Semaglutida para risco cardiovascular

Saiba o que muda com a nova indicação para pacientes com obesidade e alto risco cardíaco.

clinician image

Aprovado por:

Time de Saúde Voy

Escrito com base em estudos científicos
Atualizado em 11/02/2026
Aviso Importante:

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde. ​‍

Em fevereiro de 2026, a Anvisa aprovou o Wegovy também para redução do risco de eventos cardiovasculares maiores, como infarto e AVC. Uma virada importante, que mostra como os efeitos positivos do vão muito além da balança.

Mas essa aprovação não vale para todo mundo. Ela se aplica a um perfil específico de pacientes, se baseia em estudos robustos e levanta perguntas que a medicina ainda está tentando responder.

Vamos olhar com calma para cada parte dessa história.

O que a Anvisa aprovou (e para quem a indicação vale)

Por muito tempo, agonistas de GLP-1 como a semaglutida foram tratados como ferramentas de dois territórios: controle de glicemia ou perda de peso. A decisão da Anvisa em fevereiro de 2026 coloca a semaglutida formalmente num terceiro: proteção do coração. É a primeira vez que uma agência regulatória brasileira reconhece esse papel para o Wegovy.

Dito isso, a indicação é restrita. Ela se aplica a adultos com doença cardiovascular já estabelecida (histórico de infarto, AVC ou doença arterial periférica) que também tenham obesidade ou sobrepeso. O uso precisa estar associado a dieta hipocalórica e atividade física.

Atenção a esse ponto: não se trata de prevenção primária. Quem não tem doença cardíaca prévia não está contemplado nessa aprovação.

Na mesma decisão, a Anvisa ampliou a indicação do Ozempic para pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica. Ambos contêm semaglutida, mas são formulações distintas com indicações diferentes.

E o contexto brasileiro dá peso a essa mudança. Segundo dados citados pela própria Anvisa, cerca de 400 mil brasileiros morrem por ano de infarto ou AVC. Qualquer ferramenta que reduza esse número merece atenção.

O que os estudos sobre realmente mostraram

Decisões regulatórias desse porte não se baseiam em hipóteses promissoras ou resultados de laboratório. Elas exigem ensaios clínicos grandes, longos e bem desenhados, com desfechos duros: morte, infarto, AVC.

A aprovação da Anvisa se apoia principalmente em dois desses estudos. Vale conhecer cada um, porque os números contam uma história que não é óbvia.

O estudo SELECT: semaglutida em pacientes sem diabetes

Antes do SELECT, a semaglutida já havia mostrado benefícios metabólicos consistentes. Mas ninguém sabia se esses benefícios se traduziam em menos infartos e AVCs, especificamente em pessoas sem diabetes. Era essa a pergunta que o estudo se propôs a responder.

O SELECT acompanhou 17.604 adultos com sobrepeso ou obesidade e doença cardiovascular estabelecida por cerca de 40 meses. Nenhum tinha diabetes. Todos receberam semaglutida subcutânea ou placebo, sempre em adição ao tratamento padrão com estatinas (medicamentos essenciais para prevenir doenças cardiovasculares).

O resultado principal: redução de 20% nos eventos cardiovasculares maiores (morte cardiovascular, infarto não fatal e AVC não fatal). Para dar perspectiva, essa magnitude de efeito se aproxima do que se observa com estatinas em populações de alto risco.

A perda média de peso foi de 9,4%. Mas aqui vem o dado que surpreendeu a comunidade científica: uma sub-análise apresentada em 2025 mostrou que nos primeiros seis meses, antes de a perda de peso se tornar expressiva, já havia redução de 50% na mortalidade cardiovascular.

Ou seja, a proteção começou antes do emagrecimento. Esse achado mudou a conversa.

Uma análise pré-especificada do SELECT publicada no The Lancet avaliou separadamente os pacientes com insuficiência cardíaca e encontrou redução de 28% em eventos cardiovasculares nesse subgrupo.

Isso amplia a relevância dos dados para além do perfil que normalmente se associa a medicamentos para obesidade.

O estudo SOUL: semaglutida oral e proteção cardiovascular

Até 2025, todos os dados de benefício cardiovascular vinham de formulações injetáveis. Isso levantava uma dúvida legítima: o comprimido de semaglutida teria o mesmo efeito?

O estudo SOUL, publicado no New England Journal of Medicine em 2025, respondeu a essa pergunta. Foram 9.650 pacientes com diabetes tipo 2 e doença cardiovascular aterosclerótica ou doença renal crônica, acompanhados por quase quatro anos.

O resultado: redução de 14% nos eventos cardiovasculares maiores com semaglutida oral versus placebo. É o primeiro agonista de GLP-1 em comprimido a demonstrar benefício cardiovascular em um grande ensaio clínico.

E isso importa na prática: há pacientes que evitam injeções, e a cadeia de frio que a versão injetável exige nem sempre é acessível em todas as regiões do país.

O que ainda não foi testado

Nem o SELECT nem o SOUL avaliaram prevenção primária. Todos os participantes já tinham doença cardiovascular ou renal.

Também não existe, até hoje, uma comparação direta entre semaglutida e outros agonistas de GLP-1 (como tirzepatida ou liraglutida) para esse desfecho específico.

Importante dizer que, o benefício quando comprovado em apenas um perfil de paciente não pode ser automaticamente estendido a populações diferentes.

Semaglutida protege o coração mesmo sem perda de peso?

Essa é talvez a pergunta mais fascinante que os dados levantam. A explicação intuitiva seria simples: obesidade é fator de risco, o paciente emagrece com a semaglutida, o risco cai. Lógico. Direto. E incompleto.

Uma análise pré-especificada do SELECT, publicada no The Lancet em 2025, investigou exatamente isso. O achado: a quantidade de peso perdida nas primeiras 20 semanas não previu o benefício cardiovascular que veio depois.

Os pesquisadores perceberam que diminuir a circunferência abdominal (sinal de redução da gordura visceral) ajudou a explicar parte do benefício cardiovascular. Mas isso respondeu por apenas cerca de 33% do efeito total.

Emagrecer contribui, mas não explica tudo.

Os dados indicam que a semaglutida também pode agir diretamente no sistema cardiovascular, reduzindo a inflamação dos vasos, melhorando a saúde da parede das artérias, estabilizando placas de gordura, diminuindo a proteína C-reativa (marcador inflamatório) e reduzindo levemente a pressão arterial.

No estudo SELECT, a queda da proteína C-reativa foi semelhante à observada com estatinas, e a pressão arterial caiu 3,3 mmHg, mais do que seria esperado apenas pela perda de peso.

Além disso, uma meta-análise publicada no International Journal of Obesity em 2025, reunindo dados de múltiplos ensaios, reforçou a consistência desse perfil: os efeitos cardiovasculares favoráveis parecem ir além do que a redução de gordura sozinha explicaria.

É por isso que muitos pesquisadores passaram a classificar a semaglutida como um modificador de doença cardiometabólica, e não apenas como medicamento para emagrecimento.

Quem se beneficia na prática com essa aprovação

Toda aprovação regulatória levanta uma pergunta inevitável: e eu, me encaixo nisso? A semaglutida gera um entusiasmo enorme nas redes sociais, e é natural que a notícia de proteção cardiovascular amplie ainda mais esse interesse. Mas os limites da evidência precisam ser respeitados.

A mudança afeta um grupo definido: pessoas com doença cardiovascular já diagnosticada que também convivem com obesidade ou sobrepeso. Para esses pacientes, a semaglutida passa a ter respaldo formal como estratégia complementar de redução de risco, sempre junto ao tratamento padrão.

Para quem utiliza semaglutida com outros objetivos, sem doença cardiovascular prévia, a indicação formal não mudou. Não há evidência que permita extrapolar automaticamente esse benefício.

Um impacto prático que já começa a se desenhar é a ampliação do diálogo entre especialidades. A prescrição tende a envolver de forma mais explícita o cardiologista, além do endocrinologista ou clínico.

E com a submissão do Wegovy oral à Anvisa, anunciada pela Novo Nordisk também em fevereiro de 2026, a perspectiva de acessar essa proteção cardiovascular em formato de comprimido pode tornar o tratamento viável para mais pacientes no futuro.

Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.

Voy Saúde
A Voy é uma plataforma de saúde que faz a gestão de toda a jornada de emagrecimento, conectando pacientes a nutricionistas, endocrinologistas e dando todo suporte na aquisição e manutenção dos tratamentos adequados, de forma segura e prática, 100% online e com suporte de saúde ilimitado.

Perguntas Frequentes

Referências
icon¹

Lincoff AM, Brown-Frandsen K, Colhoun HM, et al. Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in Obesity without Diabetes. New England Journal of Medicinescribble-underline. 2023;389:2221-32. PubMed

icon²

Deanfield J, Lincoff AM, Kahn SE, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes by baseline and changes in adiposity measurements: a prespecified analysis of the SELECT trial. The Lancetscribble-underline. 2025. The Lancet

icon³

McGuire DK, Marx N, Mulvagh SL, et al. Oral Semaglutide and Cardiovascular Outcomes in High-Risk Type 2 Diabetes. New England Journal of Medicinescribble-underline. 2025;392:2001-12. PubMed

icon

Anvisa. Anvisa aprova novas indicações para semaglutida e tezepelumabe. Fevereiro de 2026. gov.br

icon

Kosiborod MN, Deanfield J, Engberg S, et al. Semaglutide and cardiovascular outcomes in patients with obesity and prevalent heart failure: a prespecified analysis of the SELECT trial. The Lancetscribble-underline. 2024. The Lancet

icon

Novo Nordisk. Novo Nordisk submete Wegovy comprimidos (semaglutida oral 25 mg) à aprovação regulatória da Anvisa. Fevereiro de 2026. novonordisk.com.br

icon

Guia da Farmácia. Anvisa aprova uso da semaglutida para redução do risco cardiovascular. Fevereiro de 2026. guiadafarmacia.com.br

icon

Cleto AS, Schirlo JM, Beltrame M, et al. Semaglutide effects on safety and cardiovascular outcomes in patients with overweight or obesity: a systematic review and meta-analysis. International Journal of Obesityscribble-underline. 2025;49(1):21-30. PubMed