Retatrutida: o que você precisa saber

Entenda o que é, como funciona e quando chega ao Brasil.

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Aprovado por:

Time de Saúde Voy

Escrito com base em estudos científicos
Atualizado em 26/03/2026
Aviso Importante

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde. ​‍

A retatrutida é um medicamento experimental para obesidade que, em ensaios clínicos, levou a uma perda média de peso de até 30% – resultado que, durante décadas, só a cirurgia bariátrica conseguia alcançar.

Esses dados colocam a retatrutida no centro das conversas sobre o futuro do tratamento da obesidade. Mas enquanto o medicamento não chega, existe um risco: o entusiasmo que chega antes dos medicamentos, e as promessas e ofertas que não têm respaldo científico.

Para que você se mantenha informado, reunimos aqui tudo o que precisa saber sobre esse medicamento e seus estudos.

O que é a retatrutida?

A retatrutida é o princípio ativo — a molécula em si — de um medicamento ainda sem nome comercial, em fase de estudos clínicos pela farmacêutica Eli Lilly.

Trata-se de uma molécula que funciona como um agonista triplo de receptores hormonais. Isso significa que ela age simultaneamente em três sistemas do metabolismo que regulam fome, saciedade e gasto energético.

Para se ter uma referência: a semaglutida, princípio ativo do Wegovy, age em apenas um receptor, o GLP-1. Já a tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, age em dois, GLP-1 e GIP. A retatrutida age nos dois já citados, e ainda no Glucagon. Segue que a gente te explica.

Como a retatrutida age no organismo

O corpo tem vários sistemas que regulam o quanto você come, como você usa energia e onde armazena sua gordura. A retatrutida interfere em três desses sistemas ao mesmo tempo.

São eles:

  • GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1): reduz o apetite, retarda o esvaziamento gástrico e estimula a liberação de insulina após refeições. É o mesmo mecanismo do Ozempic e Wegovy.
  • GIP (polipeptídeo insulinotrópico dependente de glicose): potencializa a resposta insulínica e tem papel na regulação do armazenamento de gordura. Também está presente no Mounjaro.
  • Glucagon: aqui está a novidade. O receptor de glucagon aumenta o gasto energético e a oxidação de gordura. Nenhuma das "canetas emagrecedoras" disponíveis hoje age nele.

É essa terceira via que, pelos dados disponíveis até agora, parece explicar os resultados mais expressivos: o corpo não só recebe menos calorias, ele passa a gastar mais.

O que os estudos mostram até agora

Fase 2: o estudo que mudou as expectativas

O ensaio de Fase 2, publicado no New England Journal of Medicine em 2023, acompanhou adultos com obesidade sem diabetes tipo 2 por 48 semanas.

Na dose de 12 mg semanal, a perda média foi de 24,2% do peso corporal. Quase dois terços dos participantes perderam 20% ou mais; um quarto perdeu 30% ou mais.

Um detalhe relevante: os participantes ainda estavam perdendo peso ao final das 48 semanas, sugerindo que o estudo não foi longo o suficiente para atingir o platô (o ponto máximo da atuação do medicamento).

Fase 3: os primeiros dados

Em dezembro de 2025, a Eli Lilly divulgou os resultados do TRIUMPH-4 — o primeiro ensaio de Fase 3 de estudos sobre o novo medicamento.

Participantes com obesidade e osteoartrite de joelho, usando 12 mg por 68 semanas, perderam em média 28,7% do peso corporal, o equivalente a aproximadamente 32 kg. É a maior perda de peso já registrada para qualquer medicamento em um ensaio de Fase 3.

Além do peso, o estudo documentou redução de 75,8% nas dores de joelho relatadas pelos participantes, e melhoras em marcadores cardiovasculares — colesterol não-HDL, triglicerídeos e pressão arterial sistólica.

Os resultados de outros sete ensaios da Fase 3 ainda devem ser divulgados ao longo de 2026.

Benefícios para além do peso

O programa TRIUMPH está investigando a retatrutida em outros contextos: apneia do sono, dor lombar crônica, doença hepática gordurosa, insuficiência renal e desfechos cardiovasculares.

Os dados preliminares de Fase 2 já indicaram redução de gordura hepática e melhora no controle glicêmico em pessoas com diabetes tipo 2. Se confirmado nas fases seguintes, o medicamento pode se tornar uma intervenção metabólica mais ampla do que apenas para perda de peso.

Efeitos colaterais e o que os estudos revelaram

O perfil esperado da classe

Os efeitos adversos mais comuns no TRIUMPH-4 foram gastrointestinais: náusea (até 43% dos participantes), diarreia (33%), constipação (25%) e vômitos (21%). São efeitos esperados para análogos de incretina, geralmente mais intensos no início do tratamento e durante os ajustes de dose.

Casos raros de pancreatite aguda foram relatados em estudos anteriores, o que coloca essa condição como contraindicação a ser avaliada.

Histórico de carcinoma medular da tireoide ou síndrome de neoplasia endócrina múltipla tipo 2 também constam entre os critérios de exclusão dos ensaios.

O sinal de disestesia: o que é e o que sabemos

O TRIUMPH-4 revelou algo que a Fase 2 não havia registrado: disestesia — uma sensação anormal ao toque, descrita como formigamento ou dor em resposta a estímulos normalmente indolores — em 20,9% dos participantes que usaram 12 mg. No grupo placebo, o índice foi de 0,7%.

A Eli Lilly classificou os eventos como geralmente leves e raramente causa de interrupção do tratamento. Mas é um sinal novo, não observado nos estudos anteriores, que os próximos ensaios de Fase 3 precisarão elucidar.

É exatamente o tipo de dado que o processo regulatório existe para levantar, e a razão pela qual medicamentos passam pela Fase 3 antes de serem aprovados.

Retatrutida no Brasil: o que você precisa saber

O que a Anvisa diz

Em janeiro de 2026, a Anvisa publicou a Resolução-RE nº 214, determinando a apreensão e proibição imediata de todos os produtos contendo retatrutida no Brasil — o que vale para todas as marcas, de todos os lotes. A medida cobre fabricação, importação, comercialização, distribuição e uso.

Não é burocracia, é proteção. A retatrutida não completou os estudos de Fase 3 e não tem aprovação em nenhum país do mundo. Isso significa que não existe versão original disponível para venda em lugar algum.

As versões vendidas online são falsas, e perigosas

Isso não impediu o mercado ilegal de agir. Versões falsas do medicamento circulam em redes sociais e sites com preços entre R$ 2.100 e R$ 3.000 por caneta. Marcas como "Synedica Retatrutide" chegaram a ser apreendidas pela Receita Federal em aeroportos brasileiros.

Um detalhe que revela a falsificação: essas canetas afirmam conter 40 mg de retatrutida. A dose máxima testada nos ensaios clínicos é de 12 mg.

A Eli Lilly analisou amostras de produtos falsificados em outros países e encontrou bactérias, impurezas elevadas, alteração de cor e, em alguns casos, apenas álcool de açúcar. Comprar retatrutida online hoje não é apenas ilegal: é um risco real à saúde.

Quando pode chegar legalmente ao Brasil?

O cronograma mais otimista é a submissão ao FDA (Food and Drug Administration) americano no segundo semestre de 2026, com um aprovação possível em 2027. Só depois disso, a Eli Lilly pode submeter um pedido separado à Anvisa. Com isso, a chegada do medicamento ao mercado brasileiro, na melhor das hipóteses, provavelmente não ocorre antes de 2028.

Enquanto isso, os medicamentos aprovados pela Anvisa para obesidade incluem semaglutida (Wegovy, Ozempic), tirzepatida (Mounjaro), liraglutida (Saxenda), sibutramina e orlistate. O orforglipron — um comprimido GLP-1 sem exigência de jejum — também aguarda aprovação regulatória.

Diagnóstico e acompanhamento médico

Obesidade é uma doença crônica com causas múltiplas: metabólicas, genéticas, comportamentais e sociais. O diagnóstico correto vai além do IMC: envolve avaliar histórico familiar, comorbidades, exames laboratoriais e contexto individual. É esse conjunto que define qual tratamento faz sentido para cada pessoa.

No caso da retatrutida, o acompanhamento será ainda mais importante quando o medicamento for aprovado: os efeitos adversos gastrointestinais são intensos no início, o sinal de disestesia precisa de monitoramento, e as contraindicações conhecidas da classe exigem avaliação prévia.

Automedicação com qualquer análogo de incretina, aprovado ou não, traz riscos reais.

O que lembrar

A retatrutida representa um avanço científico real e documentado no tratamento da obesidade com dados são genuinamente expressivos. Mas no Brasil de hoje, todo produto anunciado como retatrutida é falso, e comprá-lo é ilegal e potencialmente perigoso.

O caminho seguro é acompanhar o desenvolvimento com um médico especialista e aguardar o processo regulatório, que existe justamente para garantir que o entusiasmo com os resultados não antecipe riscos que ainda estamos aprendendo a medir.

Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.

Voy Saúde
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Perguntas Frequentes

Referências
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Jastreboff AM et al. Triple–Hormone-Receptor Agonist Retatrutide for Obesity — A Phase 2 Trial. N Engl J Med.scribble-underline 2023;389:514–526. https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2301972

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Eli Lilly. TRIUMPH-4 Phase 3 topline results. Dezembro de 2025. https://investor.lilly.com/news-releases/news-release-details/lillys-triple-agonist-retatrutide-delivered-weight-loss-average

icon³

Katsi V et al. Retatrutide — A Game Changer in Obesity Pharmacotherapy. Biomolecules.scribble-underline 2025;15(6). https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12190491/

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Misra S et al. Efficacy and safety of once-weekly subcutaneous retatrutide: A systematic review and meta-analysis. Diabetes & Metabolic Syndrome.scribble-underline 2024. https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/39318607/

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Anvisa. Resolução-RE nº 214, janeiro de 2026. Via CNN Brasil: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/retatrutida-o-que-e-a-substancia-e-por-que-nao-e-autorizada-pela-anvisa/

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Receita Federal. Apreensão de Synedica Retatrutide no Aeroporto de Salvador. Junho de 2025. https://www.gov.br/receitafederal/pt-br/assuntos/noticias/2025/junho/receita-federal-apreende-medicamento-mais-potente-que-o-mounjaro-no-aeroporto-de-salvador