Wilding JPH, et al. Once-Weekly Semaglutide in Adults with Overweight or Obesity (STEP 1). NEJM, 2021

Aviso Importante:
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
A aprovação do Ozivy pela Anvisa, em maio de 2026, trouxe uma dúvida inevitável: se ele contém semaglutida e custa menos, por que manter o Wegovy? É uma questão lógica. A resposta está na indicação aprovada de cada um, não na molécula em si.
Qual indicação médica do Wegovy?
O Wegovy é um medicamento à base de semaglutida, desenvolvido pela Novo Nordisk especificamente para o tratamento de sobrepeso e obesidade com comorbidades.
Em fevereiro de 2026, o Wegovy também passou a contar com indicação aprovada pela Anvisa para redução do risco de eventos cardiovasculares maiores, como infarto e AVC, em adultos com obesidade e doença cardiovascular estabelecida.
Antes disso, em dezembro de 2025, a agência já havia aprovado a indicação para o tratamento da esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH), uma inflamação do fígado ligada ao acúmulo de gordura, em adultos com fibrose moderada a avançada, sem cirrose.
Esse respaldo regulatório não surgiu do nada. Ele foi construído ao longo de anos por um dos maiores programas clínicos já conduzidos para obesidade.
Wegovy: o que os estudos provaram
O programa STEP reúne os principais estudos com semaglutida 2,4 mg no tratamento da obesidade, com milhares de participantes.
No STEP 1, um estudo clínico randomizado, duplo-cego e controlado por placebo (em que os participantes foram distribuídos por sorteio e nem eles nem os pesquisadores sabiam qual tratamento cada pessoa recebia), a perda média de peso foi de 14,9% com semaglutida, contra 2,4% com placebo. Cerca de um terço dos participantes que receberam semaglutida perdeu 20% ou mais do peso inicial.
Esse efeito não foi pontual: no STEP 5, que acompanhou os participantes por dois anos, a perda média foi de 15,2% do peso corporal após 104 semanas, contra 2,6% no grupo placebo, reforçando a consistência dos resultados no longo prazo.
Em estudos mais recentes, doses mais altas de semaglutida vêm sendo avaliadas. Em 2025, o estudo STEP UP avaliou a dose de 7,2 mg de semaglutida e observou perda média de 20,7% do peso corporal, uma redução adicional em comparação à dose de 2,4 mg.
Com base nesses dados, a Anvisa aprovou, em maio de 2026, a possibilidade de intensificação para 7,2 mg em adultos com obesidade que não apresentaram resposta clínica adequada com a dose padrão de 2,4 mg. Não se trata, portanto, de uma dose inicial nem indicada para todos os pacientes. Mais detalhes em Wegovy 7,2 mg: o que se sabe.
Wegovy além do efeito sobre o peso
A semaglutida também demonstrou impacto além da balança. Durante cerca de quatro anos, o estudo SELECT acompanhou mais de 17.000 participantes e demonstrou uma redução de aproximadamente 20% no risco relativo de eventos cardiovasculares maiores, como infarto e AVC, em pessoas com obesidade e doença cardiovascular estabelecida.
Esse conjunto de evidências foi decisivo para embasar a nova indicação cardiovascular do Wegovy aprovada em fevereiro de 2026. Para entender esse aspecto em profundidade, veja semaglutida e risco cardiovascular.
Qual tratamento mais adequado para você?
O que é o Ozivy e o que já se sabe sobre ele
O Ozivy é um medicamento da EMS aprovado pela Anvisa que, assim como o Wegovy, tem a semaglutida como princípio ativo. O Ozivy não é um medicamento genérico do Ozempic ou do Wegovy. Trata-se de um análogo sintético da semaglutida. Para entender melhor, acesse o artigo que explica essas diferenças.
Na prática, o Ozivy contém semaglutida obtida por síntese química, enquanto Ozempic e Wegovy são produtos biológicos à base de semaglutida. Essa diferença está relacionada principalmente ao processo de obtenção do princípio ativo e ao caminho regulatório do medicamento, e não altera o mecanismo de ação no organismo, que depende da estrutura molecular da substância.
Estudos e aprovação do Ozivy
Para obter o registro, a EMS precisou demonstrar eficácia, segurança e qualidade do Ozivy por meio de estudos técnicos submetidos à Anvisa. O processo começou em 2023 e a aprovação, publicada em maio de 2026, demonstra que a Anvisa considerou atendidos os requisitos regulatórios de qualidade, segurança e eficácia para a indicação aprovada.
Isso não significa, porém, que exista para o Ozivy o mesmo conjunto de evidências clínicas específicas gerado para o Wegovy no tratamento da obesidade. Até o momento, não há estudos com dados próprios do Ozivy publicados em periódicos científicos, o que é esperado em medicamentos recém-aprovados, especialmente quando seguem vias regulatórias novas.
O Ozivy é o primeiro análogo sintético de um produto biológico aprovado no Brasil, o que significa que não havia precedente local para esse tipo de avaliação. Os dados que sustentaram o registro foram gerados pela fabricante, analisados e validados pela Anvisa, ainda sem publicação científica independente.
Por que a comparação clínica direta não é possível hoje
O Wegovy foi desenvolvido para obesidade, com doses de até 2,4 mg e um programa clínico que levou anos para ser construído. O Ozivy foi aprovado para diabetes tipo 2 em doses menores.
Para ampliar a indicação do Ozivy para o controle do peso, seria necessário apresentar à Anvisa dados que sustentem a eficácia e a segurança do medicamento para a população, indicação e regime de dose propostos. Esse pedido já foi protocolado pela EMS e está em análise, sem previsão de aprovação.
O que muda na prática
Tratamento de sobrepeso e obesidade
Para quem está em tratamento para obesidade com Wegovy, a chegada do Ozivy não muda nada clinicamente. O Ozivy não tem indicação aprovada para obesidade e não pode substituir o Wegovy nessa finalidade com respaldo regulatório. O uso do Ozivy para controle de peso, por não constar entre suas indicações aprovadas, configuraria uso off-label (fora da indicação aprovada em bula) e deve ser avaliado individualmente pelo médico responsável, considerando o quadro clínico, os potenciais benefícios e riscos.
A limitação prática é que o Ozivy está aprovado em doses de até 1 mg por semana, abaixo dos 2,4 mg do Wegovy testados nos estudos para obesidade. Até o momento, não há evidência clínica publicada equivalente ao programa STEP demonstrando a eficácia e a segurança do Ozivy especificamente para o tratamento da obesidade, e essa ausência de dados precisa ser considerada na avaliação médica de cada caso.
Para quem busca tratamento para obesidade e ainda não iniciou, hoje existem diferentes medicamentos à base de semaglutida e tirzepatida com indicações aprovadas pela Anvisa para o controle crônico do peso, entre eles Wegovy e Mounjaro (tirzepatida).
O Mounjaro, em estudos que o comparou diretamente com o Wegovy, mostrou resultados superiores de perda de peso. O comparativo completo está em Wegovy ou Mounjaro: qual emagrece mais.
Tratamento de diabetes tipo 2
Para quem tem diabetes tipo 2 e busca uma alternativa ao Ozempic, o Ozivy representa uma opção nova e mais acessível.
Segundo valores divulgados pela EMS no lançamento, em maio de 2026, o preço de tabela é de R$ 498 por caneta, cerca de 30% abaixo do Ozempic, com desconto adicional pelo programa Vida + Leve (R$ 452) e condição especial de R$ 287 por mês nos três primeiros meses.
Esses valores e condições comerciais podem mudar com o tempo. Um detalhe prático relevante: o Ozivy precisa ser mantido entre 2°C e 8°C durante todo o uso, enquanto o Ozempic pode ficar fora da geladeira por até seis semanas após aberto.
Patente vencida e novos concorrentes
Com a patente da semaglutida vencida desde março de 2026, outros laboratórios estão em fases distintas de desenvolvimento de seus próprios similares, e novas opções devem chegar ao mercado nos próximos anos.
Para quem toma decisões de tratamento agora, o mais importante é separar o que está aprovado e disponível do que pode vir a existir.
Embora Wegovy, Ozempic e Ozivy tenham semaglutida como princípio ativo, isso não significa que sejam medicamentos equivalentes em indicação, dose, população estudada ou nível de evidência disponível para cada finalidade. Por isso, a escolha entre eles não deve ser feita apenas com base no princípio ativo ou no preço.
A indicação e a estratégia de tratamento devem ser avaliadas individualmente pelo médico, considerando o histórico de saúde, os objetivos do tratamento, a resposta clínica, a tolerabilidade e as opções aprovadas para cada caso. É justamente por isso que o acompanhamento clínico é uma parte fundamental do tratamento.



