios para além do peso
O programa TRIUMPH investiga a retatrutida em vários contextos: apneia do sono, dor lombar crônica, doença hepática gordurosa, insuficiência renal e desfechos cardiovasculares. Um subestudo de apneia do sono, divulgado em 2026, apontou redução expressiva no índice de eventos respiratórios do sono.
Dados de fase 2 também já indicaram redução importante de gordura no fígado e melhora no controle da glicose em pessoas com diabetes tipo 2. Se tudo isso se confirmar nas fases seguintes, o medicamento pode se tornar uma intervenção metabólica mais ampla do que apenas para perda de peso.
Efeitos colaterais e o que os estudos revelaram
Os efeitos mais comuns são gastrointestinais, esperados para essa classe de medicamentos e geralmente mais intensos no início e nos ajustes de dose.
No TRIUMPH-4 apareceram náusea (até 43% dos participantes), diarreia (33%), constipação (25%) e vômitos (21%). Casos raros de pancreatite aguda em estudos anteriores colocam essa condição como ponto a ser avaliado, assim como histórico de certos tumores de tireoide entre os critérios de exclusão.
Um sinal novo merece atenção
O TRIUMPH-4 registrou disestesia, uma sensação anormal ao toque descrita como formigamento ou desconforto diante de estímulos normalmente indolores, em 20,9% dos participantes na dose de 12 mg, contra 0,7% no placebo.
A Eli Lilly classificou os casos como geralmente leves e raramente motivo de interrupção, mas é justamente o tipo de achado que a fase 3 existe para investigar antes de qualquer aprovação.
Retatrutida no Brasil: o que você precisa saber
Em janeiro de 2026, a Anvisa publicou a Resolução-RE nº 214, determinando a apreensão e a proibição imediata de todos os produtos que contenham retatrutida no país, de todas as marcas e lotes.
A medida cobre fabricação, importação, venda, distribuição e uso. Não é burocracia, é proteção: a retatrutida não completou a fase 3 e não tem aprovação em nenhum lugar do mundo, então não existe versão original à venda em parte alguma.
Isso não impediu o mercado ilegal. Versões falsas circulam em redes sociais e sites com preços na casa dos milhares de reais por caneta, e algumas foram apreendidas pela Receita Federal em aeroportos.
Um detalhe denuncia a fraude: essas canetas afirmam conter 40 mg da substância, enquanto a dose máxima já testada nos estudos é de 12 mg. Análises de produtos falsificados em outros países encontraram bactérias, impurezas e, em alguns casos, apenas álcool de açúcar.
Para entender o cenário das versões irregulares, vale ler sobre as canetas falsificadas que já circulam no mercado.
Quando a retatrutida pode chegar de forma legal?
O cenário mais otimista prevê a submissão à agência americana FDA no fim de 2026, com aprovação possível ao longo de 2027. Só depois disso a Eli Lilly poderia protocolar um pedido à Anvisa.
Na melhor das hipóteses, a chegada ao mercado brasileiro dificilmente ocorre antes de 2028. Enquanto isso, os medicamentos aprovados pela Anvisa para obesidade incluem a semaglutida (Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro), além da liraglutida.
Diagnóstico e acompanhamento médico
A obesidade é uma doença crônica com causas múltiplas, metabólicas, genéticas, comportamentais e sociais. O diagnóstico correto vai além do IMC e envolve histórico familiar, comorbidades, exames e contexto individual. É esse conjunto que define qual tratamento faz sentido para cada pessoa.
No caso da retatrutida, o acompanhamento será ainda mais importante quando o medicamento for aprovado, porque os efeitos gastrointestinais são intensos no início, o sinal de disestesia pede monitoramento e as contraindicações da classe exigem avaliação prévia. A automedicação com qualquer análogo de incretina, aprovado ou não, traz riscos reais.




