
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a avaliação médica individualizada. O uso de medicamentos para emagrecimento deve ser feito somente com prescrição e acompanhamento médico. A automedicação pode causar efeitos adversos e riscos à saúde.
Por décadas, quem precisava de semaglutida tinha uma única opção: pagar pelo preço que a Novo Nordisk determinava. Isso mudou em 20 de março de 2026, quando a patente do princípio ativo do Ozempic e do Wegovy expirou oficialmente no Brasil.
É um marco real, com consequências concretas para o mercado farmacêutico e, sobretudo, para o bolso de quem usa o medicamento.
Mas o que muda, na prática, para quem já faz o tratamento ou pensa em iniciá-lo? Bastante coisa, mas não de um dia para o outro.
O que significa a queda da patente do Ozempic?
A queda de uma patente determina quem pode fabricar um medicamento e, consequentemente, quanto ele custa para o paciente final.
Patentes de medicamentos funcionam como um período de exclusividade comercial — isso significa que durante 20 anos, apenas a empresa detentora da fórmula pode fabricar e vender aquele princípio ativo no país. No caso da semaglutida, essa exclusividade pertenceu à dinamarquesa Novo Nordisk desde o pedido de registro, em 2006.
Com o fim desse prazo, outros laboratórios ficam livres para desenvolver e comercializar suas próprias versões. Eles não podem usar o nome Ozempic (que é uma marca registrada), mas podem fabricar e vender semaglutida normalmente, competindo diretamente com o produto original.
Por que a patente expirou agora, e o que a justiça decidiu?
A Novo Nordisk não aceitou o fim da exclusividade sem resistência. A empresa tentou estender o prazo por mais 12 anos na Justiça, argumentando que o Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) demorou quase 13 anos para analisar o pedido de patente e que, por isso, não teria usufruído dos 20 anos de exclusividade a que teria direito.
O Supremo Tribunal Federal, em dezembro de 2025, decidiu por unanimidade que o prazo de 20 anos conta a partir do depósito do pedido no INPI, não da concessão.
Em janeiro de 2026, o Superior Tribunal de Justiça confirmou o entendimento, negando também a prorrogação para o Rybelsus, versão oral da semaglutida. Interesse público prevalece.
A patente venceu em março de 2026, conforme previsto, e especialistas avaliam como virtualmente impossível qualquer reversão jurídica dessa decisão.
Quando os similares da semaglutida chegam às farmácias?
Esse é o ponto onde mais expectativas se confundem com a realidade. A patente ter caído é o primeiro passo de um processo, não o último. O fim da exclusividade abre o caminho legal para a produção, mas cada novo medicamento ainda precisa ser aprovado individualmente pela Anvisa antes de chegar às prateleiras.
Há uma razão técnica para a demora: a semaglutida é um peptídeo que fica na fronteira entre o sintético e o biológico, o que exige análise mais rigorosa e um conjunto maior de dados para comprovar segurança e eficácia.
O Brasil, inclusive, ainda não tinha uma norma consolidada para esse tipo de molécula — que não se encaixa nas categorias regulatórias tradicionais — o que exigiu que a Anvisa avaliasse cada pedido com base em diferentes critérios técnicos e referências internacionais.
Quais empresas já estão na fila da Anvisa?
O interesse do mercado foi imediato. Hoje há 15 pedidos nacionais em análise, nenhum aprovado ainda.
O cenário atual dos pedidos é o seguinte:
- 3 estão em fase de cumprimento de exigências e dependem da resposta das empresas para avançar;
- 5 estão em análise com primeira decisão prevista para o primeiro semestre;
- 9 ainda não tiveram a análise iniciada.
Os três pedidos em estágio mais avançado são da EMS (versão sintética), da Ávita Care (versão sintética) e da Cristália (versão biológica). A Anvisa solicitou esclarecimentos às empresas no início de março, e elas têm até 120 dias para responder.
A EMS leva vantagem logística relevante: investiu R$ 1,2 bilhão na expansão de sua planta em Hortolândia (SP), com capacidade para produzir até 20 milhões de canetas por ano, e já produz no mesmo local as versões similares da liraglutida.
Qual o prazo realista para encontrar nas prateleiras?
A expectativa é que ao menos uma das versões em fase avançada seja aprovada até junho de 2026 — mas esse prazo depende tanto da Anvisa quanto da qualidade e velocidade das respostas das empresas.
"A Anvisa não é dona total dos prazos. Depende em parte da empresa também, tanto em termos do prazo que a empresa leva para responder quanto em termos da qualidade com a qual ela responde", explicou Raphael Sanches, gerente geral de medicamentos da agência. Quem espera encontrar o similar na farmácia da esquina em abril vai se frustrar.
Quanto vai custar o similar da semaglutida?
A pergunta mais buscada por quem acompanha o tema tem uma resposta honesta: ninguém sabe ao certo ainda. Mas há um ponto técnico essencial que define o teto do desconto possível.
Ao contrário de medicamentos sintéticos simples, a semaglutida não terá versões genéricas no mercado, e isso importa para o preço. Por ser uma molécula complexa de origem biológica, não é possível fazer cópias idênticas. Os genéricos, por lei, precisam custar ao menos 35% menos que o produto de referência. Essa regra não se aplica aqui.
No lugar dos genéricos, surgem os biossimilares — versões muito parecidas, mas que exigem testes próprios para comprovar segurança e eficácia — e que podem ser até 20% mais baratos. Há, porém, um detalhe importante: entre todos os pedidos em análise, apenas dois são de biossimilares.
A maioria é de medicamentos novos, que não têm qualquer desconto mínimo obrigatório em relação ao produto de referência.
A tendência é que a concorrência pressione os preços para baixo ao longo do tempo, mas esse efeito será gradual. O vice-presidente da EMS, Marcus Sanchez, confirmou que a empresa chegará ao mercado de forma competitiva, mas ainda não divulgou valores. Hoje, uma caneta custa em média R$ 1.000, variando conforme a dose e o estabelecimento.
O exemplo da liraglutida: o que aprendemos com a patente anterior
Para quem quer entender como isso costuma se desenrolar na prática, existe um caso recente muito próximo. A liraglutida (molécula da mesma classe terapêutica, presente no Victoza e no Saxenda) perdeu a patente no Brasil no fim de 2024.
Em agosto de 2025, a EMS lançou as versões similares Olire e Liruz, e os resultados foram expressivos: no primeiro mês, as vendas totais de liraglutida no país cresceram 154,5%, com as versões da EMS representando mais da metade do mercado.
O ponto mais importante desse episódio foi o que não aconteceu: a chegada dos similares não canibalizou as vendas da Novo Nordisk. O mercado simplesmente cresceu, absorvendo uma demanda que antes existia mas não conseguia se concretizar por causa do preço.
A semaglutida tem uma base de usuários ainda maior e está no centro de um debate público muito mais amplo. O efeito tende a ser proporcional, ou maior.
Similar é tão eficaz e seguro quanto o original?
É uma dúvida legítima, especialmente para quem está num tratamento que está funcionando. A resposta é sim, com uma condição importante: o produto precisa ter sido aprovado pela Anvisa.
Para obter registro, um medicamento precisa demonstrar equivalência terapêutica com o original, mesma ação no organismo, segurança comprovada. A Anvisa não libera nada que não cumpra esses critérios.
Entre os pontos avaliados na análise dos pedidos em fase avançada estão estudos de imunogenicidade (que avaliam se o organismo pode produzir anticorpos contra o medicamento), controle de impurezas do processo de produção e métodos de análise molecular.
O Ozempic original vai desaparecer?
Não. O fim da exclusividade encerra o monopólio, não o produto. Quem quiser continuar com o Ozempic da Novo Nordisk pode fazê-lo normalmente: a empresa reafirmou seu compromisso com o mercado brasileiro e mantém uma fábrica em Montes Claros (MG) responsável por parte significativa da produção global de insulinas.
O produto de referência continua no mercado, simplesmente passa a ter concorrência, e pode adotar estratégias como programas de desconto e parcerias com planos de saúde para se manter competitivo.
A semaglutida vai ser incorporada ao SUS?
Essa é a pergunta que vai além do preço nas farmácias e toca num ponto estrutural: o acesso universal. Para os 62,6% de brasileiros com sobrepeso e os 25,7% com obesidade registrados pelo Ministério da Saúde em 2024, a diferença entre comprar o medicamento ou tê-lo disponível pelo SUS é enorme.
Em 2025, o Ministério avaliou formalmente a incorporação da semaglutida ao sistema público e chegou a uma negativa. O motivo foi objetivo: o impacto orçamentário estimado ultrapassava R$ 8 bilhões por ano, inviável dentro das regras de incorporação tecnológica vigentes.
Hoje, medicamentos dessa classe já são usados na rede pública, mas de forma restrita, em protocolos específicos e para um número limitado de pacientes. Ao mesmo tempo, cresce a mobilização na Justiça de pessoas que exigem que o governo forneça esses tratamentos.
A lógica muda com a entrada de versões nacionais. Se o custo do tratamento cair de forma relevante, o impacto orçamentário cai proporcionalmente, e a viabilidade de incorporação cresce.
O Ministério da Saúde reconhece que acompanha o cenário ativamente. Nada está decidido, mas o debate voltará à mesa assim que as versões nacionais estiverem disponíveis e os preços de mercado consolidados.
O que muda, e o que fica igual, para quem já usa o medicamento
Para quem já está em tratamento com Ozempic ou Wegovy, pelo menos por enquanto, pouca coisa muda no dia a dia. O medicamento continua disponível. A prescrição médica segue necessária, e o acompanhamento profissional permanece indispensável.
A semaglutida, independentemente de quem fabrica, é um medicamento com indicações precisas, perfil de efeitos adversos conhecido (predominantemente gastrointestinais, especialmente no início do tratamento) e contraindicações que precisam ser avaliadas caso a caso pelo médico responsável.
Quando os similares chegarem ao mercado, qualquer troca de produto, mesmo sendo o mesmo princípio ativo, merece uma conversa com o médico. Não porque o similar seja inferior, mas porque ajustes de rotina de tratamento fazem parte do acompanhamento clínico adequado.
Para saber se há indicação de algum tratamento para emagrecer, a Voy Saúde disponibiliza acesso a médicos para uma avaliação online no site www.voysaude.com.
O que lembrar
A queda da patente do Ozempic é uma mudança real, com efeitos concretos que vão se materializando ao longo de 2026. Para quem já está em tratamento, o caminho natural é manter o acompanhamento médico antes de considerar qualquer troca de produto. Para quem aguardava o barateamento para iniciar, há razões concretas para acompanhar os próximos meses de perto.




